quarta-feira, 13 de junho de 2018

Nosferatu


                F.W.Murnau usou o nome “Nosferatu” em seu filme de 1922 porque a viúva do escritor Bram Stoker não deixou que chamasse o vampiro da historia de Dracula, como era conhecido da literatura. Apesar disso, Nosferatu acabou sendo marca do personagem que Stoker delineou e no cinema deu inicio à uma série de filmes “de terror” que ainda hoje ganham bilheteria.
                Nesse inicio dos anos 20 o cinema alemão se apegava ao que se chamou de expressionismo e há quem veja na exposição de imagens disformes e contrastadas (claro e escuro) como a forma de mostrar a situação do país depois da I Guerra Mundial, quando uma hiperinflação dominava o mercado e o povo sentia o pavor que seguiu o conflito. Há mesmo quem veja no expressionismo de filmes como “Nosferatu”, “O Gabinete do dr Caligari” e tantos outros como uma alusão ao que viria com o advento do nazismo, uma onda de terror que impulsionaria o país a outra (e mais terrível) guerra.
                No clássico de Murnau há um quadro típico da escola estética, com o esmero da fotografia de Fritz Wagner e especialmente a mascara do ator Max Schreck(1879-1936) que não só faria esse tipo de monstro como adotaria o Kammerspiele, movimento de reação ao cinema expressionista pouco antes de sofrer um ataque cardíaco que o vitimou quando ainda trabalhava em cinema. Por sinal que o Kammerspiele adotava uma fotografia bem iluminada e roteiros que deixassem a plateia mais otimista.
                Rever “Nosferatu”, por sinal com copias reeditadas em HD, é conhecer um capitulo importante da historia do cinema. Sessão oferecida no Olympia neste junho.

sábado, 9 de junho de 2018

Aurora


                F.W. Murnau ganhou fama na sua terra natal, a Alemanha, com os filmes expressionistas, como “Nosferatu”. Contratado pela Fox embarcou para os EUA onde foi dirigir em 1927 “Aurora”(Sunrise) de um roteiro de Carl Mayer, um dos mestres da escola expressionista, com base na obra de Hermann Sudermann “Dir Reise Mach Tilsit”. O filme chegou a ganhar prêmios mas não foi bem nas bilheterias americanas da época. Isso não impediu que logo se transformasse em um clássico. François Truffaut chegou a chama-lo “um dos mais belos filmes do mundo”. Por aqui o professor Francisco Paulo Mendes amava o filme a ponto de sempre coloca-lo entre os melhores de todos os tempos.
                O enredo é muito simples: um marido infiel planeja matar a esposa para ficar com uma turista na cidade interiorana onde vivia. Para tanto marca uma viagem no estilo lua de mel à metrópole. O assassinato seria no caminho, atirando a terna esposa no mar. Mas chega o arrependimento. E o casal se refaz na cidade grande até que na volta, a embarcação em que viajam, naufraga e ela é dada como desaparecida. Há “happy end” e isso se faz com o nascer do sol pontuando a sequencia em que é salva.
                Tudo funciona numa linguagem visual. Há poucos intertítulos. E chega a haver sequencia cômica diluindo a dramaticidade (a festa numa casa de shows onde se vê um  homem preocupado com a alça da blusa da mulher).
                Tudo funciona como cinema em estado de graça. A métrica expressionista resta no inicio do filme. O resto é de imagens claras (exceto no final), mostrando a versatilidade do diretor.
                A atriz Janet Gaynor chegou a morar no Brasil em uma fazenda que ela comprou. Foi vencedora do Oscar por dois filmes, este “Aurora”e ainda “O Setimo Ceu”e “Anjo da Rua”.
                O filme fará a Sessão com Musica do Olympia. Um programa nitidamente histórico.    


