Peço emprestado para a coluna de hoje o titulo do filme de Michael Powell e Emeric Pressburger que no original se chamou “A Matter of Life and Death”(Um Caso de Vida ou de Morte”), ou, nos EUA, “Stairway from Heaven”(Escada do Céu). É o que posso usar como referencia a “Nosso Lar”(Brasil,2010) uma das estréias da semana nas salas de cinema comercial. Neste filme dirigido por Wagner Assis de um livro escrito por Chico Xavier,está a concepção da vida após a morte segundo os que professam a doutrina espírita.Impossível desligar as imagens do que escreveu entre 1304-1321 o poeta italiano Dante Alighieri em “A Divina Comédia” (o nome original foi “Commedia” ficando o “Divina” por conta de Boccaccio em alusão ao aspecto metafísico). Só que os tercetos(a série de versos) que definem Inferno, Purgatório e Paraíso, etapas que o poeta percorreu atrás de sua querida Beatrice, não ganham, no caso, uma linguagem cinematográfica acima do elementar. Aliás não há Inferno na concepção de “Nosso Lar”. Um quadro semelhante ao Purgatório é mostrado da mesma forma que se viu no filme “Amor Além da Vida”(What Dreams May Come/1998) de Vicent Ward de uma história de Richard Matheson (autor consagrado em ficção - cientifica):almas penam em um mar de lodo, pedindo ajuda a quem passa (como Dante ao navegar no barco de Caronte).O Paraíso é que apresenta diferenças. Mas o que interessa na analise do filme brasileiro em cartaz é o aproveitamento da idéia (argumento) em linguagem cinematográfica. Deixa a desejar não só a direção de arte, que impregna uma arquitetura “futurista” (até com o uso de laptops e ônibus voadores) a lembrar parte do que fazia o inglês William Cameron Menzies em “Daqui a Cem Anos”(Things to Come),como a pressa com que Wagner Assis trabalha as seqüências (a exemplo da visão da família de Andre Luis, coincidentemente reunida quando vista por seu espírito) e principalmente na estrutura das personagens, todas muito esquemáticas, dizendo e fazendo o que se pede no enquadramento (nenhuma chance de estudo dos tipos).
Mas o filme certamente foi feito para um determinado publico e este publico bateu palmas no final da sessão em que eu estive. Volto a frisar que meu comentário não é de critica à concepção religiosa ou filosófica do original. Trato de cinema. E penso que “Nosso Lar”poderia agradar a não-espiritas como agradou “Neste Mundo e no Outro”(não “Amor Além da Vida” que só valeu pelo “décor”, a lembrar várias escolas de pintura). Ali, os autores privilegiavam a sátira sem desrespeitar credos. Tarefa difícil, mas cumprida. O filme, para quem quer saber, foi feito em 1946 e exibido pela ultima vez, no Brasil,em um canal de TV paga há cinco anos. Foi remasterizado por Martin Scorsese e pode chegar um dia ao DVD nacional.
domingo, 5 de setembro de 2010
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
O SENHOR NINGUÉM
Acho Jacon Van Dormael o cineasta mais criativo desses últimos anos. Já tinha na minha cabeceira seus filmes “O Homem de 2 Vias”(Toto Le Hero) e “O Oitavo Dia”(L’Huitiéme Jour). Agora coloco também “Sr. Ninguém”(Mr. Nobody), obra-prima que os nossos distribuidores ainda não adquiriram para exibir nos cinemas brasileiros.
O argumento parte de um homem centenário que fala a seu médico e a um jornalista. Sua fama não é só de ser um centenário. Em 2089 ele é o último mortal na Terra. Nesse tempo que para nós é futuro, descobriu-se um meio de preservar as células, evitando o envelhecimento, e as pessoas estão curiosas em saber como é que se....morria.
Nemo, ou como ele se diz, Nobody(Ninguém) tem falhas de memória e o seu relato é fragmentado. Nisso entra a Teoria das Cordas e a faculdade da opção. Se o universo que conhecemos é um dentre vários em dimensões diversas, as vidas podem ser paralelas. Uma realidade segue outra. E jogando para um prisma filosófico, a pessoa tem de optar pelo destino que lhe oferecem. No caso de Nemo, em criança ele é convidado a ficar com o pai ou com a mãe que se separam. Mostra-se o então menino correndo atrás de um trem que leva sua mãe. Trilhos de ferrovia servem em várias seqüências como ramais a seguir. Se ele for viver com a mãe as coisas acontecem como se vê na maior parte do filme. Se com o pai, um ligeiro interregno dá a idéia de outro comportamento. Da mesma forma vê-se 3 meninas colegas de infância. Ele cumprimenta uma a uma. Todas poderão ser suas mulheres. Mas a quem realmente ele ama ? A que o despreza por outro, a que é filha do segundo marido da mãe ou uma asiática que ele lembra salvando-o de afogamento numa piscina?
