quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Três Anúncios Para Um Crime

                “Três Anúncios Para um Crime”(Three Billboards Outside Ebbing-Missouri) centraliza a ação em Mildred(Frances McDormand), mãe que não se conforma com a impunidade (ou desconhecimento por parte da policia) do assassino da filha. O titulo do filme, escrito e dirigido pelo inglês Martin McDonagh, tem a ver com outdoors que a tal senhora paga para colocarem na estrada próxima dos acontecimentos, anunciando a impunidade do crime.
                Basicamente é um enfoque da violência. Parte do fato policial que aparece impune, seguindo desde o relacionamento de Mildred com  o marido(uma cena), ganhando a sua atuação com policiais, especialmente com o xerife Willoghbuy (Woody Harrelson) e ganhando ainda mais força no ajudante dele Dixon (Sam Rockwell). No meio do caminho há até um dialogo da autora dos outdoors com um padre, a quem chama de acolhedor de estupradores de menores. E a culminância vai quando a sofrida personagem incendeia a delegacia de policia.
                Frances McDormand deve ganhar o Oscar deste ano. Já tem nas mãos o Globo de Ouro, e faz aqui o seu melhor papel desde que foi dirigida pelo marido Joel Coen (um dos irmãos Coen) em “Fargo”.
                “Endereço...;” tem uma narrativa dinâmica, com pouco flashback, e capaz de empolgar o espectador. Seu final de aparência reticente na verdade espelha desabafos ou o meio de se alcançar um objetivo no bojo de ação moldada na crueza da vingança.E o curioso nessa jornada é que não se pinta todo mundo de bonzinho. A própria heroína tem seu lado cruel e a filha por quem luta passa na tela nas poucas imagens retroativas como uma rebelde ao mando materno com ímpeto de raiva. E a formula chega até mesmo ao xerife, no caso uma pessoa capaz de raciocinar seu comportamento e justiçar seus atos atentando contra sua própria vida.
                Um roteiro incomum e uma direção capaz deixa um filme de excelente nível, afastado da estereotipia comum à Hollywood, e sem o ranço de densidade que banha muitas produções europeias acomodada no estudo da psicologia de tipos.

                De parabéns a Cinepolis Boulevard que exibe o filme em copia legendada e ganha uma merecida segunda semana. Valeu.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Zé do Caixão

O paulista José Mojica Marins, conhecido pelo tipo que criou em seus filmes, Zé do Caixão,mostrou mais irreverencia que terror na maioria dos   seus 62 trabalhos(há um novo em produção). Na época do governo militar, com a censura golpeando todas as manifestações artísticas. Zé mostrava um grupo de jovens  usando de uma metralhadora e se ouvia em tom de hino:”...porem se a pátria amada precisar da macacada ta-ra-ta-ta-ra-ta-ra-tata”(a turma metralhava os adversários).  Também mexia com os preceitos religiosos do povo focando o tipo comando um churrasco na 6ª Feira Santa vendo-se por uma janela  a seu lado uma procissão.
Os filmes de Marins eram artesanalmente primários, feitos com poucos recursos, mas chegaram a ganhar admiradores até no exterior onde o chamavam de Coffin Joe.

É provável que se veja por aqui um programa dedicado aos primeiros filmes do Zé(os últimos, infelizmente, foram fracos na medida em que ganharam mais densidade técnica). Temos fãs do cineasta-ator. Eu nunca fui, mas aceito sua importância na cinematografia nacional.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Trama Fantastica

