segunda-feira, 7 de outubro de 2019

O Coringa


Os leitores & espectadores de pelo menos duas gerações cresceram admirando incondicionalmente os super-heróis. Eles se espantam com a biografia de um dos vilões  que um desses heróis combatem: o Coringa. No filme de Todd Phillips (direção e roteiro) que aí está, o “bandido” é o adotado Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), vivendo com a mãe até que possível, tornando-se matador de pessoas que o perseguem e maltratam, representando uma classe dominada que em um momento muito interessante do filme mostra-se na rua, queimando carros, gritando por justiça e enfim elegendo o palhaço que se apelidou de Coringa como o seu herói.
O filme muda a imagem gasta pelo uso de mocinhos, apontando de forma critica e sem detalhes  o que se veste de morcego (Bruce Wayne, adolescente que escapa da morte dos pais por ação do Coringa que no caso combate um milionário opressor dos menos favorecidos, uma espécie de justiceiro politico). A ironia passa por ai, um polo se veste de palhaço outro de animal. Mas o filme não apresenta Batman(Homem Morcego), afinal o herdeiro dos Wayne e por fim um homem rico que constrói uma fortaleza para defender a cidade de Gothan contra elementos rebeldes não só como o Coringa  mas o Pinguim e outros fantasiados( na visão do desenhista Bob Kane (1915-1998).
É interessante notar como o roteiro do diretor Phillips ousa levar sua historia para luta de classes. Em diversos tempos os mais favorecidos atuam contra os menos até como forma de continuarem a ser mais. E a ironia cabe no que não se mostra: o Coringa fugindo do hospício (imagem desfocada por superiluminação) e restando na memoria do espectador o garoto (que nem se diz se chamar Bruce) de pé adiante dos corpos do pai e da mãe caídos na rua. Eles se encontrariam, mas não é só um ato de vingança. O vilão ri copiosamente até como forma de sua enfermidade psicológica e o mocinho fica apenas como a promessa de que o perseguirá como amplitude dos policiais que atacam os que protestam nas ruas. Mais curiosidade é que Batman será chamado por uma projeção da imagem de um morcego nas nuvens. Isto não se vê no filme atual, mas é difícil achar um espectador que não tenha visto ou lido uma aventura do morcego que usa carro de modelo próprio, tem mordomo cavalheiro e ainda ganha um comparsa mirim que os gibis chamaram de “menino prodígio”(Robin).
O filme inova no seu mergulho social e traz Joaquin Phoenix num desempenho antológico, digno de premio que o respeite (o Oscar nem sempre faz isso como provaram Glenn Close e a nossa Fernanda Montenegro).
Quem for ver (e muita gente está indo) deve sentir a emoção de uma abordagem corajosa de trama gasta pelo uso. Hoje até por aqui se sabe que nem sempre os deserdados ganham coringas ( e sim pauladas). Por sinal que os combatentes da desigualdade social são tidos como loucos. Coringa é louco. O trabalho de Phillips é “uma loucura” no melhor sentido. Um dos melhores filmes que eu vi este ano.


sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Ad Astra


Há vida inteligente em outro planeta? Um astronauta resolve pesquisar o assunto e viaja até ao final do nosso sistema solar, orbitando Netuno (Plutão  não é mais visto como planeta).O filho desse herói do espaço vai atrás dele. E o acha como irredutivel.Não quer voltar à Terra. E o encontro gera o filme “Ad Astra”de James Gray que está nos cinemas mundiais (ainda bem que por aqui).
Brad Pitt tem a sua maior chance como ator. Não faz desempenho de monstro sagrado mas consegue closes muito bons. Ele é o filho audaz do teimoso Roy (Tommy  Lee Jones). Por pouco o roteiro de Ethan Gross e do diretor não desanda no romance piegas, ficando quase sempre no herói da historia, um jovem que se pode ver como quem se encontra numa viagem interplanetária, podendo se achar a trama na linha introspectiva sem fechar o assunto.
Excelentes efeitos especiais e cenografia, conseguindo sair em parte do figurino de viagens siderais usadas e abusadas pelo cinema. Mas ainda assim o filme não pode ser comparado a “2001” de Kubrick. Na maior “sci-fi” do cinema ainda não se fez igual. Até porque ali estava não só o astronauta de um futuro prodigo mas o próprio homem na escala biológica & anímica, perfazendo todo o processo de criação.
Mas “Ad Astra” sai da mesmice das salas comerciais intoxicadas pelos heróis da Marvel. Vale uma ida ao cinema comercial.
Ah sim: os ets se escondem. Novidade.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Anna ou Kikita


“Anna, O Perigo tem Nome”(Anne) é mais um filme de heroína por Luc Besson, cineasta francês de 60 anos de grande popularidade internacional a ponto de gastar milhões de dólares em uma produção ambientada em vários países contando a historia da agente Anna  Parillaud (interpretada por Sasha Luss) que trabalha para a KGB (União Soviética, morando em Moscou) e para a CIA numa simultaneidade que implica em muita (e bote muita)violência.
O filme esteve nos cinemas comerciais de Belém por cerca de 3 semanas. Parece-me que seria ainda mais comercial se o roteiro(do próprio Bresson) não jogasse a trama no tempo indo e vindo com os anos no correr da narrativa.
O objetivo é puramente visual, é ação por ação. Vi na mesma semana outro filme bem mais substancioso do mesmo cineasta:”Além da Liberdade”(The Lady/2011) historia de Aung San Suu Kyi lutadora pela volta da democracia em Burma, sofrendo a ausência do marido inglês,um diplomata vencido pelo câncer.         Prova de que Bresson sabe fazer bom cinema (e já havia provado em “O Profisiional” e “Quinto Elemento”,
                Em “Anna” Bresson volta a “Nikita” seu flme de 1990 também sobre Anna Parillaud. Não é só replay é imaginação diluída e consciência de que o espetáculo faustoso e movimentado ( no caso pela violência) é o que seduz plateia (e o pior é que é verdade).
                Filmes diferentes vindos da mesma fonte. Mesmo assim ganhei vendo-os em casa. Já não tenho paciência de ir a cinema assistir a mesmices.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Yesterday