Os detalhes são tantos que não se esgotam numa visão do filme. Mas o que importa é a chave temática. O longevo pode ser feliz se amou e foi amado. Longe disso é um “ninguém”que a morte esqueceu.
Gente, o filme é extraordinário. A riqueza do tema salta na correspondência de estilo. Tudo é motivo não só de visão como de admiração. Dormael é belga, tem 53 anos, e consegue fazer uma produção cara e criativa. Muitos esbarram nas dific
O argumento parte de um homem centenário que fala a seu médico e a um jornalista. Sua fama não é só de ser um centenário. Em 2089 ele é o último mortal na Terra. Nesse tempo que para nós é futuro, descobriu-se um meio de preservar as células, evitando o envelhecimento, e as pessoas estão curiosas em saber como é que se....morria.
Nemo, ou como ele se diz, Nobody(Ninguém) tem falhas de memória e o seu relato é fragmentado. Nisso entra a Teoria das Cordas e a faculdade da opção. Se o universo que conhecemos é um dentre vários em dimensões diversas, as vidas podem ser paralelas. Uma realidade segue outra. E jogando para um prisma filosófico, a pessoa tem de optar pelo destino que lhe oferecem. No caso de Nemo, em criança ele é convidado a ficar com o pai ou com a mãe que se separam. Mostra-se o então menino correndo atrás de um trem que leva sua mãe. Trilhos de ferrovia servem em várias seqüências como ramais a seguir. Se ele for viver com a mãe as coisas acontecem como se vê na maior parte do filme. Se com o pai, um ligeiro interregno dá a idéia de outro comportamento. Da mesma forma vê-se 3 meninas colegas de infância. Ele cumprimenta uma a uma. Todas poderão ser suas mulheres. Mas a quem realmente ele ama ? A que o despreza por outro, a que é filha do segundo marido da mãe ou uma asiática que ele lembra salvando-o de afogamento numa piscina?
Os detalhes são tantos que não se esgotam numa visão do filme. Mas o que importa é a chave temática. O longevo pode ser feliz se amou e foi amado. Longe disso é um “ninguém”que a morte esqueceu.
Gente, o filme é extraordinário. A riqueza do tema salta na correspondência de estilo. Tudo é motivo não só de visão como de admiração. Dormael é belga, tem 53 anos, e consegue fazer uma produção cara e criativa. Muitos esbarram nas dific
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Roubando Sonhos
Desde que Freud escreveu sobre os sonhos começaram divagações em torno de como a mente humana se porta quando a pessoa dorme. Shakespeare divagava em “Hamlet”: “morrer, dormir, talvez sonhar”.E no cinema os sonhos abriram portas para o surrealismo, como em “Quando Fala o Coração”(Spellbund) de Hitchcock, ou em tantos outros exemplos onde o ato de sonhar rima com o fato de ter medo ou o de bem sentir certas fantasias.
“A Origem”(Incepction/EUA,2010) de Christopher Nolan ambiciona uma invasão do sonho de alguém por deliberada atitude de outrem. Mais explicitamente: um ladrão, Crobb (Leonardo di Caprio), rouba idéias de pessoas que as moldam quando dormem. E com esta facilidade ele chega ao ponto de tentar inserir uma idéia nova na cabeça de um rico herdeiro com o objetivo de seu patrocinador auferir lucro com esta operação. O problema, no caso, é que ele, o ladrão de sonhos, tem seus próprios devaneios e ultimamente esses devaneios partem do suicídio da esposa, atormentada depois dele inserir sugestões na vida dela através dos sonhos, como se tentasse manipulá-la a seu gosto. Com isso, a imagem da morta persegue as suas operações e chega até mesmo ser a vilã da história.
O filme é o primeiro com roteiro dom próprio diretor, conhecido por dois títulos ligados de alguma forma ao tema (“Amnésia” e “Insônia”) e um vislumbrando o intimo de um herói (“Batman, O Cavaleiro das Trevas”). Não é nada fácil simplificar idéias que mexem com a transitoriedade das próprias idéias. Alguém fala durante a narrativa que “não é fácil interagir no sonho alheio”. Portanto, a pretensão de “A Origem” esbarra no seu trajeto. O próprio Freud não foi muito explicito ao analisar a sua mais famosa paciente (ou ele próprio numa auto-análise). Afinal, como se dimensionar o que surge dos neurônios ou o que venha a ser guiado por uma força maior (e o cristão diria, a vontade divina)?