                “Trama Fantasma”(Phantom Thread) tem muito a ver com o estilo do diretor Paul Thomas Andersen com a vantagem de contar com um ator como Daniel Day Lewis, um dos mais categorizados que se conhece. Mas o roteiro do próprio diretor me parece diluído na proposta de edificar o tipo principal com as incursões anímicas que envolvem a sua criação e profissão em licenças sobrenaturais. Ele traria uma ligação materna na sua mente e consequente trabalho de modista, e não à toa é assessorado pela única irmã, encontrando o outro tipo de afeto que encararia a sua sexualidade numa garçonete que não por apenas curiosidade se chama Alma(seria a sua alma no trabalho e afeto). Essa formula de tratar a psicologia da personagem mostra-se apegada a uma latente sobrenatural que acaba por diluir o que seria uma trama introspectiva à maneira de uma realização de Antonioni enveredando pelos mistérios “hitchcoqueanos” de Rebeca e mesmo “Vertígo”(Um Corpo que Cai) .
                “Trama...” está no páreo dos Oscar especialmente por Daniel Day Lewis que afirma ser seu ultimo filme. Excelente ator corresponde à fama num papel difícil, até porque se molda em diversas vertentes. E as interpretações ajudam no resultado como a de Lesley Manville, outra figura inglesa em cena (alias o filme é tipicamente britânico) fazendo a mana-secretaria Cyril.
                O fantasma do titulo chega a tomar aspecto “físico”(é o termo) quando Reynolds (Day Lewis), doente (envenenado pela mulher/Alma) vê a finada mãe vestida de noiva perto da porta de entrada de seu quarto. Não é à toa que vestido de noiva é uma das especialidades do figurinista. Nem o fato de não ter caprichado nisso quando casa com a jovem por quem se apaixona de súbito embora jamais se livre dos laços familiares antigos.
                Paul Thomas Anderson é dos poucos cineastas que trabalham em Hollywood com um currículo lotado de filmes densos. Exemplos se acham desde “Magnolia” ganhando a ousadia de fazer Adam Sandler trabalhar bem em “Embriagados do Amor”.
                Não creio que o novo trabalho de Anderson vá ganhar Oscar este ano. Mas não destoa a sua qualidade de cineasta-autor. Pena será Lewis não sair com sua terceira estatueta (ganhou Oscar por “Meu Pé Esquerdo” e por “Lincoln”). Mas será duro vê-lo vencer Gary Oldman no antológico Churchill.

                “Trama Fantástica” deve chegar à pelo menos uma sala de schopping local dia 22/2. Confira.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

The Rock

O ator-produtor Dwayne Johnson, conhecido também por The Rock, produziu o documentário “Rock and the Hard Place”(2017) dirigido por John Albert e Mathew O’Neill, sobre detentos em uma penitenciaria que são selecionados para um programa de reabilitação com base em regime militar. O próprio The Rock sentiu isso na pele. E o filme exala sinceridade, com momentos que lembram “Nascido Para Matar”(1987) de Stanley Kubrick (a cena do sargentão gritando com um subordinado). O filme, da HBO, anda pelo canal correspondente da Sky,
Dwayne está pela segunda vez em “Jumanji”(agora o numero 2 da franquia) fazendo parte de um jogo (videogame)para onde vão garotos jogadores. Uma “aventura na selva” como se fazia no passado e atraia a juventude. Agora tem os efeitos digitais fazendo a festa e sucesso popular se espelha na 2ª, semana em primeiro lugar no “box office” norte-americano e uma terceira aqui nos nossos cinemas de shopping.
Os críticos pouco vão achar de interessante e até pensar que perderam tempo indo ao cinema(podiam ver em casa, em alguma forma de copia) . Mas é bom olhar pela ação menos nociva para com uma falange de plateia que se banha na violência apresentada pela maioria dos filmes de ação. Isto quer dizer que a coisa tem endereço certo. Eu estou de fora. Mas é até bom passar ao largo das salas estupidamente refrigeradas. E ainda da maioria dublada.

Paz Rock.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Nova caça em cinema

                Os industriais e pseudo-criticos de cinema norte-americano atacam Woody Allen pelo simples fato dele ser um gênio. E gênio esse terreno não cultua desde Orson Welles e Stanley Kubrick, personalidades que também sofreram bullyng dos poderosos do meio. Hoje leio que estão atacando atores que trabalharam com Allen na nova forma de “caça às bruxas’ que se pode ver com “bruxas à caça”, repetindo o “macarthismo” na relação de atores que assediaram sexualmente colegas de trabalho. Allen, que foi absolvido de um julgamento da ex-mulher, Mia Farrow, é um dos indiciados nessa gana que confunde as coisas e aproveita para usar de um adjetivo para atacar talento criador. Tal como aconteceu nos anos 60/70 com gente como Dalton Trumbo, Joseph Losey e tantos outros banidos como “comunistas”, agora qualquer delação gratuita ganha o titulo de “assedista” ou tarado.O que procede se anula no exagero que sublinha a inveja de quem tem talento e sabe se expressar. 