  “Yesterday” parte, através de um roteiro imaginoso de Richard Curtis, para uma premissa que lembra “A Felicidade Não se Compra”(It’s a Wonderful Life):o que seria no mundo se os Beatles não tivessem existido. É assim que o modesto compositor Jack (Himesh Patel) passa, depois de um acidente, a pensar e usar as musicas do conjunto inglês como suas, alimentando a paixão que tem pela modesta funcionária Ellie (Lily James) .
            O fato se dá na forma de um cataclismo com as luzes da cidade apagando por breve instante. E não é só o apagão dos Beatles mas até da Coca Cola. Isso não quer dizer que a vida em Liverpool prossiga normalmente e Jack vire um ídolo tocando algumas das principais canções do conjunto que marcou um tempo.
            A idéia de mostrar um cenário sem um ator principal não é nova mas sempre funciona. Pena é que a direção de Danny Boyle (“Quem quer ser um milionário”) não vá fundo nisso. E deixe furos, mesmo quando assina a fantasia e mostre o modesto compositor visitando John Lennon e vendo o Beatle com mais de 70 anos quando se sabe que ele foi assassinado aos 40. Seria um aceno poético que a narrativa não acompanha. O enredo acha melhor focar o romance de Jack com Ellen e marcar a cena em que ele confessa ser usurpador dos Beatles (dizendo quem é quem) e abandonando um palco adiante de multidão para ir ao encontro da amada que por sinal já está trilhando um caso com outro homem.
            O “esquecimento” dos compositores que marcaram uma época não ganha a dimensão que se podia achar. A musica dos Beatles impulsionou o rock e alimentou uma geração que demoliu velha arquitetura moral e impulsionou a criatividade não só no terreno musical. Como está no filme, trata-se apenas de um veio de compositores & canções que logo agrada a quem passa a conhecê-lo,  trocando Coca Cola pela concorrente Pepsi Cola e indo tudo bem num mundo sem graça (aliás não se espelha isso: todas as personagens vivem alegres num cenário que parece não sentir falta de quem compôs”Yesterday”e tantas outras joias da musica popular de um tempo -e ainda hoje lembrado).
            Seria interessante se o filme, seguindo a opção de apagar um episodio do passado mostrasse como isto fez falta ao presente e se as ideias apagadas permanecessem no ar experimentabdo o gosto da fama que viria embalado por uma licença poética moderna . No caso de “A Felicidade...” a vida sem George Bailey era colocada num mundo reacionário onde uma boate viraria um cinema exibindo “Os Sinos de Santa Maria”. Não é bem virar da esquerda para a direita mas uma concepção de liberdade através de gerações com os modelos seguindo acontecimentos que marcam tudo e todos.
            “Yesterday” é um filme instigante como um jogo em que se deixa a bola cair no meio do campo. Uma pena. Poderia ser tão bom quanto as canções evocadas.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Bacurau


                 Bacurau é uma aldeia (ou mesmo cidade) encravada no sertão nordestino (no caso Pernambuco)e que um habitante chega a definir sua geografia como “no cu do mundo”. Este deserto seduz estrangeiros que veem ali um veio de tesouro (não se define qual ou como). A reação que se faz entre esses estranhos e o povo humilde do lugar é palco de violência. E os pobres aprendem que a vitória consiste em resistir. Com armas nas mãos.
                O filme de Kevin Mendonça Filho e Juliano Dorneles ganha um caráter atual que leva o publico a se comover com o que vê. Afinal este é o Brasil de hoje, é a terra onde os humildes “podem morrer que não fazem faltas”. E ensina a predica que gerou a Revolução Francesa: ir à luta pela sobrevivência.
                Um esforço grande dos cineastas. Não só pela cenografia construída de forma a ressaltar metáforas como no trabalho do elenco (todo). Salta a veterana Sonia Braga como uma espécie de oraculo ofertando  “doces” aos “bandidos” como isca para ratos.
                O Brasil de hoje será composto de Bacuraus à espera de uma reação que o legitime como nação de todos. O filme enfatiza o desprezo aos humildes e ganha corpo quando se vê que em um museu estão as armas que os defenderá (valendo dizer que uma reação é coisa do passado que pode ser retomada se necessário). E há dezenas de metáforas. Os tipos usam camisas com dísticos em inglês, os gringos portam objetos nos ouvidos para identificar idioma, os que se revoltam se refugiam em buracos na terra, seguindo os tantos mortos que se vão somando, o herói da resistência é tido como bandido com estadia em prisão e um candidato a cargo eletivo é colocado no devido lugar de usurpados dos direitos alheios, deixado com mascara de palhaço e posto para fora de Bacurau (é melhor deporta-lo do que mata-lo).
                O filme vem sendo aplaudido até mesmo no exterior. Bom resultado para o Brasil de agora onde se define como nunca a dicotomia entre ricos pobres.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Dia da Raça


No meu tempo de criança o dia 5 de Setembro era considerado “Da Raça”  e os colégios desfilavam em marcha havendo acirrada disputa entre eles. Ninguém estimava que aquilo era uma das façanhas do ditador Vargas a seguir o italiano Mussolini (Il Duce) e o alemão Adolf Hitler(Fueher). A habilidade de Getúlio Vargas era abraças os menos favorecidos, criando planos de saúde e aposentadoria, ganhando títulos de “pai dos pobres”(e os opositores acrescentavam “mãe dos ricos”). Lembro das apoteoses nos teatrinhos da Festa de Nazaré quando se colocava o retrato de GV  e se cantava como no ano em que  ele saiu da chefia da nação “Bota o retrato do velho outra vez”(“...o sorriso do velhinho faz a gente se animar...”).
A ditadura militar de 1964 não usou das mesmas armas. E hoje não se comemora dia de raça. Já não se atina para uma forma de ganhar a simpatia popular. Ao contrario, pensasse em aumentar a pobreza com planos de renda. O objectivo diz mais ao plano internacional de economia que estimule a vizinhança de nações ricas, especialmente a norte-americana republicana.
A raça era uma graça. Hoje pode valer uma desgraça.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