O filme é muito inteligente, mas surge complexo quando opta pela noção de videogame, querendo dizer que nos sonhos as pessoas extrapolam uma violência intrínseca, o falado “tigre adormecido”da psicanálise. E esta complexidade não é de todo resolvida. Dificilmente uma platéia sai da sala de projeção “entendendo tudo o que viu”. E isso não quer dizer simplesmente hermetismo. É mais insuficiência de dados, uma hesitação entre o fantástico e o clinico banhada em espetáculo de ação.
“Origem”é novidade em parte.A sua lição vem de Pascal, ou seja, “O coração tem razões que a própria razão desconhece”. No caso do herói-vilão com taquicardia.
“A Origem”(Incepction/EUA,2010) de Christopher Nolan ambiciona uma invasão do sonho de alguém por deliberada atitude de outrem. Mais explicitamente: um ladrão, Crobb (Leonardo di Caprio), rouba idéias de pessoas que as moldam quando dormem. E com esta facilidade ele chega ao ponto de tentar inserir uma idéia nova na cabeça de um rico herdeiro com o objetivo de seu patrocinador auferir lucro com esta operação. O problema, no caso, é que ele, o ladrão de sonhos, tem seus próprios devaneios e ultimamente esses devaneios partem do suicídio da esposa, atormentada depois dele inserir sugestões na vida dela através dos sonhos, como se tentasse manipulá-la a seu gosto. Com isso, a imagem da morta persegue as suas operações e chega até mesmo ser a vilã da história.
O filme é o primeiro com roteiro dom próprio diretor, conhecido por dois títulos ligados de alguma forma ao tema (“Amnésia” e “Insônia”) e um vislumbrando o intimo de um herói (“Batman, O Cavaleiro das Trevas”). Não é nada fácil simplificar idéias que mexem com a transitoriedade das próprias idéias. Alguém fala durante a narrativa que “não é fácil interagir no sonho alheio”. Portanto, a pretensão de “A Origem” esbarra no seu trajeto. O próprio Freud não foi muito explicito ao analisar a sua mais famosa paciente (ou ele próprio numa auto-análise). Afinal, como se dimensionar o que surge dos neurônios ou o que venha a ser guiado por uma força maior (e o cristão diria, a vontade divina)?
O filme é muito inteligente, mas surge complexo quando opta pela noção de videogame, querendo dizer que nos sonhos as pessoas extrapolam uma violência intrínseca, o falado “tigre adormecido”da psicanálise. E esta complexidade não é de todo resolvida. Dificilmente uma platéia sai da sala de projeção “entendendo tudo o que viu”. E isso não quer dizer simplesmente hermetismo. É mais insuficiência de dados, uma hesitação entre o fantástico e o clinico banhada em espetáculo de ação.
“Origem”é novidade em parte.A sua lição vem de Pascal, ou seja, “O coração tem razões que a própria razão desconhece”. No caso do herói-vilão com taquicardia.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Patricia Neal
Patricia Neal morreu aos 88 anos em Massachutts. Fez 68 filmes entre 1949 e 2009. Ganhou um Oscar em 1963 com “O Indomado”(Hud) de Martin Ritt. Viveu dramas angustiantes fora da tela, perdendo dois filhos e sofrendo um AVC que lhe deixou em coma por alguns dias miraculosamente não a deixando com seqüelas.
Eu guardei, com certo carinho, a imagem que deixou no filme “O Dia em que a Terra Parou”(The Day the Earth Stood Still) de 1951 dirigido por Robert Wise. Era ela quem via, apavorada, dentro do disco voador, o ET Klatoo(Michael Rennie) anunciar um discurso que no cinema só teve dois concorrentes gravados na mente dos fãs: o de Chaplin em “O Grande Ditador” e o de Charles Laughton em “Esta Terra é Minha” de Jean Renoir. A diferença básica é que a fala de Klatoo era um “sermão” aos malcriados seres humanos que se digladiam na Terra. Marco não só na ficção - cientifica.
Patricia também ficou nos papéis ganhos em “Um Rosto na Multidão”(A Face in the Crowd), um filme pouco comentado mas um dos melhores de Elia Kazan, e em “3 Segredos”(Three Secrets) também de Wise. Claro que eu coloco estes filmes pela lembrança que deles guardo. Gostava de ver a mulher madura de voz rouca, nada a ver com imagens de “vamps” como as que revistas do tipo Cinelândia usavam em capas. Era a fama pelo talento. E na sua filmografia ficou muita B - Picture, muito que os grandes estúdios não se lançavam a proclamar com gastos em publicidade. Assim ela viu Klatoo no “dia em que a Terra parou”. E eu aos 15 anos maravilhei-me com o que vi numa noite da Festa de Nazaré no finado cinema Iracema. Cheguei a perdoa o cochilo de edição (e Bob Wise era um excelente editor, tendo montado o “Cidadão Kane” de Orson Welles) na seqüência em que, dentro da nave, Patrícia se mexe em planos alternados quando deveria ficar estática observando o visitante do espaço.
