terça-feira, 9 de julho de 2019

O Fim do Mundo


.              Abrindo um programa de filmes do gênero ficção-cientifica estará em cartaz no cine Olímpia “O Fim do Mundo”(When Worlds Collide) de Rudolph Maté & George Pal. Não se trata apenas de um bom titulo do gênero. Há uma historia por trás dele referente à estreia no mesmo cinema em 1953. Resumo: naquele ano a sala de projeção estava muito deteriorada. O publico pedia reforma. E a empresa exibidora, a S.Luis de Severiano Ribeiro, não fazia. Restavam poltronas sem estofo, ventiladores (nada de ar condicionado)  e piso de lajotas. Os estudantes, encabeçando um movimento, pediam o que o jornalista Edwaldo Martins registrava, anotando “piso acarpetado” que parecia uma característica de um estilo.
                Começou uma greve. Colegiais iam para diante da bilheteria do cinema barrando quem ia comprar ingresso. E os poucos que desobedeciam presenciavam na sala de projeção a continuidade do protesto em cheiro de substancias como gás sulfídrico (que o porteiro de então tentava minorar atirando nos corredores café moído).
                Nesse período estava marcada a estréia do filme “O Fim do Mundo”. Diziam que era uma metáfora aludindo ao próprio cinema. Eu que esperava o filme torcia para que chegasse ao menos para o dia da estreia. E chegou. Foi um hiato no período de protestos. Não deu margem à reforma esperada mas salientou que vivíamos, nos paraenses, num fim de mundo. E a empresa exibidora, para calar protestante (entre eles os lendários Farahzinhos), comprou um terreno na av, Nazaré e colocou uma placa: “Breve, aqui, o cinema S. Luís, o maior do norte do Brasil”. Os acompanhantes do Círio passaram por ali em cerca de 3 anos. Nada de cinema nem a placa saia do lugar. Foi preciso, em 1959, que surgisse o Cine Palácio e aí sim, Ribeiro colocou no já velho Olímpia os sonhados ar condicionado e poltrona estofada.
                “O Fim do Mundo” marcou um tempo. E ainda hoje é um dos bons filmes de Pal, o húngaro que chegou aos EUA com os bonecos Puppetoons e se dedicou a produzir ficção-cientifica, gênero na época que era restrito à serie b com os seriados de 12 a 15 episódios feitos com parcos recursos.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Obsessão


Isabelle Huppert mostra um pouco de sua versatilidade fazendo uma supervilã em “Obsessão”(Greta) o filme do irlandês Neil Jordan que andou sendo anunciado para uma sala de shopping em Belém.
Isabelle é Greta, uma viúva tresloucada que “caça” quem pega uma bolsa que ela deixa no metrô ou ônibus e vai entregar o objeto em sua casa, ganhando em principio um cafezinho e em seguida mostrando um afeto que irmana em sequestro.
O filme se enquadra no terror à maneira de muitos em que pessoas sofrem prisões por conta de psicopatas que podem ser homens como damas aparentemente solitários/as (e  por isso tristes).
Isabelle é o enfoque. Sua Greta vai se revelando à jovem Frances(Chloe Grace Moretz) uma garçonete órfã de mãe e pouco relacionada com o pai, morando com uma amiga. Gradativamente esta jovem vai sabendo quem é a dona da bolsa, quem se faz passar como coitadinha e como se torna refém numa prisão apavorante à maneira de muitos filmes da linha pesadelo. Não falta nem mesmo a busca pela prisioneira em paralelo com as torturas da carcereira e o final previsível e aceitável pois não há como interromper a narrativa com a vilã ganhando a festa.
Você pode ter visto muitos filmes parecidos mas dificilmente despregará os olhos da tela. Obsessão” é um programa que se assiste de um fôlego, e não há como deixar de aplaudir Isabelle fazendo um novo tipo na sua extensa filmografia.
O tipo do programa para divertir. Se realmente chegar às telonas locais vá ver. Deriva a dieta de super-heróis da Marvel. E só por isso já vale o ingresso.