George Pal


George Pal (1908-1980) era de nacionalidade húngara e fez cinema desde que saiu da escola de arte na sua terra, trabalhando em animação na Alemanha (1931-1932)onde criou nos estúdios UFPA os bonecos Puppets que em stop-motion faziam sucesso em curtas-metragens. Com o advento do nazismo partiu para a Holanda e de lá passou com a esposa por vários países até chegar aos EUA onde foi contratado pela Paramount. Em 1950 deixou os seus bonecos(já chamados Puppetoons) e partiu para um gênero de filmes que antes eram proscritos pela indústria cinematográfica enquadrando-se nas chamadas B-Pictures . Fez “Destino a Lua”(Destination Moon) com direção de Irving Pichel e ganhou o Oscar de efeitos especiais.
                “Destino...” foi vendido como uma realidade futura, Não previa os segmentos dos foguetes que seguiam ao satélite da Terra mas o seu defeito percebido pelos analistas foi de mostar um objeto caindo quando astronautas estavam fora da nave esquecendo a ausência de gravidade. Mesmo assim o sucesso animou o produtor. Fez em seguida “O Fim do Mundo”(When Worlds Collide)com direção de Rudolph Maté (fotografo de “A Paixão de Joana D’Arc” de Carl Dreyer um clássico mudo) aventando a fantasia de uma estrela e seu planeta se encaminharem para a Terra e a estrela chocando-se com o nosso astro fazendo com que as pessoas migrassem para o plenata errante que ganhava as condições do nosso. Um sucesso comercial que levou Pal a abraçar o gênero por muitos anos chegando a dirigir alguns títulos como “A Maquina do Tempo”(The Time Machine) que fez da historia de H.G. Wells.
                Pal esteve no Brasil quando do primeiro Festival de Cinema do Rio de Janeiro e aqui mereceu um premio (Monólito Negro a lembra o marco de “2001 Uma Odisseia no espaço”(2001 A Space Odissey/1968) de Stanley Kubrick.
                Foi um raro exemplo de produtor ligado a um gênero e cuidadoso com a estética do que produzia  e dirigia.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

O Grande Hacker


O documentário “The Great Hack” (Netflix) lembrou-me George Orwell em “1984”. Não há um Grande Irmão mas vários ditadores que desejam acabar com regimes democráticos, extinguir a sociedade como hoje a conhecemos e instalar um poder associado a poderes que possam financiar seus propósitos.
                O filme aborda o efeito colateral das redes sociais, especialmente o facebook. Por ai se insere a carência cada vez maior da privacidade e como as pessoas vão ficando vulneráveis a modelos orientados pelo capital. E não é um panfleto comunista como os donos do projeto advertem. Não se trata como diz uma defensora da liberdade, de direita ou esquerda. É simplesmente a condução do povo para um objetivo cruel que se mascara na luta contra a corrupção e saneamento das finanças publica.
                Há imagens dos EUA na eleição de Trump, da Inglaterra do Brexit e até  mesmo do Brasil, com uma breve cena de Temmer passando a faixa presidencial a Bolsonaro.
                Dá o que pensar. O mundo segue guiado por rumos que cerceiam a liberdade de expressão. É só ver a ideia de acabar com o cinema nacional, aqui pontilhado pela Ancine, sobrevivente da Embrafilme (que por sinal sobreviveu ao governo militar de 64-85). Mas o pior ainda é o que se está fazendo com a saúde publica, vetando remédios para o povo como o caso da insulina para diabéticos.
                Um filme importante. Nem tanto como cinema, pois a linguagem perde muitas vezes a sua objetividade. Mas deixa pensar. Ou ter medo. Orwell previu espionagem até nas alcovas. As redes sociais de hoje chegam lá. E só querer.
                Terror mesmo é por aí, sem vampiros, zumbis ou casas assombradas.

terça-feira, 9 de julho de 2019

O Fim do Mundo


.              Abrindo um programa de filmes do gênero ficção-cientifica estará em cartaz no cine Olímpia “O Fim do Mundo”(When Worlds Collide) de Rudolph Maté & George Pal. Não se trata apenas de um bom titulo do gênero. Há uma historia por trás dele referente à estreia no mesmo cinema em 1953. Resumo: naquele ano a sala de projeção estava muito deteriorada. O publico pedia reforma. E a empresa exibidora, a S.Luis de Severiano Ribeiro, não fazia. Restavam poltronas sem estofo, ventiladores (nada de ar condicionado)  e piso de lajotas. Os estudantes, encabeçando um movimento, pediam o que o jornalista Edwaldo Martins registrava, anotando “piso acarpetado” que parecia uma característica de um estilo.
                Começou uma greve. Colegiais iam para diante da bilheteria do cinema barrando quem ia comprar ingresso. E os poucos que desobedeciam presenciavam na sala de projeção a continuidade do protesto em cheiro de substancias como gás sulfídrico (que o porteiro de então tentava minorar atirando nos corredores café moído).
                Nesse período estava marcada a estréia do filme “O Fim do Mundo”. Diziam que era uma metáfora aludindo ao próprio cinema. Eu que esperava o filme torcia para que chegasse ao menos para o dia da estreia. E chegou. Foi um hiato no período de protestos. Não deu margem à reforma esperada mas salientou que vivíamos, nos paraenses, num fim de mundo. E a empresa exibidora, para calar protestante (entre eles os lendários Farahzinhos), comprou um terreno na av, Nazaré e colocou uma placa: “Breve, aqui, o cinema S. Luís, o maior do norte do Brasil”. Os acompanhantes do Círio passaram por ali em cerca de 3 anos. Nada de cinema nem a placa saia do lugar. Foi preciso, em 1959, que surgisse o Cine Palácio e aí sim, Ribeiro colocou no já velho Olímpia os sonhados ar condicionado e poltrona estofada.
                “O Fim do Mundo” marcou um tempo. E ainda hoje é um dos bons filmes de Pal, o húngaro que chegou aos EUA com os bonecos Puppetoons e se dedicou a produzir ficção-cientifica, gênero na época que era restrito à serie b com os seriados de 12 a 15 episódios feitos com parcos recursos.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Obsessão


Isabelle Huppert mostra um pouco de sua versatilidade fazendo uma supervilã em “Obsessão”(Greta) o filme do irlandês Neil Jordan que andou sendo anunciado para uma sala de shopping em Belém.
Isabelle é Greta, uma viúva tresloucada que “caça” quem pega uma bolsa que ela deixa no metrô ou ônibus e vai entregar o objeto em sua casa, ganhando em principio um cafezinho e em seguida mostrando um afeto que irmana em sequestro.
O filme se enquadra no terror à maneira de muitos em que pessoas sofrem prisões por conta de psicopatas que podem ser homens como damas aparentemente solitários/as (e  por isso tristes).
Isabelle é o enfoque. Sua Greta vai se revelando à jovem Frances(Chloe Grace Moretz) uma garçonete órfã de mãe e pouco relacionada com o pai, morando com uma amiga. Gradativamente esta jovem vai sabendo quem é a dona da bolsa, quem se faz passar como coitadinha e como se torna refém numa prisão apavorante à maneira de muitos filmes da linha pesadelo. Não falta nem mesmo a busca pela prisioneira em paralelo com as torturas da carcereira e o final previsível e aceitável pois não há como interromper a narrativa com a vilã ganhando a festa.
Você pode ter visto muitos filmes parecidos mas dificilmente despregará os olhos da tela. Obsessão” é um programa que se assiste de um fôlego, e não há como deixar de aplaudir Isabelle fazendo um novo tipo na sua extensa filmografia.
O tipo do programa para divertir. Se realmente chegar às telonas locais vá ver. Deriva a dieta de super-heróis da Marvel. E só por isso já vale o ingresso.