As estrelas do tempo em que eu ia muito a cinema (hoje o cinema vem a mim através do DVD) estão se apagando. É a marca do tempo. Mas é justamente o cinema que se rebela contra esta inexorabilidade. As imagens das atrizes estão sempre jovens no que se projeta ou se aciona digitalmente. O tempo não apaga como diz o titulo nacional de um melodrama dos anos 50. Patrícia como tantas colegas estão à disposição de minha memória, checada em cada olhar a um filme gravado.
Frederic March como a Morte em “Uma Sombra que Passa”(Death Takes a Holiday) diz, a propósito de uma roda de fumantes, que os mortais a adoram. Ele não diz que é no cinema que reside esta adoração. O meio de ludibriar a ceifeira.
Eu guardei, com certo carinho, a imagem que deixou no filme “O Dia em que a Terra Parou”(The Day the Earth Stood Still) de 1951 dirigido por Robert Wise. Era ela quem via, apavorada, dentro do disco voador, o ET Klatoo(Michael Rennie) anunciar um discurso que no cinema só teve dois concorrentes gravados na mente dos fãs: o de Chaplin em “O Grande Ditador” e o de Charles Laughton em “Esta Terra é Minha” de Jean Renoir. A diferença básica é que a fala de Klatoo era um “sermão” aos malcriados seres humanos que se digladiam na Terra. Marco não só na ficção - cientifica.
Patricia também ficou nos papéis ganhos em “Um Rosto na Multidão”(A Face in the Crowd), um filme pouco comentado mas um dos melhores de Elia Kazan, e em “3 Segredos”(Three Secrets) também de Wise. Claro que eu coloco estes filmes pela lembrança que deles guardo. Gostava de ver a mulher madura de voz rouca, nada a ver com imagens de “vamps” como as que revistas do tipo Cinelândia usavam em capas. Era a fama pelo talento. E na sua filmografia ficou muita B - Picture, muito que os grandes estúdios não se lançavam a proclamar com gastos em publicidade. Assim ela viu Klatoo no “dia em que a Terra parou”. E eu aos 15 anos maravilhei-me com o que vi numa noite da Festa de Nazaré no finado cinema Iracema. Cheguei a perdoa o cochilo de edição (e Bob Wise era um excelente editor, tendo montado o “Cidadão Kane” de Orson Welles) na seqüência em que, dentro da nave, Patrícia se mexe em planos alternados quando deveria ficar estática observando o visitante do espaço.
As estrelas do tempo em que eu ia muito a cinema (hoje o cinema vem a mim através do DVD) estão se apagando. É a marca do tempo. Mas é justamente o cinema que se rebela contra esta inexorabilidade. As imagens das atrizes estão sempre jovens no que se projeta ou se aciona digitalmente. O tempo não apaga como diz o titulo nacional de um melodrama dos anos 50. Patrícia como tantas colegas estão à disposição de minha memória, checada em cada olhar a um filme gravado.
Frederic March como a Morte em “Uma Sombra que Passa”(Death Takes a Holiday) diz, a propósito de uma roda de fumantes, que os mortais a adoram. Ele não diz que é no cinema que reside esta adoração. O meio de ludibriar a ceifeira.
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Melodrama
Venho de um tempo em que o melodrama era tão popular como os vampiros MELODRAMA OU O DRAMA AÇUCARADO
estudantes de hoje. Lembro de que exibi no Colégio Sana Rosa, só para ver a namorada, que era estudante-interna, a cópia em 16mm de “Amanhã Será Tarde Demais”(Domani e troppo tardi) de Leonide Mogui. Foi mancada, pois o filme pregava a liberdade de alunas oprimidas em colégio religioso. Mas tudo bem: havia o respaldo de um prêmio em Veneza e a presença de Vittorio De Sica(como ator), querido de irmandades religiosas por seu “A Porta do Céu”(La Porta Del Cielo).
No fim da sessão Orlando Costa, pioneiro do cineclubismo no Pará e meu convidado para fazer um debate depois da exibição, perguntou às colegiais qual seu filme predileto no período (1957). Todas: “Sublime Obsessão”. E o ator adorado era Rock Hudson. Impossível dialogar afirmando que Hudson nunca tinha sido ator e que “Sublime...”, por sinal uma refilmagem, eras melodrama da pior espécie.
Mas naquele tempo havia certa franqueza diante da empatia com histórias românticas contadas em cinema de forma linear. Douglas Sirk era um mago. Hoje ganhou o cetro oficialmente (conterrâneos dele, como Fassbinder, alertaram que o cineasta sabia contar suas histórias).Claro que ao eleger Rock Hudson as meninas não sabiam que o galã era homossexual. Contou-me Gilda Medeiros que chegou a tentar visitá-lo num hotel do Rio, junto com Ilka Soares.O cara estava de roupão, deixando que se visse ao fundo um parceiro. Desculpou-se afirmando que “tinha compromisso”.
