terça-feira, 17 de setembro de 2019

Anna ou Kikita


“Anna, O Perigo tem Nome”(Anne) é mais um filme de heroína por Luc Besson, cineasta francês de 60 anos de grande popularidade internacional a ponto de gastar milhões de dólares em uma produção ambientada em vários países contando a historia da agente Anna  Parillaud (interpretada por Sasha Luss) que trabalha para a KGB (União Soviética, morando em Moscou) e para a CIA numa simultaneidade que implica em muita (e bote muita)violência.
O filme esteve nos cinemas comerciais de Belém por cerca de 3 semanas. Parece-me que seria ainda mais comercial se o roteiro(do próprio Bresson) não jogasse a trama no tempo indo e vindo com os anos no correr da narrativa.
O objetivo é puramente visual, é ação por ação. Vi na mesma semana outro filme bem mais substancioso do mesmo cineasta:”Além da Liberdade”(The Lady/2011) historia de Aung San Suu Kyi lutadora pela volta da democracia em Burma, sofrendo a ausência do marido inglês,um diplomata vencido pelo câncer.         Prova de que Bresson sabe fazer bom cinema (e já havia provado em “O Profisiional” e “Quinto Elemento”,
                Em “Anna” Bresson volta a “Nikita” seu flme de 1990 também sobre Anna Parillaud. Não é só replay é imaginação diluída e consciência de que o espetáculo faustoso e movimentado ( no caso pela violência) é o que seduz plateia (e o pior é que é verdade).
                Filmes diferentes vindos da mesma fonte. Mesmo assim ganhei vendo-os em casa. Já não tenho paciência de ir a cinema assistir a mesmices.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Yesterday


  “Yesterday” parte, através de um roteiro imaginoso de Richard Curtis, para uma premissa que lembra “A Felicidade Não se Compra”(It’s a Wonderful Life):o que seria no mundo se os Beatles não tivessem existido. É assim que o modesto compositor Jack (Himesh Patel) passa, depois de um acidente, a pensar e usar as musicas do conjunto inglês como suas, alimentando a paixão que tem pela modesta funcionária Ellie (Lily James) .
            O fato se dá na forma de um cataclismo com as luzes da cidade apagando por breve instante. E não é só o apagão dos Beatles mas até da Coca Cola. Isso não quer dizer que a vida em Liverpool prossiga normalmente e Jack vire um ídolo tocando algumas das principais canções do conjunto que marcou um tempo.
            A idéia de mostrar um cenário sem um ator principal não é nova mas sempre funciona. Pena é que a direção de Danny Boyle (“Quem quer ser um milionário”) não vá fundo nisso. E deixe furos, mesmo quando assina a fantasia e mostre o modesto compositor visitando John Lennon e vendo o Beatle com mais de 70 anos quando se sabe que ele foi assassinado aos 40. Seria um aceno poético que a narrativa não acompanha. O enredo acha melhor focar o romance de Jack com Ellen e marcar a cena em que ele confessa ser usurpador dos Beatles (dizendo quem é quem) e abandonando um palco adiante de multidão para ir ao encontro da amada que por sinal já está trilhando um caso com outro homem.
            O “esquecimento” dos compositores que marcaram uma época não ganha a dimensão que se podia achar. A musica dos Beatles impulsionou o rock e alimentou uma geração que demoliu velha arquitetura moral e impulsionou a criatividade não só no terreno musical. Como está no filme, trata-se apenas de um veio de compositores & canções que logo agrada a quem passa a conhecê-lo,  trocando Coca Cola pela concorrente Pepsi Cola e indo tudo bem num mundo sem graça (aliás não se espelha isso: todas as personagens vivem alegres num cenário que parece não sentir falta de quem compôs”Yesterday”e tantas outras joias da musica popular de um tempo -e ainda hoje lembrado).
            Seria interessante se o filme, seguindo a opção de apagar um episodio do passado mostrasse como isto fez falta ao presente e se as ideias apagadas permanecessem no ar experimentabdo o gosto da fama que viria embalado por uma licença poética moderna . No caso de “A Felicidade...” a vida sem George Bailey era colocada num mundo reacionário onde uma boate viraria um cinema exibindo “Os Sinos de Santa Maria”. Não é bem virar da esquerda para a direita mas uma concepção de liberdade através de gerações com os modelos seguindo acontecimentos que marcam tudo e todos.
            “Yesterday” é um filme instigante como um jogo em que se deixa a bola cair no meio do campo. Uma pena. Poderia ser tão bom quanto as canções evocadas.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Bacurau