Rocketman


Para quem desconhece a musica de Elton John parece uma temeridade ir ver “Rocketman” o filme de Dexter Fletcher ora em cartaz nos cinemas.  Mas o esforço do ator Taron Egerton, mesmo fisicamente distante do biografado, a coisa salta do limbo. E o roteiro de Lee Half consegue jogar com realidade e irrealidade, ganhando metáfora e devaneios com uma certa precisão cronométrica que não se importa com uma narrativa tradicional, preferindo traçar um perfil de Elton John sem o aspecto físico pura e simplesmente.
O filme começa com John chegando à uma reunião de Alcoólatras Anônimos, ele vestido com o espalhafato de fantasia que costumava usar em seus shows. Na ocasião o artista pretendia livrar-se do álcool e de cocaína (além de “outras tantas drogas” como diz). Da sequencia as imagens decolam para a infância do personagem, arranhando a sua discrepância  com os pais, chegando a descoberta do homossexualismo, conhecendo o melhor e durável parceiro(e o namorado que seria o vilão da historia). No compasso há uma cena em que todas as figuras surgem na sala do AA e é como Elton John tenta se achar, saindo daí para a rua cantando e vendo muitas pessoas dançando com ele.
Há excessos, especialmente nas sequencias de musica, com alguns números tentando através da postura do executor a definição do que ele sente (e age). Mas o conjunto se salva através do empenho do elenco, em especial de Egerton que traduz bem momentos de angustia e de teimosia com relação a sua criatividade musical. Isso deixa o filme em um patamar bem melhor do que o festejado “Bohemian Raphsody”que o diretor Fletcher apenas finalizou depois da saída de Bryan Singer.
Eu não sabia que o John adotado pelo cantor vinha de John Lennon o Beatle. Sabia que ele esteve no Brasil percorrendo cerca de 3 estados. Isso não se mostra no filme. Interessa a tradução comportamental do fantasiado que procura os AA e narra sua vida. O aspecto carnavalesco da vestimenta diz bem de quem se trata em um tempo. Por sinal que o verdadeiro Elton John viu o roteiro. Diz-se aposentado na casa dos 70. Deve ter aprovado o filme pronto.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Fronteira de espécies


“Border” (que por aqui poderia se chamar “Fronteia”) vem de uma historia de John Ajvide Lindqvist que mexe com a teoria de Darwin de forma  como que estancando entre a evolução do animal ao “homo sapiens”, focalizando a jovem Tina (Eva Melander) como uma espécie de fera (uma espécie de reverso da personagem de “A Bela e a Fera”) trabalhando como policial na fronteira de seu país e identificando fraudes pelo cheiro. Ali ela encontra um igual, Vore(Eeron Milonoff)com quem passa a manter um relacionamento intimo sabendo que ele tem vagina e ela um pênis, até aí jogando com o defeito na evolução física (pouco se sabe dos pais desses tipos embora se tenha alguma citação dos de Tina).
Os personagens extremamente feios formam o estranho romance que o diretor Ali Abasi trabalha muito bem, amparado na primorosa maquilagem tratada por 22 técnicos. Eles conseguem que a simpática Eva apareça um monstro, deixando dela apenas o nariz (a lembrar o de Daniel Auteil e Carmen Maura).Interessa primordialmente a sensibilidade do “monstro”, não só a capacidade animal do faro como o relacionamento platônico com um namorado e o físico com o comparsa de sexo que na verdade é “a” comparsa numa sequencia crua .
Trata-se de uma produção sueca muito curiosa e capaz de jogar com a lenda e a realidade sem que seja preciso adentrar muito nos problemas psicológicos advindos da capacidade dos “animais” terem evoluído apenas em parte na escadinha que Darwin estudou.
Um filme sobretudo diferente. Seria uma Bela e a Fera sem príncipe e no lugar dele outra Fera. Enfim um argumento novo no mundo de super-heróis que invadem as telas de hoje;

sábado, 11 de maio de 2019

O Sheik Valentino


                Um dos filmes que mais cativou as fãs de Rudolph (aqui Rodolfo) Valentino é “O Sheik”(The Sheik/ 1921) dirigido por George Melfor com ele e Agnes Ayres atriz que viveu pouco (morreu aos 42 anos em 1940) e mesmo assim fez 93 papeis em cinema. Ele é o sheik que manda na região do deserto para onde vai bater a inglesa Diana Mayo e que impressiona tanto a jovem estrangeira a ponto de gerar uma paixão e isto ajuda que ela salve o personagem por sinal um homem culto, com passado em universidade ocidental.
                O filme foi feito para Valentino. Aqui se chamou “Paixão de Bárbaro” e fez tanto sucesso que o ator voltou ao papel em “O Filho do Sheik” em 1926 (por sinal seu ultimo ,tendo falecido no mesmo ano com apenas 31 de idade).
                É claro ainda hoje a marca do estrelismo capitaneando a trama. O sucesso nos cinemas foi enorme e Valentino  tinha acabado de fazer “A Dama das Camélias” outro titulo que empolgou as fãs. Por aqui há até uma lenda de que um rapaz que foi ao cinema com a namorada e ela começou a elogiar apaixonadamente o ator ele pegou de sua pistola e atirou na tela. Naquele tempo, se verdade, o porte de armas preconizado agora pelo governante brasileiro já existia.
                Quem estuda historia do cinema tem a obrigação de ver este e outros filmes com atores e atrizes que chamavam a atenção. Era a gênese do “star system”, afinal a mola que formou Hollywood.
                Exibição no Olympia(onde o filme estreou)com musica ao vivo. Dia 14/5


quarta-feira, 1 de maio de 2019

Os Deuses Malditos


Alemanha, 1933. O barão Joachim Von Essenbeck (Albrecht Schoenhals) comunica que está deixando as suas usinas de aço nas mãos de um desconhecido. Ascende o nazismo e a família de milionários luta internamente pelo poder nem que seja preciso assassinar parentes.
As imagens privilegiam a nora do patriarca ( Ingrid Thulin), tentando assumir a liderança da siderúrgica da família depois da morte do sogro e a meta de usar o filho pedófilo (Helmut Berger) comandando a empresa, e seu amante, Friedrich Bruckmann (Dirk Bogarde), ganhando poder na postura cada vez mais evidente de um membro do III Reich.
Luchino Visconti retrata a supremacia do nazismo como um grande baile onde o macabro patrocina presente e futuro da sociedade alemã dos anos em que se viveu a 2ª.Guerra Mundial. Para isso o cineasta preferiu a qualidade plástica de seu projeto, levando em conta a fotografia de Armando Nanuzzi e Pasqualino Di Santis e a cenografia onde trabalharam Pasquale Romano e Piero Tosi. O filme é considerado, portanto um painel da Alemanha nazista por trás de campo de batalha. E é justamente este aspecto plástico que imortalizou o trabalho do grande cineasta italiano, ele próprio um intelectual de esquerda(dizia-se comunista embora um conde na descendência ).