Mas o que importa é o melodrama. Nunca fui de condenar o gênero radicalmente. Detestava os filmes mexicanos, derivados de boleros, mas aplaudia coisas como “Stella Dallas” de King Vidor ou “Ainda Há Sol em Minha Vida”(The Blue Veil)de Curtis Bernhardt. E isso me leva a Jane Wyman, atriz de “Sublime Obsessão” de Sirk e também de “Blue Veil”, ela que está chegando em DVD na praça com outro melo de Sirk : “Tudo o que o Céu Permite”(All THat Heaven Allows) –e com Hudson.
A atriz, oscarizada por “Belinda”(1949), ganhou Globo de Ouro por “Ainda há sol...”. Foi mulher de Ronald Reagan e chegou a dizer que purgou pecados por isso. Ela era uma espécie de trailler de Meryl Streep. Chorava bem em close. Fez, por isso, poucas comédias (como“Órfãos da Tempestade/Here Comes the Groom, de Capra em 1951). Mas quase sempre convencia. Já idosa ganhou Hudson de namorado por interesse comercial do produtor Ross Hunter (da Universal).
Em DVD eu vi esta semana dois melodramas. “O Medo Devora a Alma”(exibido no Cine Clube APCC com o nome de “Todos o Chamavam Ali”) de Fassbinder, e “Cárcere de Mulheres”de Miguel M. Delgado. Exemplos da diversidade de tratamento do gênero. Com Fassbinder a relação de uma alemã quase sexagenária com um marroquino jovem ,passa bem. O confronto cultural testa o amor. Mas com Delgado o germe da mediocridade que imperava nos filmes-boleros vê-se a olho nu. Sara Montiel ainda não havia casado com o diretor Anthony Mann nem feito “La Vilolera”. Ainda hoje canta. E canta bem. MiCroslava morreu cedo(suicidou-se aos 30 anos). Elas fazem as prisioneiras irmanadas numa tragédia. Choras-se,mas de raiva. Não falta quem diga “ter quiero com toda mi alma”. E um detalhe:não tem bolero. O tipo de filme vingou com “Pecadora”(1948), veiculo para AugustinLara lançar o seu “Maria Bonita”(dedicado a Maria Felix, sua paixão). Houve altos e baixos em mais de 20 anos. Mais baixos. Hoje se vê numa cultura. Sensibilidade deve pedir penico para História.
E é isso. O DVD ensina cinema.
estudantes de hoje. Lembro de que exibi no Colégio Sana Rosa, só para ver a namorada, que era estudante-interna, a cópia em 16mm de “Amanhã Será Tarde Demais”(Domani e troppo tardi) de Leonide Mogui. Foi mancada, pois o filme pregava a liberdade de alunas oprimidas em colégio religioso. Mas tudo bem: havia o respaldo de um prêmio em Veneza e a presença de Vittorio De Sica(como ator), querido de irmandades religiosas por seu “A Porta do Céu”(La Porta Del Cielo).
No fim da sessão Orlando Costa, pioneiro do cineclubismo no Pará e meu convidado para fazer um debate depois da exibição, perguntou às colegiais qual seu filme predileto no período (1957). Todas: “Sublime Obsessão”. E o ator adorado era Rock Hudson. Impossível dialogar afirmando que Hudson nunca tinha sido ator e que “Sublime...”, por sinal uma refilmagem, eras melodrama da pior espécie.
Mas naquele tempo havia certa franqueza diante da empatia com histórias românticas contadas em cinema de forma linear. Douglas Sirk era um mago. Hoje ganhou o cetro oficialmente (conterrâneos dele, como Fassbinder, alertaram que o cineasta sabia contar suas histórias).Claro que ao eleger Rock Hudson as meninas não sabiam que o galã era homossexual. Contou-me Gilda Medeiros que chegou a tentar visitá-lo num hotel do Rio, junto com Ilka Soares.O cara estava de roupão, deixando que se visse ao fundo um parceiro. Desculpou-se afirmando que “tinha compromisso”.
Mas o que importa é o melodrama. Nunca fui de condenar o gênero radicalmente. Detestava os filmes mexicanos, derivados de boleros, mas aplaudia coisas como “Stella Dallas” de King Vidor ou “Ainda Há Sol em Minha Vida”(The Blue Veil)de Curtis Bernhardt. E isso me leva a Jane Wyman, atriz de “Sublime Obsessão” de Sirk e também de “Blue Veil”, ela que está chegando em DVD na praça com outro melo de Sirk : “Tudo o que o Céu Permite”(All THat Heaven Allows) –e com Hudson.