quinta-feira, 31 de maio de 2018

Mãe e Pai


Em “Mãe e Pai”(Mon and Dad) uma epidemia de causa não explicada leva as pessoas ao ódio, especialmente de pais contra os filhos. Na historia e direção de Brian Taylor um casal(Nicolas Cage e Selma Blair) passa a perseguir a adolescente Carly (Anne Winters)e o menor Josh(Zackary Arthur), seus herdeiros biológicos que antes eram tratados com o carinho expansivo dado a pais de classe média nos EUA.
Antes de começar uma perseguição de pai e mãe contra os filhos, vê-se uma correria na porta da escola da menina, sem que se saiba quem está proibindo quem. Depois, quando em casa já começa a ação brutal dos adultos, com Carly e Josh escondidos no porão e alvos até de uma difusão de gás para sufoca-los, chega um novo apêndice de violência quando aparecem os pais de Brent (Nicolas) e este é atacado por seu pai com facadas (e há o revide assim como da esposa contra a sogra).
O final é reticente. O que se entende da rápida corrida sanguinária é que no mundo moderno a violência brota do nada. Simplesmente surge. E onde deveria existir amor brota o ódio. Uma hipótese de que os valores humanos são fantasiosos, a atração em ternura pode virar em guerra posto que, ao dizer da pequena Carly, “cada um sabe de si”.
O filme expõe a crueldade em cortes bruscos, planos próximos e rápidos(todos manuais), de desempenhos satisfatórios de todo o elenco. Com isso deixa o espectador angustiado. E é o que quer o autor. Uma visão metafórica de uma concepção de mundo moderno onde se dilui o laço afetivo e se deixa brotar uma concepção de animalidade inexistente nos próprios animais.
Curioso e detestável.
Editado em dvd.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Pesadelo a esquecer


Quem está pensando em volta do regime militar ou nasceu depois de 1985 ou está sofrendo do Mal de Alzheimer. Quem vive de 1964 ao ultimo ano do governo dos generais soube dos horrores dos bastidores, com assassinatos e torturas, e viveu uma censura que impedia até que uma figurante do filme ”Macunaíma”(que sofreu 19 cortes) aparecesse usando uma camisa onde se lia “Aliança para o Progresso”, titulo da campanha norte-americana de pseudo-ajuda(prova da bajulação para com os gringos que na realidade apadrinharam a “revolução” de 64).
                A época que se vendia como “Brasil Grande” só deu em merda. Depois desses presidentes generais veio uma hiperinflação que lembrou a historiadores o que aconteceu na Alemanha depois da I Guerra Mundial. Lembro-me da corrida em um supermercado antes de um funcionário voltar a tabelar os preços de produtos de uma prateleira. Surgiram cortes de zeros na moeda até que já no governo Itamar Franco surgiu o Real, ainda hoje em voga.
                Voltar ao que moldou um passado de agonia é puro masoquismo. Há meios democráticos de se virar a pagina de agora.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Cinema Europeu


                A Mostra de Cinema Europeu ora em cartaz no cinema Olympia tem um ponto em comum: a luta pela democracia. É interessante observar como países de culturas próprias se identificaram no passado considerado recente em uma reação a governo de alguma forma tendente a processos ditatoriais (mesmo que em alguns casos tenham surgido de eleições consideradas livres).
                Alguns programas:
                “Se Não Nos, Quem ?”(Wer Venn Nicht Vir), da Alemanha, é o mais contundente dos argumentos expostos. O foco é um casal, ele filho de um escritor ligado ao nazismo, ela uma professora que ao tempo em que se dispõe a uma relação afetiva(chega a ter um filho com ele) vai gradativamente se tornando uma “subversiva” ao centrar ações numa editora que eles criam para editar livros desconhecidos pelo mercado especifico existente. Os dois espelham no território alemão o inconformismo que viria a ter força com os estudantes franceses de 1968. Só que o radicalismo afeta os comportamentos e abre as portas para uma tragédia. Uma narrativa dinâmica a cargo do diretor Andres Veiel . Tudo funciona e os atores primam por excelentes interpretações.
                “23 F- O Filme”(23 F- La Pelicula) representa a Espanha e centraliza a ação no golpe de estado em fevereiro de 1981 quando os deputados foram detidos por militares mas sem a harmonia que estes desejavam acabando por abortar o projeto de mudança de governo. A ação segue um oficial que se vê traído por seus superiores na hora de estipular a revolução desejada. Vencedor do premio Goya tem um desenvolvimento capaz de seduzir o espectador comum de qualquer país.
                O filme italiano “A  Máfia Mata Só no Verão”(La Mafia uccide solo d’estate) trata de mafiosos sicilianos e da reação a eles a partir da imprensa. O bom humor do cinema de Dino Risi ganha a linha semidocumental exposta pelo diretor Pif(Pierfrancesco Diliberto). Dá para lembrar o período neorrealista que tanto promoveu o cinema do país.
                “Sangue nas Águas”(Szabadság Szerelem) é da Hungria e a ação é pontuada pela participação do país nas olimpíadas de Melbourne em 1956 quando o time de polo aquático local enfrentou o da Rússia. Seria como a síntese da revolta nacional contra o domínio soviético presente em Budapeste como em outras cidades de outros países europeus depois da 2ª.guerra quando a influencia nazista passou a de Moscou.  Direção de Kristina Goda. Tudo funcionando a contento embora o roteiro sintetize a ação em uma jovem e seu namorado atleta olímpico.
                “Palme”, da Suécia, é um documentário sobre o Primeiro Ministro Olof Palme, baleado numa rua de Estocolmo como reação de extremistas contra sua visão democrática. Direção objetiva de Maud Nycander e Kristina Lindstrom com farto material de cinejornais e fotografias do biografado.
                “O Atirador”(Skytten) é da Dinamarca é outra abordagem politica real. Quando o governo resolveu apoiar o projeto norte-americano de furar poço de petróleo na Groenlândia a reação local usou de todos os meios da abortar a ideia. A direção de Annette K. Olesen ganha a feição de um semidocumentário.
                “A Historia da Linha Verde”é de Chipre e focaliza a divisão de Nicosia depois da 2ª Guerra Mundial de modo a pessoas amigas se transformarem em inimigas entre as barricadas que traduzem cipriotas gregos e turcos.  Direção competente de Panikus Chrissanthou.
                “A Universidade Perdida, Vincennes”(Vincennes l’université perdue)é um documentário francês que focaliza o nascimento e morte da universidade de Vincennes, vinda dos protestos estudantis de maio de 1968 às ruinas que surgiram da má administração que enfim fez do local um posto de venda de drogas. Uma visão critica da rebeldia de um tempo em que a base ideológica se esvaiu num caos de regência. Direção de Andres Veiel.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Em Pedaços