            “Os Deuses Malditos” é um dos mais polêmicos filmes do diretor de tantas obras-primas (como “Rocco e seus irmãos”). Aqui ele deixa totalmente a métrica neorrealista que patrocinou os trabalhos de autores de sua geração e se aventura numa superprodução que só lhe sensibilizaria anos depois em “O Leopardo”.
            Boa revisão agora em sessão especial promovida pela ACCPA.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Não Será um Estranho (?)


 “Não Serás um Estranho”(Not as a Stranger/1955) foi o primeiro filme que Stanley Kramer dirigiu. Ele já era um produtor aclamado por filmes como “Cruel Desengano”, “8 Homens de Ferro”, “A Nave da Revolta” e mais alguns quando se lançou a dirigir e faria outros grandes trabalhos. Eu me impressionara ao ver o filme quando ainda estudava medicina e achava que era o melhor já feito sobre o curso medico e o que o formando faria na vida pratica. Hoje revi e sinceramente achei que o entusiasmo do passado era próprio de um tempo. Mas o filme é bom. Tem Robert Mitchum num papel digno de seu porte (sempre me pareceu antipático). E Frank Sinatra brilha no papel de coadjuvante.
                O medico falha, diz o roteiro de Edna Anhalt, Edward Anhalt e Moton Thompson. Se o doutor novato de Sinatra tira um sinal do rosto de uma paciente e Mitchum briga pois podia ser canceroso, ele, Mitchum, operaria seu professor apressadamente e o paciente morreria “na pedra”       
                Há inclusive alusão à instabilidade emotiva com  doutor de Mitchum sendo infiel à dedicada esposa vivida por Olivia de Havilland (a sobrevivente do elenco, com hoje 102 anos, pouco faltando para 103) . O roteiro desafia o parâmetro hollywoodiano dos bons moços. E o filme narra bem os fatos. Um bom trabalho de Kramer embora não se demore nos perfis psicológicos nem adentre pelo curso medico em geral, sem mostrar os colegas dos principais personagens (afora os planos de auditório, com todo mundo visto de longe).
                Vale ser visto agora, mesmo com os cursos médicos não serem mais os mesmos.












segunda-feira, 15 de abril de 2019

O Cinema de Val Lewton


Val Lewton (Vladimir Leventon) nasceu na Rússia em 1904 mudou-se coma a familia para Berlim em 1906 e para os EUA em 1909. Foi jornalista e chegou a fazer até espaços de anedotas. Contratado pelo produtor David O. Selznick em 1933 passou a escrever para cinema chegando a fazer uma sequencia de “...E O Vento Levou”(1939). Em 1942 foi contratado pela RKO para produzir filmes de terror com baixo orçamento. Fez vários e ficou na historia por isso. Morreu em 1951 devido a infarto. Seus pequenos filmes dirigidos por Mark Robson, Jacques Tourneur, Robert Wise (estreando depois de uma fase na edição de longas como os de Orson Welles), e Gunther Fristh, ganharam espaço na historia não só do estúdio como da indústria cinematográfica em geral.
                É muito bom rever os filmes de Lewton na RKO. No Olympia serão exibidos “A Sétima Vitima”, “O Asilo Sinistro” e “A Morta Viva”. O ultimo é o mais caraterístico da fase. Uma jovem inglesa que morreu numa província africana é revivida na macumba até que se tire uma flecha encravada numa estatua em sua casa. O filme quando estreou em Belém, no cinema Independência, ganhou uma publicidade engenhosa. Passava só nas sessões noturnas “pois era muito forte como terror”. A iluminação expressionista e a edição que subtraia explicações evidenciavam o clima proposto pelo roteiro de Curt Siodmak e Ardel Wray com base num episodio do romance “Jane Eyre”de Charlote Bronté(irmã de Emily a autora de “O Morro dos Ventos Uivantes). O diretor era o francês Jacques Tourneur que havia feito para Lewton  “Sangue de Pantera”(Cat People), clássico que mereceu uma continuação ainda melhor (“A Maldição do Sangue de Pantera” de Wise & Gunther).
                Os outros filmes a serem exibidos refletem a maestria de Lewton em condensar a cenografia podando os gastos. Em “Asilo Sinistro”, por exemplo, ele trata de um hospício no século XVIII com o cuidado de não esvaziar a época limitando até mesmo as cenas de rua.
                Os filmes da RKO eram exibidos por aqui nas salas da empresa Cardoso & Lopes(Moderno,Independencia, Universal e Vitoria- antes chamado Rex). Muitas vezes eram exibidos com episódios de seriados. Davam muito publico. A critica ignorava-os. Mais tarde foram descobertos a partir dos textos franceses. Hoje estão no espaço devido de obras marcantes na historia do cinema. Os mais jovens devem conhecer. Os mais velhos vão checar boas lembranças.