Rocketman


Para quem desconhece a musica de Elton John parece uma temeridade ir ver “Rocketman” o filme de Dexter Fletcher ora em cartaz nos cinemas.  Mas o esforço do ator Taron Egerton, mesmo fisicamente distante do biografado, a coisa salta do limbo. E o roteiro de Lee Half consegue jogar com realidade e irrealidade, ganhando metáfora e devaneios com uma certa precisão cronométrica que não se importa com uma narrativa tradicional, preferindo traçar um perfil de Elton John sem o aspecto físico pura e simplesmente.
O filme começa com John chegando à uma reunião de Alcoólatras Anônimos, ele vestido com o espalhafato de fantasia que costumava usar em seus shows. Na ocasião o artista pretendia livrar-se do álcool e de cocaína (além de “outras tantas drogas” como diz). Da sequencia as imagens decolam para a infância do personagem, arranhando a sua discrepância  com os pais, chegando a descoberta do homossexualismo, conhecendo o melhor e durável parceiro(e o namorado que seria o vilão da historia). No compasso há uma cena em que todas as figuras surgem na sala do AA e é como Elton John tenta se achar, saindo daí para a rua cantando e vendo muitas pessoas dançando com ele.
Há excessos, especialmente nas sequencias de musica, com alguns números tentando através da postura do executor a definição do que ele sente (e age). Mas o conjunto se salva através do empenho do elenco, em especial de Egerton que traduz bem momentos de angustia e de teimosia com relação a sua criatividade musical. Isso deixa o filme em um patamar bem melhor do que o festejado “Bohemian Raphsody”que o diretor Fletcher apenas finalizou depois da saída de Bryan Singer.
Eu não sabia que o John adotado pelo cantor vinha de John Lennon o Beatle. Sabia que ele esteve no Brasil percorrendo cerca de 3 estados. Isso não se mostra no filme. Interessa a tradução comportamental do fantasiado que procura os AA e narra sua vida. O aspecto carnavalesco da vestimenta diz bem de quem se trata em um tempo. Por sinal que o verdadeiro Elton John viu o roteiro. Diz-se aposentado na casa dos 70. Deve ter aprovado o filme pronto.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Fronteira de espécies


“Border” (que por aqui poderia se chamar “Fronteia”) vem de uma historia de John Ajvide Lindqvist que mexe com a teoria de Darwin de forma  como que estancando entre a evolução do animal ao “homo sapiens”, focalizando a jovem Tina (Eva Melander) como uma espécie de fera (uma espécie de reverso da personagem de “A Bela e a Fera”) trabalhando como policial na fronteira de seu país e identificando fraudes pelo cheiro. Ali ela encontra um igual, Vore(Eeron Milonoff)com quem passa a manter um relacionamento intimo sabendo que ele tem vagina e ela um pênis, até aí jogando com o defeito na evolução física (pouco se sabe dos pais desses tipos embora se tenha alguma citação dos de Tina).
Os personagens extremamente feios formam o estranho romance que o diretor Ali Abasi trabalha muito bem, amparado na primorosa maquilagem tratada por 22 técnicos. Eles conseguem que a simpática Eva apareça um monstro, deixando dela apenas o nariz (a lembrar o de Daniel Auteil e Carmen Maura).Interessa primordialmente a sensibilidade do “monstro”, não só a capacidade animal do faro como o relacionamento platônico com um namorado e o físico com o comparsa de sexo que na verdade é “a” comparsa numa sequencia crua .
Trata-se de uma produção sueca muito curiosa e capaz de jogar com a lenda e a realidade sem que seja preciso adentrar muito nos problemas psicológicos advindos da capacidade dos “animais” terem evoluído apenas em parte na escadinha que Darwin estudou.
Um filme sobretudo diferente. Seria uma Bela e a Fera sem príncipe e no lugar dele outra Fera. Enfim um argumento novo no mundo de super-heróis que invadem as telas de hoje;