Sempre aos Domingos

                O filme “Les Dimanches de Ville D’Avray” ganhou no Brasil o titulo de “Sempre aos Domingos”e muitos pensaram que tinha a ver com “Nunca aos Domingos” de Jules Dassin. Nada disso e o nome têm base. Hardy Kruger faz um piloto obcecado com a morte de um a menina em um acidente profissional e encontra um pai desesperado deixando a filha em um orfanato religioso com a promessa de vê-la só aos domingos. Mas ele sabe que o homem está fugindo de qualquer obrigação e a menina jamais o verá . Lembrando sempre o seu drama, afeiçoa-se da garota e passa a busca-la no rigoroso colégio nos dias previstos e com ela manter um relacionamento paterno. Isto até que uma tragédia se aproxime.
                A menina se chama Cybelle mas as freiras acham o nome feio e mudam para Françoise. Numa das saídas domingueiras ela conta ao piloto como realmente se chama. Ele acha o nome muito bonito e ela explica a origem mitológica.
                O filme é um dos poucos do diretor Serge Bourgninon. Emociona sempre. A garota, Patricia Gozzi nasceu em Paris, em 1950 e fez 7 filmes até 1973. O diretor também deixou o cinema em 1992 depois de 12 trabalhos inclusive para a TV. Este que ora se reprisa por aqui é o mais aplaudido. Ganhou o Oscar de filme estrangeiro em 1964. Passou em Belém nessa época e chamou a atenção da critica, em especial de Maiolino Miranda, medico psiquiatra e fundador de um cineclube (“Os Neófitos”) . Maiolino gostou tanto que deu à sua filha o nome Cybelle. Hoje que ele não mais está entre nos a exibição ganha um tom ainda mais importante. Trata-se de um raro filme em que a linha melodramática é diluída em excelentes interpretações, ambientação e cinegrafia corretas, traduzindo com presteza uma historia em que se poderia perder espaço e tempo numa busca pela psicologia de personagens ou estudo mais acurado do drama básico que cerca as atitudes do piloto vivido pelo até então pouco aplaudido Kruger(de “Entrevista com a Morte”, “Ingênua até Certo Ponto” e uma pequena participação no “Barry Lyndon” de Stanley Kubrick).
                Gozzi, no filme exalando simpatia em seus 12 anos, marcou um tempo. E ainda tem no elenco Nicole Courcel a única do grupo que já deixou este mundo(morreu aos 84 anos em 2016 depois de fazer 70 filmes , entre eles “O Testamento de Orfeu”de Jean Cocteau e “ Noite dos Generais” de Anatole Litvak).

                Uma revisão oportuna não só pela qualidade do filme, mas por lembrar o nosso Maiolino, um cinéfilo autentico.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

The Post,- A Guerra Secreta

                “The Post”(Guerra Secreta), novo filme de Steven Spielberg, segue a linha de “Todos os Homens do Presidente”(All the President’s Men), de Robert Mulligan, retratando um episodio da historia politico-jornalística dos EUA, ali reportando o Caso Watergate ou a invasão do espaço do Partido Democrata pelos republicanos do então presidente Nixon (fato que levou a abdicação deste).Aqui é a Guerra do Vietnam. Alimentada pelos governos desde Eisenhower, seguindo até mesmo o democrata John Kennedy, a luta nas matas asiáticas servia à imposição governamental estadunidense contra o comunismo e paralelamente a interferência no governo do Vietnam do Sul, capitaneando a propaganda da força americana na área e com isso a ideia de que o mundo dependia dos EUA. Não importa se para a propaganda se usasse vidas humanas (soldados que morriam em série) e uma improvável vitória. Valia apenas a imagem de um governo capitalista forte.
                O filme atual soma-se a tantos que criticaram especialmente o governo Nixon. Retrata a disputa dos jornais Washington Post e New York Times pelos documentos do Pentágono que diziam do oportunismo que cercava a campanha bélica no Vietnam. O roteiro de Liz Hannahh e John Singer começa com uma sequencia da guerra onde muitos soldados americanos morrem na mata alvejados pelos chamados vietcongs. O homem que escapa segue para Washington e é quem vai contar os fatos, embora contestado desde a viagem pela autoridade governamental. Este documento é que chega primeiro ao “...Times”, em seguida censurado e proibido de continuar publicando-o, e acaba nas mãos do “...Post” que é quem se focaliza com mais detalhes, seguindo a dona do jornal, Kay Grahan (Meryl Streep excelente) que frequentava a alta roda da sociedade americana da época ( e sentia não ter sido convidada para o casamento da filha do presidente), herdeira do jornal com a morte do pai, ela que acaba deixando que os fatos sejam publicados arriscando-se não só à censura estatal como a do concorrente por assumir matéria que era dele.
                Tom Hanks , ator dos preferidos do diretor, também se apresenta brilhante como o jornalista do “...Post” que ousa a publicação proibida.
                Uma produção cara, com recriação da época até numa sequencia de tribunal, o filme não deve ser popular em países fora dos EUA ou quem desconheça o dado histórico. Mas é muito bem realizado e advoga a liberdade de imprensa na oportunidade que se oferece agora no governo Trump onde os jornais são alvos da “zanga” do republicano milionário (e intelectualmente criticado ao extremo).

                Candidato aos Oscar de filme e atriz fa merecedor. Não se sabe é por que Spielberg ficou de fora. Não é a primeira vez que se faz isso com ele. E o cineasta é um dos que mais vende cinema.