sábado, 6 de abril de 2019

Shazan


Os quadrinhos do Capitão Marvel surgiram no final de 1939 sendo publicados em janeiro de 1940 pela Fawcett. O herói era o radialista Billy Batson , escolhido por sua bondade para ser o super-herói capaz de proezas que se via no Super-Homem (Superman), herói nascido pouco antes nos gibis. Aqui no Brasil o Capitão Marvel aparecia no Gibi Mensal . A palavra magica que transformava o ingênuo Billy no herói, conhecida por SHAZAM, derivava cada letra da mitologia grega: S (sabedoria), Hércules (vasta força física), Atlas (resistência, invulnerabilidade), Zeus (poderes mágicos), Aquiles (coragem) e Mércurio (velocidade, capacidade de voo).
Os quadrinhos duraram até que a DC Comics entrasse em juízo como plagio de Superman. Os desenhistas deixaram a trama que só voltaria anos depois que a própria DC passasse a usar o herói em seu quadro do gênero. Hoje ele aparece como Shazam porque a concorrente da empresa, a Marvel, está usando o termo em seu logotipo e até  uma heroína que chamou de Capitã Marvel, nada a ver com a palavra magica dos velhos tempos.
O filme que chega agora aos cinemas mundiais nem de longe lembra o seriado que saiu nos anos 41 dirigido por John English e William Witney com Tom Tyler, Foi um prazer para a garotada de então. Tyler fez 183 papeis em cinema e as crianças dos anos 1940/50 lembravam que ele havia sido também O Fantasma Voador, herói dos quadrinhos de Lee Falk que também ganhou seriado (chegou a um filme de 1993 com o ator Billy Zane, perdendo popularidade quando em entrevista depois das filmagens Zane revelou sua posição homossexual).
O novo filme do Capitão Marvel, agora só Shazam, acertou como comédia. O roteiro de  Henry Gayden de uma historia de Henry Gayden passa pela origem do vilão Silvana dá outra dimensão a Billy Batson (um menino que se perde da mãe e cresce num orfanato), põe Freddy Freshman como um estudante sabido(não é o jornaleiro do gibi) e Mary Marvel chega no fim da festa.
Mas foi sorte o ator de TV e videogame. Sem qualquer nuance interpretativa é um “cara de pau” guinado a super-herói sem pedigree. Sua falta de jeito acaba gerando situações cômicas interessantes e o filme só peca pelo excesso de efeitos digitais. No final, então, cansa a se ver Shazam (ou Cap. Marvel) tentando tirar o olho de vidro de Silvana, chave da maldade do tipo.
Felizmente as duas horas na tela não geram cansaço. E afinal de contas é o que de melhor se espera de uma trama ingênua, boba como nasceu nos quadrinhos de um tempo em que se consumia um gênero de aventuras sem dar bola para qualquer verossimilhança.
Parece um gol da DC na trave da rival que saiu com uma Capitã Marvel ridícula.


 









sexta-feira, 5 de abril de 2019

A Mula


“A Mula”(The Mule) o novo filme dirigido por Clint Eastwood baseia-se em um artigo publicado no The New York Times, em 2014, sobre Leo Sharp, um idoso de noventa anos que trabalhou como mula para o cartel de El Chapo no oeste norteamericano. Clint faz o papel de Earl Stone, homem que se desvia dos familiares, chegando a faltar ao casamento da filha, e acaba aderindo ao transporte de drogas para poder pagar despesas como a hipoteca de sua casa.
Clint não usa maquilagem. A velhice está presente no rosto enrugado, na magreza percebível, em certa dificuldade de locomoção. Mas é fato que Leo, aqui chamado Earl, faz mais de dez viagens para os drogueiros e acaba preso como única forma de escapar com vida dos próprios traficantes que percebem suas falhas (inclusive quando deixa tudo para ir ao encontro da esposa moribunda).
O filme é bem construído como os demais do diretor. E ele deixa a imagem que pede  o tipo principal. Quem viu CE em westerns desde os de Sergio Leone, lamenta que o ídolo das vesperais de ontem esteja vencido pelo tempo. Mas ainda dá conta da arte que abraçou. Seu filme do ano passado merece ser visto. Clint fará 89 anos em maio próximo. Quem o aplaude em tantos títulos que interpretou e dirigiu espera que passe dos 90. É um dos poucos heroicos veteranos do cinema.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Um Caminho Para Dois


“Um Caminho Para Dois”(Two for the Road) é um exemplo de road-movie criativo. Aqui não se trata de documentar uma viagem ou viagens de um casal . O caminho que ele e ela percorrem é segmentado de forma a constituir a metáfora do relacionamento, de como os dois se conheceram, se amaram, se desamaram gradativamente e de como podem (ou não) se reencontrar(uma sequencia sugestiva do embarque em uma balsa).
Audrey Hepburn e Albert Finney fazem o par que se vê por vários caminhos e em diversos tempos. Ora eles são focalizados jovens enamorados pedindo carona por falha em seu carro, ora dirigem cerros deles por vários destinos, ora seguem com pessoas que os acolhem e que se revelam desamadas, seja a mãe que tenta tolerar a filha menor insuportavelmente mimada, seja o marido motorista que assume a postura de um coadjuvante contrariado no quadro familiar.
Audrey era uma atriz competente e bonita, Estava linda neste filme, E Finney cumpre a sua tarefa da imagem de um homem independente e incapaz de render esta independência por conta do afeto dedicado à companheira. E são muitos os percursos que eles fazem através de estradas e tempo, um espaço ganhando a metáfora de outro, estudando a vida a dois com todos os desníveis que possam acontecer para mudar isso.
Stanley Donen dirigiu o seu mais criativo filme não musical. Considerado “o pai” do gênero que abraçou por anos na Metro, especialmente ao lado de Gene Kelly como em “Cantando na Chuva”, ele tentou outros gêneros mas sem o mesmo vigor. Neste exemplar de 1967(ele fez cinema até 2003 contando vídeos), seguiu em seguida duas ironias (“O Diabo é meu Sócio” e “Os Delicados”).O ultimo musical foi “Cinderela em Paris”de 1957, já com Audrey no elenco.Ali  estava longe de um “7 Noivas Para 7 Irmãos” onde deixou uma coreografia antológica na sequencia da construção de uma casa.
Doney morreu este ano. Finney também. Os dois são lembrados na reprise de “Um Caminho para Dois”. Mas eu acho que a homenagem espalha para Audrey. Ela deixou este mundo em 1993 aos 63 anos e 34 filmes. Seu papel na viagem romântica gerenciada por Donen é capital para que o filme seja ao mesmo tempo uma comedia, um drama, uma analise comportamental, um esboço de estudo psicológico do casamento.
Revi o filme este ano e senti que os anos machucaram um pouco. Mas serve como uma luva para lembrar 3 astros do cinema.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Duas Rainhas