A atriz, oscarizada por “Belinda”(1949), ganhou Globo de Ouro por “Ainda há sol...”. Foi mulher de Ronald Reagan e chegou a dizer que purgou pecados por isso. Ela era uma espécie de trailler de Meryl Streep. Chorava bem em close. Fez, por isso, poucas comédias (como“Órfãos da Tempestade/Here Comes the Groom, de Capra em 1951). Mas quase sempre convencia. Já idosa ganhou Hudson de namorado por interesse comercial do produtor Ross Hunter (da Universal).
Em DVD eu vi esta semana dois melodramas. “O Medo Devora a Alma”(exibido no Cine Clube APCC com o nome de “Todos o Chamavam Ali”) de Fassbinder, e “Cárcere de Mulheres”de Miguel M. Delgado. Exemplos da diversidade de tratamento do gênero. Com Fassbinder a relação de uma alemã quase sexagenária com um marroquino jovem ,passa bem. O confronto cultural testa o amor. Mas com Delgado o germe da mediocridade que imperava nos filmes-boleros vê-se a olho nu. Sara Montiel ainda não havia casado com o diretor Anthony Mann nem feito “La Vilolera”. Ainda hoje canta. E canta bem. MiCroslava morreu cedo(suicidou-se aos 30 anos). Elas fazem as prisioneiras irmanadas numa tragédia. Choras-se,mas de raiva. Não falta quem diga “ter quiero com toda mi alma”. E um detalhe:não tem bolero. O tipo de filme vingou com “Pecadora”(1948), veiculo para AugustinLara lançar o seu “Maria Bonita”(dedicado a Maria Felix, sua paixão). Houve altos e baixos em mais de 20 anos. Mais baixos. Hoje se vê numa cultura. Sensibilidade deve pedir penico para História.
E é isso. O DVD ensina cinema.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Teatro Filmado
Dois filmes saídos de peças de teatro chegam ao DVD para testar a memóriade quem já os conhecia: “Sua Esposa e o Mundo”(State of Union/1948) de Frank Capra e “A Rosa Tatuada”(The Rose Tatoo/1955)de Daniel Mann.
“Sua Esposa...” foi mal recebido na estréia e não mudou de cotação com os anos. A dupla Spencer Tracy & Katherine Hepburn, namorados perenes à frente e atrás das câmeras, serviam ao diretor das gostosas comédias sociais para uma intriga resolvida em gabinetes de políticos onde um candidato em potencial do Partido Republicano testaria a sua capacidade de ser infiel à mulher e fiel às ambições inconfessadas na aceitação (ou não) da concorrência. No caso ele enfrentaria a amante (Angela Lansbury) mostrada nas primeiras cenas como a herdeira de uma velha raposa do partido, e o aparente bem estar no leito com a esposa (Katherine). Claro que no final ele faria um discurso providencial moralizando o entrecho. Vendo a esposa ameaçar sair do cenário, ele mesmo sai, alegando em bom tom que preferia a modéstia de cidadão comum a um cargo cercado de oportunistas.
Obviamente o roteiro não mostra que é só papo furado. Mas o filme acredita que o que se vê(e ouve) é o certo.Acaba com a dupla de tantas comédias de outros diretores, como George Cukor, trocando beijos e sorrisos. Angela fica num plano intermediário mordendo os beiços. Aliás, no filme não há um único fotograma dela beijando Tracy. Em 1948 vigorava o Código Hays, a censura dos estúdios, e Capra só criticaria isso no trabalho seguinte, o apagado e possivelmente(resta rever)mais divertido “Nada Além de um Desejo”(Riding High/1950).
O roteiro de Anthony Veiller e Myles Connoly é servil ao texto original de Howard Lindsay e Russel Crouse, Falas, falas, falas e pouco interesse ao espectador de longe do espaço físico e do tempo da ação.
O filme levou à falência a empresa que Capra criou quando veio da guerra(a 2ª.Mundial), a Liberty. Bem verdade, até “A Felicidade Não se Compra”(It’s a Wonderful Life) seu melhor titulo, não foi bem de bilheteria.
“A Rosa Tatuada” (The Rose Tatoo) tem roteiro do autor do original de teatro, o afamado Tennessee Williams. O diretor Daniel Mann era pródigo em transplantar peças para telas como “A Cruz de Minha Vida” e “A Casa de Chá do Luar de Agosto”. Neste que foi o seu terceiro trabalho atrás das câmeras ele contou com Anna Magnani solta, fazendo um tipo que imortalizou na sua terra, o da italiana “brava de guerra”. Ela é a viúva assediada por Burt Lancaster afinado num papel diferente do que fazia como motivo de demontrar seu talento acrobático. Desta vez as imagens não se prendem a 4 paredes. Há cenas exteriores, há muito movimento de objetiva, há um senso de cinema. Espanta porque todo o pessoal de apoio é de teatro, ao contrário de Capra e sua equipe em “Sua Esposa e o Mundo”. O que eu acho é que Capra quis voltar à formula do seu “Do Mundo Nada se Leva” ou mesmo de “Arsênico e Alfazema”(Este Mundo é um Hospício). Filmou teatro porque achou que assim encontrava a comédia que deixou antes de ir fazer documentários de guerra. Errou feio.