 Faith Akin, realizador alemão descendente de turcos conta de forma exemplar, dividindo em 3 capítulos, o drama de Katja (Diane Kruger), alemã que perde o marido e o filho num atentado (explosão de bomba no prédio onde moram) ligado à caça de terroristas (o homem é tido como muçulmano por seus algozes que o julgam pela mascara de terrorista-padrão). A primeira parte cobre o luto, a segunda o julgamento e a terceira a vingança da viúva, ela própria adotando a imagem de “mulher bomba” como única forma de encontrar paz.
            Em Pedaços”(In the Fate) ganhou o Globo de Ouro representando o cinema estrangeiro(concorreu pela Alemanha).A base é o desempenho de Diane Kruger, aqui em um papel parecido com o que deu o Oscar a Frances McDorman por “3 Anúncios Para um Crime”.É a mulher-mãe que sofre com a impunidade que cerca a morte de um (no caso dois)parente(s). A atriz que já conta com 47 desempenhos em cinema ultrapassa papeis anteriores na construção da vingadora que se vê expressada em closes e com uma notável iluminação jogando bem as cores & claro & escuro.
            Um filme que seguramente será lembrado no fim do ano quando se contabilizará os melhores.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Três Assassinatos


Desde que vi “Depois da Vida”(Wandafuru raifu/1998)passei a acompanhar na medida do possível(é o que se consegue ver por aqui)o trabalho do cineasta e escritor Horokazu Koreeda, um digno representante do estilo de Ozu e um dos mais inventivos autores do cinema japonês desde Kurosawa.
“O Terceiro Assassinato”(Sandome no satjusin/2017) podia ter chegado a um de nossos cinemas comerciais pois foi lançado no Brasil no dia 19 deste mês e ano(abril/2018). Não chegou nem vai chegar. Mas já está disponível para download.
Aqui o diretor de “Pais e Filhos’ aborda um julgamento. Os advogados de um preso lutam com o fato dele ter confessado um crime de morte com cremação de cadáver. Mas em meio às visitas de um desses defensores o homem conta que é inocente, que disse ter sido um assassino por conta da promessa de seu primeiro advogado que afirmou ser um modo dele escapar da pena de morte. No prosseguir do filme se sabe de outras personagens que podem mudar situação. Mas há sempre reticencias. E o cinema usa de métodos que enfatizam isso. Há um plano em que possível criminoso e seu novo advogado são vistos de forma cruzada, os dois rostos no mesmo foco (e com a luz incidindo por sobre eles).
                Koreeda é brilhante em seu artesanato. Nunca esqueci o além em que as almas são obrigadas e filmar o melhor momento de suas vidas quando nos corpos. E os meninos que desejam ver passar o trem-bala. Uma forma delicada que implica numa resposta emotiva do espectador.
                “Três Assassinatos” caminha de forma inédita na obra do roteirista-diretor. E prova uma difícil versatilidade. Procurem ver.