 Mary Queen Of Scots (Duas Rainhas) é mais um filme sobre a monarca católica que desafiou a Inglaterra de Elizabeth I (filha de Henrique VIII e chefa da igreja anglicana). Com roteiro de Beau Willimon e John Guy com base no livro deste ultimo, consegue dimensionar o conflito histórico graças à excelente cenografia (recria-se bem a época) e grandes interpretações de Saoirse Ronan (Mary) e Margot Robbie (Elizabeth). Os outros filmes no assunto passam primeiro pelo curta metragem produzido por Thomas Edson  The Execution of Mary Stuart”(1895) dirigido por Alfred Clark, seguindo-se “Mary Stuart Rainha da Escocia”(Mary of Scotland/1936)de John Ford e Leslie Goodwin, “Mary Queen of Scots” (1971) de Charles Jarrot, “Elizabeth”(1999) de Shekhar Kapur,”Mary, Rainha da Escocia”(Mary Queen of Scots/2013) de Thomas Inbach e “Elizabeth, A Era de Ouro”(2017) de Shekhar Kapur.
            O novo filme prefere delinear o perfil de Mary, seu relacionamento na corte da Escocia e seu casamento. Só no final focaliza o embate com a prima Elizabeth, e chega o seu sacrifício sendo degolada por ordem da rainha inglesa.Por sinal a primeiro sequencia é da morte de Mary, sem maiores detalhes de quem e de como se deu o fato.
            Um dos melhores filmes sobre  o assunto. Ainda bem que está sendo anunciado em nossos cinemas, oxalá nos de Belém (e melhor ainda em copia legendada).  Vale aguardar e conferir.

sexta-feira, 29 de março de 2019

No Portal da Eternidade


Pelo menos dois filmes eu assisti tratando da vida de Vicent Van Gogh o pintor que marcou a arte visual: a animação “Com amor Van Gigh”(Loving Van Gogh/2017) de Dorata Kobiela & Hugh Welchman e o drama “Sede de Viver”(Lust for Life/1956)de Vincent Minneli. Há outros, que eu não vi, mas este “No Portal da Eternidade”(At Eternity Gate/2018) de Julian Schnabel  faz jus aos antepassados, especialmente ao filme de Minneli. E deve-se a Willem Dafoe(candidato ao Oscar pelo papel) que faz um Van Gogh historicamente mais perto do que seria a realidade, adentrando pela causa de sua morte.
O filme não chega ao clímax da criação & neurose mostrado por um dos melhores desempenhos de Kirk Douglas (o papel dado por “Sede de Viver”), deixando de lado a questão da influencia do opio, dada pela ingestão de papoula no cenário onde o pintor morou, mas ganha terreno no relacionamento com seu irmão Theo (Rupert Fiend), embora menos com o colega Gaugin(Oscar Isaaac).
O filme na realidade é do ator. O que Van Gogh viveu entre crises emocionais, ganhando corpo na hora em que sofreu um tiro(seria dado por um menor que lhe via pintando ) passa sem aprofundamento psicológico, ou seja, não se dimensiona com clareza o que sofria o artista. Tampouco se aventura nos seus exílios voluntários para fazer seus quadros. Resta a mascara do interprete, tentando a impressão que o próprio Van Gogh deixou pintada e que Minneli consegui deixar em um dos melhores trabalhos do veterano Douglas(ainda vivo aos 102 anos).
                Um filme importante sem duvida. Não chega à raia de obra-prima mas ganha corpo entre as biografias de um mestre do pincel que em vida pouco foi festejado(vendeu um ou dois quadros apenas). Felizmente chega à Belem (Cine Libero Luxardo).

quinta-feira, 28 de março de 2019

\Cafarnaum


Cafarnaum, é uma cidade bíblica que ficava na margem norte do Mar da Galileia, próxima de Betsaida (terra natal de Simão Pedro) e de Corozaim. No filme atual o cenário é libanês(pais produtor) e não se fala no fato de que o espaço geográfico  juntamente com Betsaida e Corazim foram amaldiçoados por Jesus, que predisse a completa destruição das três cidades. Cristo havia pregado e feito milagres ali, mas aconteceram fatos que levaram o Mestre a se mudar, ganhando caminho de Jerusalém.
O filme dirigido por Nadine Labaki trata de Zain (Zain Al Rafeea) um garoto nascido em berço humilde, fadado à marginalidade como outros de seu tempo e espaço. O menino chega a ser preso por falcatruas e mesmo um quase assassinato (esfaqueou uma pessoa). Na cadeia prossegue maldizendo a sua própria vida, generalizando como “um mal” que se deve evitar “não nascendo”.
Tamanho pessimismo ganha imagens bem compostas, com atores brilhantes, conseguindo manter um ritmo ágil apesar da trama ser estruturalmente episódica.
Quem for ver vai sair do cinema impressionado com o desempenho de Al Rafaeea. Dá para pensar num documentário que focaliza o tipo real do menino-bandido. Em nenhum momento se menciona o espaço geográfico, mas se delineia a feição politica. Reina a desigualdade terrível de classes, a miséria sem uma saída iminente. É como se o velho neorrealismo ganhasse novas lentes,sem duvida mais assustadoras.
Um filme importante. Ainda bem que chega por aqui (Cine Libero Luxardo).

terça-feira, 26 de março de 2019

Nós


Jodan Peele o cineasta que fez “Corra!” e andou ganhando prêmios pela ousadia de uma amostragem menos trivial do racismo nos EUA, voltou com muito mais abrangência em “Nós”(Us), filme não à toa assim chamado.
Logo no inicio legendas tratam de tuneis existentes nos EUA e que muitos já perderam identidade por anos vazios. Daí se passa para uma parque de diversões onde uma garota negra  saia de perto dos pais e envereda por uma sala de espelhos onde vê uma imagem que pode ser o seu reflexo mas que apresenta atitudes pessoais (dela, imagem). Anos depois, a menina já mãe de um casal de filhos vivendo com o marido boa praça, recusa passar as férias na mesma praia  (a do parque) por onde andou na época do espelho. Mas a perseverança do marido ganha e a família vai ao cenário. Ali, em uma noite, vê surgir defronta da casa onde está hospedada, outra família, no caso cópias dela mesma,  das três personagens com apenas detalhes que se vai conhecer quando invadem o ambiente: a mulher usa tatuagens, veste vermelho, e um o filho abusa de mascara branca, contrastando com o garoto da casa que usa uma de monstro.
Começa uma batalha pela supremacia. Os visitantes seriam o lado mau das criaturas. E nessa luta que assume a face de filme de terror & aventura, acaba mostrando que as imagens “más” estão dominando a cidade, dizendo apenas, em uma vez, que “somos americanos” (e citando um versículo bíblico- de Jeremias). De uma feita a mãe (excelente Jupita Nyon) procura seu garoto que sumiu do carro onde estavam fugindo do lugar, e entra numa sala de aula subterrânea onde uma personagem de professor conta a historia da dicotomia que sempre existiu e que no momento a face má quer assumir a chefia do mundo. Não à toa se vê dezenas de figura trajando vermelho, de mãos dadas, adentrando a praia. E na areia casais mortos (a maioria de brancos). Nessa hora a mãe (Lupita) briga e mata a “outra”. Acha o filho e de volta ao carro da família (já uma ambulância) . As ultimas tomadas não são conclusivas na historia. Afinal, o “mal” persiste e hoje está bem vivo na politica mundial, especialmente  na Era Trump.
                Mr. Peele conseguiu fazer um filme denso com embalagem comercial capaz de faturar mais e US$60 milhões na primeira semana de exibições nos cinemas americanos. E o fez de forma tão sutil que as lebres engoliram os gatos –e não à toa, no enredo, os maus comem coelhos.
                Nada é de graça em “Us”. Nós somos as vitimas de nós mesmos desde que fraquejemos voltando ao cenário (bem amplo) de nossas piores lembranças. Afinal uma lição de historia: assim como os tuneis fantasmas os americanos vivem rodeando os espaços que o passado sabiamente deu a esquecer, ou seja, ao pior que escondem em si.
                Há muito a ver nos entre planos do filme. Raridade que promove um cineasta inteligente.

