sábado, 21 de julho de 2018

A Ilha dos Cachorros


  “A Ilha dos Cachorros”(Dog’s Island) é um stop-motion de Wes Anderson ambientado no Japão. Você jura que é um filme japonês, em especial do Estudio Ghibi do mestre Hayao Myiazaki. Trata de um prefeito que bane todos os cães do lugar para uma ilha, incluindo Spot, bichinho de estimação de seu sobrinho Atari. Um dia, este sobrinho cai com seu avião na ilha onde estão os cachorros e ajudado por uma matilha de lá parte em busca de Spot. Nesse meio tom se sabe que o prefeito quer matar toda a bicharada. E começa uma revolta estimada pelo fim do dirigente despótico.
                O desenho quadro a quadro é uma especialidade em que o diretor de “A Vida Marinha de Steve Zissou”reincide. Fez antes “O Fantastico Senhor Raposo”. Mas a nova produção não é só mais criativa como desafiadora na concepção de outra cultura.
                Um filme muito criativo, capaz de agradar não só as crianças (como se pensa quando se trata de desenho animado). Programa diferente neste cardápio de mesmices oferecido pelos cinemas comerciais. Se você for ver e não souber que se trata de uma obra norte-americana vai pegar um susto ao ver o nome do diretor no final. É joia nipônica.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Doador de Memorias


 “O Doador de Memorias”(The Giver) vem de um livro de Loïs Lowry que lembra muito “Divergente” de Veronica Roth.Ambas as obras literária acenam para outras historias de outros mundos como “Jogos Mortais”. Na pauta uma comunidade hegemônica no futuro onde todo mundo é manipulado no sentido igualitário, onde até quem nasce passa por um crivo em que sobrevivem os saudáveis. No caso faz-se alusão ao nazismo e também ao comunismo utópico. Há igualdade de etnia e humor como há limite inclusive geográfico para que não se contamine um posto em que inexistem guerras ou mesmo animosidades. Todos são iguais e há um policiamento para que assim seja e perdure.
            No filme do australiano Philip Noyce, ora em bluray, quem comanda o lugar é uma guardiã interpretada por Meryl Streep. Quem é o doador de memorias do titulo brasileiro é vivido por Jeff Bridges. Um dos jovens habitantes do lugar ganha a confiança de receber memorias de um velho habitante, afinal quem se rende ao “outro mundo” onde há desigualdades, até guerras, mas “há coisas que não se vê e se sente...como o amor”.
            O tema é sempre fascinante. Pode levar a diversas formas de enredo. E criticas sociais. Mas no caso do cinema resta um bom artesanato e um final reticente onde/quando quem foge do sistema despótico pode (ou não) se dar bem neste mundinho cheio de defeitos onde, afinal, se sente “mais alguma coisa além do vento”.
            A implicação filosófica é sempre interessante. Pena que o filme que ora se lança no mercado de vídeo é demasiadamente esquemático, traçando o conteúdo como uma trama quase policial com braço aberto na ficção-cientifica.
            De qualquer forma, “O Doador de Memorias” é um programa que não atiça o sono. Vi de um tapa. E achei engraçado ver Mary Streep de matrona despótica quase sempre navegando transparente por cenários “futuristas”(a ação se dá em 2049_) traçados com pouco recurso financeiro, driblando a improvisação “tapa buraco”.
            Programa curioso. Quem perdeu no cinema pode arriscar.



Win Wenders


                O cinema Olympia exibiu uma retrospectiva do diretor alemão Win Wenders. Mas dois filmes recentes dele estiveram de fora. São, pela ordem de estreia, “Submersão” e “Papa Francisco”. O primeiro está em canal de TV pago e já ganhou download. Trata de um casal que se lança em projetos paralelos: ela quer achar vestígios dos primeiros indícios de vida no fundo do oceano e ele projeta agua encanada para populações menos favorecidas do oriente. As historias que começam a ser narradas de per si ganham uma feição incomoda quando passam a ser vistas em separado, usando o artificio quando o personagem masculino segue viagem para outro país. O final é reticente como virou moda no cinema atual. Ela acha resquícios orgânicos na área mais profunda do mar e ele sofre torturas de inimigos de seu projeto (e sua posição politica) e se lança n’agua em praia proxima como quem procura o amor perdido (e afinal a própria vida). Não há proposta poética visível. A narrativa parece tradicional e não convence. Wenders aparece muito longe do tipo de cinema que o consagrou. Sim, as falas são em inglês.
                O filme sobre o papa, um documentário, não chegou ainda por aqui. Gostaria de ver. Mesmo porque o cineasta me parece muito distante de quem assuma um projeto desses.
                Hoje busco cinema em janelas da internet. As locadoras estão minguando (em S. Paulo fechou a tradicional 2001 Vídeo). Restam as distribuidoras que vendem diretamente ao consumidor. Os cinemas comerciais procuram sobreviver com os filmes de super-heróis e aventuras de muitos efeitos especiais. Nada de atrativo a maiores de 12 anos. O espectador exigente ou vai à uma sala alternativa (falar nisso, cadê a da Estação das Docas, dona de um projetor digital ?) ou fica em casa vendo cinema na sua  tela de tv.Bom para uma cidade onde a rua é um perigo em potencial de assaltos/acidentes.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Rever Chaplin