                 Bacurau é uma aldeia (ou mesmo cidade) encravada no sertão nordestino (no caso Pernambuco)e que um habitante chega a definir sua geografia como “no cu do mundo”. Este deserto seduz estrangeiros que veem ali um veio de tesouro (não se define qual ou como). A reação que se faz entre esses estranhos e o povo humilde do lugar é palco de violência. E os pobres aprendem que a vitória consiste em resistir. Com armas nas mãos.
                O filme de Kevin Mendonça Filho e Juliano Dorneles ganha um caráter atual que leva o publico a se comover com o que vê. Afinal este é o Brasil de hoje, é a terra onde os humildes “podem morrer que não fazem faltas”. E ensina a predica que gerou a Revolução Francesa: ir à luta pela sobrevivência.
                Um esforço grande dos cineastas. Não só pela cenografia construída de forma a ressaltar metáforas como no trabalho do elenco (todo). Salta a veterana Sonia Braga como uma espécie de oraculo ofertando  “doces” aos “bandidos” como isca para ratos.
                O Brasil de hoje será composto de Bacuraus à espera de uma reação que o legitime como nação de todos. O filme enfatiza o desprezo aos humildes e ganha corpo quando se vê que em um museu estão as armas que os defenderá (valendo dizer que uma reação é coisa do passado que pode ser retomada se necessário). E há dezenas de metáforas. Os tipos usam camisas com dísticos em inglês, os gringos portam objetos nos ouvidos para identificar idioma, os que se revoltam se refugiam em buracos na terra, seguindo os tantos mortos que se vão somando, o herói da resistência é tido como bandido com estadia em prisão e um candidato a cargo eletivo é colocado no devido lugar de usurpados dos direitos alheios, deixado com mascara de palhaço e posto para fora de Bacurau (é melhor deporta-lo do que mata-lo).
                O filme vem sendo aplaudido até mesmo no exterior. Bom resultado para o Brasil de agora onde se define como nunca a dicotomia entre ricos pobres.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Dia da Raça


No meu tempo de criança o dia 5 de Setembro era considerado “Da Raça”  e os colégios desfilavam em marcha havendo acirrada disputa entre eles. Ninguém estimava que aquilo era uma das façanhas do ditador Vargas a seguir o italiano Mussolini (Il Duce) e o alemão Adolf Hitler(Fueher). A habilidade de Getúlio Vargas era abraças os menos favorecidos, criando planos de saúde e aposentadoria, ganhando títulos de “pai dos pobres”(e os opositores acrescentavam “mãe dos ricos”). Lembro das apoteoses nos teatrinhos da Festa de Nazaré quando se colocava o retrato de GV  e se cantava como no ano em que  ele saiu da chefia da nação “Bota o retrato do velho outra vez”(“...o sorriso do velhinho faz a gente se animar...”).
A ditadura militar de 1964 não usou das mesmas armas. E hoje não se comemora dia de raça. Já não se atina para uma forma de ganhar a simpatia popular. Ao contrario, pensasse em aumentar a pobreza com planos de renda. O objectivo diz mais ao plano internacional de economia que estimule a vizinhança de nações ricas, especialmente a norte-americana republicana.
A raça era uma graça. Hoje pode valer uma desgraça.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

George Pal


George Pal (1908-1980) era de nacionalidade húngara e fez cinema desde que saiu da escola de arte na sua terra, trabalhando em animação na Alemanha (1931-1932)onde criou nos estúdios UFPA os bonecos Puppets que em stop-motion faziam sucesso em curtas-metragens. Com o advento do nazismo partiu para a Holanda e de lá passou com a esposa por vários países até chegar aos EUA onde foi contratado pela Paramount. Em 1950 deixou os seus bonecos(já chamados Puppetoons) e partiu para um gênero de filmes que antes eram proscritos pela indústria cinematográfica enquadrando-se nas chamadas B-Pictures . Fez “Destino a Lua”(Destination Moon) com direção de Irving Pichel e ganhou o Oscar de efeitos especiais.
                “Destino...” foi vendido como uma realidade futura, Não previa os segmentos dos foguetes que seguiam ao satélite da Terra mas o seu defeito percebido pelos analistas foi de mostar um objeto caindo quando astronautas estavam fora da nave esquecendo a ausência de gravidade. Mesmo assim o sucesso animou o produtor. Fez em seguida “O Fim do Mundo”(When Worlds Collide)com direção de Rudolph Maté (fotografo de “A Paixão de Joana D’Arc” de Carl Dreyer um clássico mudo) aventando a fantasia de uma estrela e seu planeta se encaminharem para a Terra e a estrela chocando-se com o nosso astro fazendo com que as pessoas migrassem para o plenata errante que ganhava as condições do nosso. Um sucesso comercial que levou Pal a abraçar o gênero por muitos anos chegando a dirigir alguns títulos como “A Maquina do Tempo”(The Time Machine) que fez da historia de H.G. Wells.
                Pal esteve no Brasil quando do primeiro Festival de Cinema do Rio de Janeiro e aqui mereceu um premio (Monólito Negro a lembra o marco de “2001 Uma Odisseia no espaço”(2001 A Space Odissey/1968) de Stanley Kubrick.
                Foi um raro exemplo de produtor ligado a um gênero e cuidadoso com a estética do que produzia  e dirigia.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