Os filmes são, de todas as formas, peças históricas. Estão em DVD com boas resoluções de imagens. Quem estuda historia do cinema deve conhecê-los.
“Sua Esposa...” foi mal recebido na estréia e não mudou de cotação com os anos. A dupla Spencer Tracy & Katherine Hepburn, namorados perenes à frente e atrás das câmeras, serviam ao diretor das gostosas comédias sociais para uma intriga resolvida em gabinetes de políticos onde um candidato em potencial do Partido Republicano testaria a sua capacidade de ser infiel à mulher e fiel às ambições inconfessadas na aceitação (ou não) da concorrência. No caso ele enfrentaria a amante (Angela Lansbury) mostrada nas primeiras cenas como a herdeira de uma velha raposa do partido, e o aparente bem estar no leito com a esposa (Katherine). Claro que no final ele faria um discurso providencial moralizando o entrecho. Vendo a esposa ameaçar sair do cenário, ele mesmo sai, alegando em bom tom que preferia a modéstia de cidadão comum a um cargo cercado de oportunistas.
Obviamente o roteiro não mostra que é só papo furado. Mas o filme acredita que o que se vê(e ouve) é o certo.Acaba com a dupla de tantas comédias de outros diretores, como George Cukor, trocando beijos e sorrisos. Angela fica num plano intermediário mordendo os beiços. Aliás, no filme não há um único fotograma dela beijando Tracy. Em 1948 vigorava o Código Hays, a censura dos estúdios, e Capra só criticaria isso no trabalho seguinte, o apagado e possivelmente(resta rever)mais divertido “Nada Além de um Desejo”(Riding High/1950).
O roteiro de Anthony Veiller e Myles Connoly é servil ao texto original de Howard Lindsay e Russel Crouse, Falas, falas, falas e pouco interesse ao espectador de longe do espaço físico e do tempo da ação.
O filme levou à falência a empresa que Capra criou quando veio da guerra(a 2ª.Mundial), a Liberty. Bem verdade, até “A Felicidade Não se Compra”(It’s a Wonderful Life) seu melhor titulo, não foi bem de bilheteria.
“A Rosa Tatuada” (The Rose Tatoo) tem roteiro do autor do original de teatro, o afamado Tennessee Williams. O diretor Daniel Mann era pródigo em transplantar peças para telas como “A Cruz de Minha Vida” e “A Casa de Chá do Luar de Agosto”. Neste que foi o seu terceiro trabalho atrás das câmeras ele contou com Anna Magnani solta, fazendo um tipo que imortalizou na sua terra, o da italiana “brava de guerra”. Ela é a viúva assediada por Burt Lancaster afinado num papel diferente do que fazia como motivo de demontrar seu talento acrobático. Desta vez as imagens não se prendem a 4 paredes. Há cenas exteriores, há muito movimento de objetiva, há um senso de cinema. Espanta porque todo o pessoal de apoio é de teatro, ao contrário de Capra e sua equipe em “Sua Esposa e o Mundo”. O que eu acho é que Capra quis voltar à formula do seu “Do Mundo Nada se Leva” ou mesmo de “Arsênico e Alfazema”(Este Mundo é um Hospício). Filmou teatro porque achou que assim encontrava a comédia que deixou antes de ir fazer documentários de guerra. Errou feio.
Os filmes são, de todas as formas, peças históricas. Estão em DVD com boas resoluções de imagens. Quem estuda historia do cinema deve conhecê-los.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Muito Barulho Por Nada
Os produtores de Hollywood pensam que os espectadores confundem cinema com videogame. Pior: jogo sem vitórias ou derrotas. Simplesmente o vicio de jogar. Não é de outra forma que se analisa este “Dupla Explosiva” (Knight and Day/EUA,2010) a ser lançado nos cinemas na primeira semana de agosto.