sábado, 11 de maio de 2019

O Sheik Valentino


                Um dos filmes que mais cativou as fãs de Rudolph (aqui Rodolfo) Valentino é “O Sheik”(The Sheik/ 1921) dirigido por George Melfor com ele e Agnes Ayres atriz que viveu pouco (morreu aos 42 anos em 1940) e mesmo assim fez 93 papeis em cinema. Ele é o sheik que manda na região do deserto para onde vai bater a inglesa Diana Mayo e que impressiona tanto a jovem estrangeira a ponto de gerar uma paixão e isto ajuda que ela salve o personagem por sinal um homem culto, com passado em universidade ocidental.
                O filme foi feito para Valentino. Aqui se chamou “Paixão de Bárbaro” e fez tanto sucesso que o ator voltou ao papel em “O Filho do Sheik” em 1926 (por sinal seu ultimo ,tendo falecido no mesmo ano com apenas 31 de idade).
                É claro ainda hoje a marca do estrelismo capitaneando a trama. O sucesso nos cinemas foi enorme e Valentino  tinha acabado de fazer “A Dama das Camélias” outro titulo que empolgou as fãs. Por aqui há até uma lenda de que um rapaz que foi ao cinema com a namorada e ela começou a elogiar apaixonadamente o ator ele pegou de sua pistola e atirou na tela. Naquele tempo, se verdade, o porte de armas preconizado agora pelo governante brasileiro já existia.
                Quem estuda historia do cinema tem a obrigação de ver este e outros filmes com atores e atrizes que chamavam a atenção. Era a gênese do “star system”, afinal a mola que formou Hollywood.
                Exibição no Olympia(onde o filme estreou)com musica ao vivo. Dia 14/5


quarta-feira, 1 de maio de 2019

Os Deuses Malditos


Alemanha, 1933. O barão Joachim Von Essenbeck (Albrecht Schoenhals) comunica que está deixando as suas usinas de aço nas mãos de um desconhecido. Ascende o nazismo e a família de milionários luta internamente pelo poder nem que seja preciso assassinar parentes.
As imagens privilegiam a nora do patriarca ( Ingrid Thulin), tentando assumir a liderança da siderúrgica da família depois da morte do sogro e a meta de usar o filho pedófilo (Helmut Berger) comandando a empresa, e seu amante, Friedrich Bruckmann (Dirk Bogarde), ganhando poder na postura cada vez mais evidente de um membro do III Reich.
Luchino Visconti retrata a supremacia do nazismo como um grande baile onde o macabro patrocina presente e futuro da sociedade alemã dos anos em que se viveu a 2ª.Guerra Mundial. Para isso o cineasta preferiu a qualidade plástica de seu projeto, levando em conta a fotografia de Armando Nanuzzi e Pasqualino Di Santis e a cenografia onde trabalharam Pasquale Romano e Piero Tosi. O filme é considerado, portanto um painel da Alemanha nazista por trás de campo de batalha. E é justamente este aspecto plástico que imortalizou o trabalho do grande cineasta italiano, ele próprio um intelectual de esquerda(dizia-se comunista embora um conde na descendência ).

            “Os Deuses Malditos” é um dos mais polêmicos filmes do diretor de tantas obras-primas (como “Rocco e seus irmãos”). Aqui ele deixa totalmente a métrica neorrealista que patrocinou os trabalhos de autores de sua geração e se aventura numa superprodução que só lhe sensibilizaria anos depois em “O Leopardo”.
            Boa revisão agora em sessão especial promovida pela ACCPA.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Não Será um Estranho (?)


 “Não Serás um Estranho”(Not as a Stranger/1955) foi o primeiro filme que Stanley Kramer dirigiu. Ele já era um produtor aclamado por filmes como “Cruel Desengano”, “8 Homens de Ferro”, “A Nave da Revolta” e mais alguns quando se lançou a dirigir e faria outros grandes trabalhos. Eu me impressionara ao ver o filme quando ainda estudava medicina e achava que era o melhor já feito sobre o curso medico e o que o formando faria na vida pratica. Hoje revi e sinceramente achei que o entusiasmo do passado era próprio de um tempo. Mas o filme é bom. Tem Robert Mitchum num papel digno de seu porte (sempre me pareceu antipático). E Frank Sinatra brilha no papel de coadjuvante.
                O medico falha, diz o roteiro de Edna Anhalt, Edward Anhalt e Moton Thompson. Se o doutor novato de Sinatra tira um sinal do rosto de uma paciente e Mitchum briga pois podia ser canceroso, ele, Mitchum, operaria seu professor apressadamente e o paciente morreria “na pedra”       
                Há inclusive alusão à instabilidade emotiva com  doutor de Mitchum sendo infiel à dedicada esposa vivida por Olivia de Havilland (a sobrevivente do elenco, com hoje 102 anos, pouco faltando para 103) . O roteiro desafia o parâmetro hollywoodiano dos bons moços. E o filme narra bem os fatos. Um bom trabalho de Kramer embora não se demore nos perfis psicológicos nem adentre pelo curso medico em geral, sem mostrar os colegas dos principais personagens (afora os planos de auditório, com todo mundo visto de longe).
                Vale ser visto agora, mesmo com os cursos médicos não serem mais os mesmos.