                No auge do cinema falado, quando Hollywood mostrava as garras das produções de estúdios, as comedias mudas chegaram a ser esnobadas. Mas o publico as preferia aos melodramas desse tempo. Chaplin comandava. E hoje prossegue a preferencia. Outra vez a Sessão com Musica do nosso centenário Olympia exibe Chaplin. Com musica ao vivo, é hora de rever “Vida de Cachorro “e “O Imigrante” dois clássicos deste artista que marcou o cinema e alias virou o seu símbolo .
                A comedia de Chaplin quase não tinha intertítulo. Tudo era visual e inteligível. Ele filmava dezenas de vezes uma cena e na busca da perfeição passava horas com seu elenco e pessoal técnico. Um curta metragem do comediante gastava muitas vezes mais tempo na produção do que um longa de pretensão dramática.
                Quando eu era criança e tinha meu cachorro gostava especialmente de “Vida de Cachorro” onde um au-au era estrela. Mas “O Imigrante” é a chegada de Carlitos à América. Sempre inglês, sem nunca se naturalizar (fato que pesou na sua “deportação”), mostrava  seu personagem chegando de navio a New York, vendo a Estatua da Liberdade, contracenando comicamente com parceiros de viagem. Não era um documentário, mas uma visão em que o alegre se opunha ao triste num quadro real de um tempo. Fosse hoje, com a garra anti-imigração de Trump, Carlitos estaria expulso antes de chegar. Artista de sempre, previu a garra xenófoba dos norte-americanos e mostrou como o imigrante era um herói sofrido. Seu filme está entre os seus clássicos de curta metragem. Sempre é bom de rever. Como, aliás, tudo de Chaplin, talvez com exceção “A Condessa de Hong Kong”, sua despedida como diretor, uma ousadia do velho cineasta a pedido da Universal Pictures.
                Que mais Chaplin chegue às nossas sessões especiais pontuadas pelo Paulo José na tecla. O publico comparece sorrindo antes de sentar. E não há idade para marcar este publico. Todos riem do sempre Carlitos...

segunda-feira, 2 de julho de 2018

2 Filmes, 2 Guerras


Filmes sobre a guerra, sem necessariamente se apegar a batalhas, surgiram em Hollywood alguns como más lembranças do conflito. O clássico “Os Melhores Anos de Nossas Vidas”(The Best Years of Our Lives) tratava do pós-2ª.(guerra mundial) e focalizava os soldados que vinham do front no plano social, com perda de emprego e de família. Agora a guerra é outra, no caso e do Iraque. e em “Honra ao Mérito”(Thank you for your servisse) de Jason Hall limita-se  a perda do amigo, o efeito de combate no físico do soldado, o relacionamento das famílias que tiveram filhos convocados. O roteiro tarata de três soldados: Adam Schumann (interpretado por Miles Teller), Billy Waller (Joe Cole) e Solo (Beulah Koale). Eles sentem a morte de um colega e sabem da impossibilidade de voltarem ao campo de batalha mais pelo aspecto físico que passam a apresentar. Mesmo assim há falas sobre como ficarão seus familiares financeiramente. O drama é prolifero e os filmes não exaltam os conflitos engendrados por seus governantes(no caso de “Os Melhores...” até que não se fala nisso, mas em “Honra..”é claro que a ida ao Iraque foi uma manobra politica malsã).
Ainda falta coragem no cinema indústria para se opor a manobras politicas que propiciarão tragédias. Felizmente há filmes que denunciam isso. Mas não é o caso dos exemplos citados. É como se a tragédia fosse um ato do destino. Lamentável mas não em sua origem.