O Grande Hacker


O documentário “The Great Hack” (Netflix) lembrou-me George Orwell em “1984”. Não há um Grande Irmão mas vários ditadores que desejam acabar com regimes democráticos, extinguir a sociedade como hoje a conhecemos e instalar um poder associado a poderes que possam financiar seus propósitos.
                O filme aborda o efeito colateral das redes sociais, especialmente o facebook. Por ai se insere a carência cada vez maior da privacidade e como as pessoas vão ficando vulneráveis a modelos orientados pelo capital. E não é um panfleto comunista como os donos do projeto advertem. Não se trata como diz uma defensora da liberdade, de direita ou esquerda. É simplesmente a condução do povo para um objetivo cruel que se mascara na luta contra a corrupção e saneamento das finanças publica.
                Há imagens dos EUA na eleição de Trump, da Inglaterra do Brexit e até  mesmo do Brasil, com uma breve cena de Temmer passando a faixa presidencial a Bolsonaro.
                Dá o que pensar. O mundo segue guiado por rumos que cerceiam a liberdade de expressão. É só ver a ideia de acabar com o cinema nacional, aqui pontilhado pela Ancine, sobrevivente da Embrafilme (que por sinal sobreviveu ao governo militar de 64-85). Mas o pior ainda é o que se está fazendo com a saúde publica, vetando remédios para o povo como o caso da insulina para diabéticos.
                Um filme importante. Nem tanto como cinema, pois a linguagem perde muitas vezes a sua objetividade. Mas deixa pensar. Ou ter medo. Orwell previu espionagem até nas alcovas. As redes sociais de hoje chegam lá. E só querer.
                Terror mesmo é por aí, sem vampiros, zumbis ou casas assombradas.

terça-feira, 9 de julho de 2019

O Fim do Mundo


.              Abrindo um programa de filmes do gênero ficção-cientifica estará em cartaz no cine Olímpia “O Fim do Mundo”(When Worlds Collide) de Rudolph Maté & George Pal. Não se trata apenas de um bom titulo do gênero. Há uma historia por trás dele referente à estreia no mesmo cinema em 1953. Resumo: naquele ano a sala de projeção estava muito deteriorada. O publico pedia reforma. E a empresa exibidora, a S.Luis de Severiano Ribeiro, não fazia. Restavam poltronas sem estofo, ventiladores (nada de ar condicionado)  e piso de lajotas. Os estudantes, encabeçando um movimento, pediam o que o jornalista Edwaldo Martins registrava, anotando “piso acarpetado” que parecia uma característica de um estilo.
                Começou uma greve. Colegiais iam para diante da bilheteria do cinema barrando quem ia comprar ingresso. E os poucos que desobedeciam presenciavam na sala de projeção a continuidade do protesto em cheiro de substancias como gás sulfídrico (que o porteiro de então tentava minorar atirando nos corredores café moído).
                Nesse período estava marcada a estréia do filme “O Fim do Mundo”. Diziam que era uma metáfora aludindo ao próprio cinema. Eu que esperava o filme torcia para que chegasse ao menos para o dia da estreia. E chegou. Foi um hiato no período de protestos. Não deu margem à reforma esperada mas salientou que vivíamos, nos paraenses, num fim de mundo. E a empresa exibidora, para calar protestante (entre eles os lendários Farahzinhos), comprou um terreno na av, Nazaré e colocou uma placa: “Breve, aqui, o cinema S. Luís, o maior do norte do Brasil”. Os acompanhantes do Círio passaram por ali em cerca de 3 anos. Nada de cinema nem a placa saia do lugar. Foi preciso, em 1959, que surgisse o Cine Palácio e aí sim, Ribeiro colocou no já velho Olímpia os sonhados ar condicionado e poltrona estofada.
                “O Fim do Mundo” marcou um tempo. E ainda hoje é um dos bons filmes de Pal, o húngaro que chegou aos EUA com os bonecos Puppetoons e se dedicou a produzir ficção-cientifica, gênero na época que era restrito à serie b com os seriados de 12 a 15 episódios feitos com parcos recursos.