Tom Cruise e Cameron Diaz fazem e acontecem em duas horas de efeitos especiais. Uma linha de ação, entre as tarefas de CGI, que mostra Cruise como um agente federal perseguido. Todo mundo está contra ele. E todo mundo está em toda parte. O encontro com Diaz num aeroporto deixa pensar que ela também é uma agente e os dois são rivais. Engano: não se conheciam. E logo no avião, enquanto ela se embeleza no banheiro, ele mata uns seis passageiros que desejam o seu pescoço. No bolo estão o piloto e o co-piloto. Cruise não se afoba e nem pede que ela fique nervosa. Toma o manche do Boeing e aterrissa numa estrada espantando caminhões. Ele sai com ela e o avião pega fogo, Mas logo dá na TV que o aparelho caiu e que todos os passageiros morreram. Incrível como se acha a noticia escondida. Mais incrível o que passa a acontecer, com a dupla sendo perseguida por lugares turísticos diversos, acabando na Espanha e enfrentando a corrida de touros, tudo para revelar que ele guarda uma “bateria” cobiçada pelos colegas, que este objeto pode ser (ou se transformar em) uma bomba, que apesar de ganhar um ferimento na batalha acaba devidamente “sarado” e ao lado da companheira.
O roteiro é um insulto à inteligência do espectador. Mas seria o caso de dizer que o que interessa é a surrealista corrida com percalços sem se dar conta de onde, para onde, qual o motivo e como deve acabar (se é que acaba). Resumindo: uma demonstração de atividade ininterrupta no plano surrealista.
Mas há uma pergunta que não quer calar: seria preciso botar atores tão populares num filme de ação do tipo “Summer blockbuster”. Cadê a chance para o charme da dupla que se diz gaiatamente (em português) explosiva e, no original, faz-se ironia de “cavaleiro”(knight) com “noite” (night) da canção de Cole Porter (Night and Day)?
Os jovens aplaudem esse tipo de besteirol. Se não aplaudissem Cruise e Diaz não acompanhariam o lançamento da coisa vindo até mesmo ao Brasil. Por sinal que ele já fez “Missão Impossível 4” a ser lançado no final do ano. Quer dizer: o ator (que na verdade nunca foi ator) pensa cinema como brincadeira barulhenta. Talvez tenha razão porque quando evoca coisa mais séria, como “Operação Valquiria”, dá em merda.
Suportemos esses megalançamentos se quisermos sair de casa no rumo de um cinema. Um detalhe: parece que “Dupla Explosiva” não está editado em 3D. Ainda bem: poderia explodir na cara do coitado que pagou mais caro para se divertir.
Tom Cruise e Cameron Diaz fazem e acontecem em duas horas de efeitos especiais. Uma linha de ação, entre as tarefas de CGI, que mostra Cruise como um agente federal perseguido. Todo mundo está contra ele. E todo mundo está em toda parte. O encontro com Diaz num aeroporto deixa pensar que ela também é uma agente e os dois são rivais. Engano: não se conheciam. E logo no avião, enquanto ela se embeleza no banheiro, ele mata uns seis passageiros que desejam o seu pescoço. No bolo estão o piloto e o co-piloto. Cruise não se afoba e nem pede que ela fique nervosa. Toma o manche do Boeing e aterrissa numa estrada espantando caminhões. Ele sai com ela e o avião pega fogo, Mas logo dá na TV que o aparelho caiu e que todos os passageiros morreram. Incrível como se acha a noticia escondida. Mais incrível o que passa a acontecer, com a dupla sendo perseguida por lugares turísticos diversos, acabando na Espanha e enfrentando a corrida de touros, tudo para revelar que ele guarda uma “bateria” cobiçada pelos colegas, que este objeto pode ser (ou se transformar em) uma bomba, que apesar de ganhar um ferimento na batalha acaba devidamente “sarado” e ao lado da companheira.
O roteiro é um insulto à inteligência do espectador. Mas seria o caso de dizer que o que interessa é a surrealista corrida com percalços sem se dar conta de onde, para onde, qual o motivo e como deve acabar (se é que acaba). Resumindo: uma demonstração de atividade ininterrupta no plano surrealista.
Mas há uma pergunta que não quer calar: seria preciso botar atores tão populares num filme de ação do tipo “Summer blockbuster”. Cadê a chance para o charme da dupla que se diz gaiatamente (em português) explosiva e, no original, faz-se ironia de “cavaleiro”(knight) com “noite” (night) da canção de Cole Porter (Night and Day)?
Os jovens aplaudem esse tipo de besteirol. Se não aplaudissem Cruise e Diaz não acompanhariam o lançamento da coisa vindo até mesmo ao Brasil. Por sinal que ele já fez “Missão Impossível 4” a ser lançado no final do ano. Quer dizer: o ator (que na verdade nunca foi ator) pensa cinema como brincadeira barulhenta. Talvez tenha razão porque quando evoca coisa mais séria, como “Operação Valquiria”, dá em merda.
Suportemos esses megalançamentos se quisermos sair de casa no rumo de um cinema. Um detalhe: parece que “Dupla Explosiva” não está editado em 3D. Ainda bem: poderia explodir na cara do coitado que pagou mais caro para se divertir.
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