segunda-feira, 25 de junho de 2018

Hereditario


                Annie (Toni Collette) perdeu a mãe e não demora a perder a filha de 13 anos, Charlie (Millie Shapiro), em um desastre de carro quando esta regressa com o irmão, Peter (Alex Wolf)de uma festa de colegas dele onde a presença da menina é mais um capricho materno para livra-la de uma ligação com a avó morta (inclusive visão de espirito ). Atormentada, Annie encontra apego nas sessões mediúnicas ensinadas pela vizinha Joan(Ann Dowd), recém perdedora de um filho e um neto. Compreensivamente a filha/mãe passa a exibir um comportamento patológico. Seria uma pessoa doente e como tal passa a fazer as evocações de espíritos em sua casa convidando para frequentar essas evocações o marido,Steve (Gabriel Byrn) e o agora único filho Peter. O comportamento se agrava quando ela vai ao sótão ,espaço pouco procurado, onde encontra um corpo humano e  livros de magia negra. Ali entra em cena o papel de um demônio que estaria atuando sobe a família.
                “Hereditario”(Hereditary) é o primeiro filme de longa metragem dirigido pelo roteirista formado pelo AFI (American Film Institute) Ari Aster.Começa bem e sempre mantém uma linguagem interessante em especial por desempenhos de Toni Collette e do jovem Alex Wolf(este em esplendidos closes demorados que desafiam sua capacidade de interpretar). Salta da mesma forma a iluminação que dosa bem os claros e escuros  e com isso realça o drama que se liga ao sobrenatural sem apelar para recursos comuns em filmes de terror como os acordes súbitos(há dois, mas viáveis) e aparições disformes. Mas o que seria uma obra-prima de suspense a partir de um drama de base psicológico vira, nas ultimas sequencias, um arremedo de “O Exorcista” aludindo explicitamente os demônios que estariam vagando pelo mundo atrás de pessoas vulneráveis.
                O comportamento de Annie, bem moldado por Collette, logo se submete a clichê de filmes rotulados de terror. Há inclusive um fecho em aberto que não se pode narrar para quem ainda não viu o filme. Mas certamente sobra uma caricatura do que até momentos antes era um exercício de suspense com explicação cientifica. Parece que o roteirista-diretor ficou com medo de afastar a bilheteria se acabasse a sua historia com uma entrada de alguém no manicômio ou quem acordasse de um pesadelo. Ficou um ralo por onde escorre a boa intenção que abre o seu “Hereditário”. Por sinal que até a explicação do titulo, levando o comportamento de personagem a um liame genético cai por terra apesar de uma explicação no inicio, dada por Annie, de quem em sua família houve muitos casos de doenças nervosas.
                Uma pena, Senti que perdi meu tempo indo ao cinema. O filme poderia muito bem ser consumido em vídeo ou “download” em geral. Tamanho da tela não influi muito na amostragem do jovem cineasta. Isto não quer dizer que ele não seja capaz. É bom. Sabe conduzir um longa metragem, mas está ainda preocupado demais com o comportamento de seu trabalho no box-office.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Nosferatu


                F.W.Murnau usou o nome “Nosferatu” em seu filme de 1922 porque a viúva do escritor Bram Stoker não deixou que chamasse o vampiro da historia de Dracula, como era conhecido da literatura. Apesar disso, Nosferatu acabou sendo marca do personagem que Stoker delineou e no cinema deu inicio à uma série de filmes “de terror” que ainda hoje ganham bilheteria.
                Nesse inicio dos anos 20 o cinema alemão se apegava ao que se chamou de expressionismo e há quem veja na exposição de imagens disformes e contrastadas (claro e escuro) como a forma de mostrar a situação do país depois da I Guerra Mundial, quando uma hiperinflação dominava o mercado e o povo sentia o pavor que seguiu o conflito. Há mesmo quem veja no expressionismo de filmes como “Nosferatu”, “O Gabinete do dr Caligari” e tantos outros como uma alusão ao que viria com o advento do nazismo, uma onda de terror que impulsionaria o país a outra (e mais terrível) guerra.
                No clássico de Murnau há um quadro típico da escola estética, com o esmero da fotografia de Fritz Wagner e especialmente a mascara do ator Max Schreck(1879-1936) que não só faria esse tipo de monstro como adotaria o Kammerspiele, movimento de reação ao cinema expressionista pouco antes de sofrer um ataque cardíaco que o vitimou quando ainda trabalhava em cinema. Por sinal que o Kammerspiele adotava uma fotografia bem iluminada e roteiros que deixassem a plateia mais otimista.
                Rever “Nosferatu”, por sinal com copias reeditadas em HD, é conhecer um capitulo importante da historia do cinema. Sessão oferecida no Olympia neste junho.