domingo, 24 de março de 2019

Meu Romance


Há 62 anos eu tinha marcado encontro com uma garota que seria a minha primeira namorada. Fui ao cinema (era um domingo pela manhã) ver “Nasce uma Estrela” versão com Judy Garland. Ela me encontraria la(Cine Nazaré). Mas não apareceu. Fiquei desapontado e mais uma vez ciente de que não seria eleito por nenhuma jovem da época. Na saída, encontro-a com um menino que a acompanhava e não entrou no cinema por causa da idade (o filme era improprio até 14 anos). Saímos andando .E marcamos outro encontro cinematográfico. Agora na vesperal do Olimpia quando passava “Sinfonia Carioca”. Eu já tinha visto o filme mas ia rever por causa dela. E realmente só valeu o encontro. Sala lotada. Saímos e fomos para um dos bancos da Praça da Republica onde ficamos conversando de mãos dadas. Daí em diante foram cartas que seguiam para o Colégio Santa Rosa, onde era interna, e rápidos reencontros nas poucas folgas que lhe davam.
Foram creio que 2 anos de namoro. Seguiu-se um de noivado. E o casamento se deu quase 4 anos depois do primeiro encontro.
Maria Luzia desafiou minha timidez. Fez eu viajar de avião (Cessa) para a sua  terra natal (Abaetetuba), conhecer seus pais, acompanhar cenas tristes como a morte de sua mãe de criação, até chegar a hora do altar(em casa), depois uma temporada no Mosqueiro (onde minha mãe dizia que eu fui concebido) e a chegada de uma família grande, começada com 4 filhas e daí 10 netos e (até agora) 1 bisneto.
Luzia é minha companheira, fonte de meu afeto, cuidadora na chegada da velhice, enfim, o meu outro eu. Não mais imagino a vida sem ela. E tudo começou com um bilhete que escrevi à ela depois que a conheci em casa quando foi estudar com uma colega que era das pessoas do interior do Maranhão que meu pai abrigava ganhando freguês da sua loja de tecidos (Africana). Nem sei o que escrevi. Uma freira rasgou o tal bilhete.Para as madres a menina abaetetubense seria uma futura madre. Foi, mas de crianças. Uma benção que recebi e todos os dias agradeço à Força Superior por isso.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Oscar 2019


                Tenho por tradição ver a entrega dos Oscar pela TV. Lembro de que cheguei a ser convidado para ver de perto o programa pelo cineasta Frank Capra. Não fui porque o representante brasileiro da Motion Picture, Harry Stone, disse em carta que a hospedagem em LA nessa época era difícil. Capra responderia, na minha ausência, que onde ficar estava explicito no convite. Quem não gostou da historia foi o amigo Edwaldo Martins que sonhava com uma coisa dessas. Mas vamos ver em que merda deu a entrega dos troféus mais famosos do cinema industrial neste ano de 2019. Começa com o filme. “Green Book” é mediano, mas ao ganhar passou os piores “Nasce uma Estrela”(quarta e pior versão da coisa, a melhor por conta da versão com Judy Garland) e “Pantera Negra”(poder da Marvel & Disney).
, “Roma”, já havia sido premiado como filme estrangeiro(mexicano). Sem ele ficaria “Vice”, ocasião de se criticar a administração atual dos EUA. E a chance maior para Spike Lee com o seu “Infiltrado no Klan” outra maneira de se tratar criticamente o governo republicano em voga(e o diretor já havia discursado contra isso ao ser premiado antes). Mas o pior mesmo foi mais uma vez desprezarem Glenn Close, ótima em “A Esposa”(The Wife). Houve quem achasse um papel menor da atriz tantas vezes indicada e tantas outras ocasiões premiada. Não é. Até  o nome do filme se deve à ela.
                E Christian Bale esteve tão bem em “Vice”, inclusive com a maquilagem sensacional que poderia repetir o Churchill de Gary Oldman no ano passado. Deu o interprete de Fred Mercury, Rami Malek, no razoável “...Raphsody”.
                Sem apresentador, o que fez a cerimonia mais curta, e sem a coreografia de musicais em outras épocas (fato que seria lamentado pelo Edwaldo, um assíduo da transmissão do Oscar) , ficou só um elogio: lembrarem o brasileiro Nelson Pereira dos Santos entre as perdas no ano que passou.
                De um modo geral o Oscar 2019 foi mais um acerto do “poder negro”, com muitos astros de cor no palco e na plateia (um acerto que Griffith cairia do cavalo quando fez “Nascimento de uma Nação”, o épico racista) e no bojo a força estrangeira como o mexicano Cuaron que parecia faze piada do muro que Trump que fazer na fronteira de seu país.Não valeu minha dormida na madrugada(eu que durmo cedo).

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sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Green Book


“Green Book” espanta vindo do diretor de comedias lineares como “Quem Vai Ficar com Mary” ou “Debi Loide”:Peter Farrely. Credito para o roteiro de Nick Villelonga e Brian Currie que também contou com a ajuda do próprio Farrely. Trata de um descendente de italianos, brigão por natureza, que aceita ser o motorista de um pianista negro pelo sul dos EUA em 1962. Quer dizer: trafegar pelo inferno, enfrentando a onda de preconceito nos diversos estados e tentando cumprir a missão a tempo de passar o Natal com a família.
                Dois tipos capitais são encarnados por  Viggo Mortsen e Mahershela Ali. O primeiro é o motorista, o segundo o passageiro. De carro eles cortam o Mississipi &adjacências, com o negro sabendo que mesmo com a sua posição de artista consagrado, vivendo num apartamento em NY nos altos do Music Hall, não pode frequentar certos espaços e sofre até mesmo assedio policial na estrada e até restrição a banheiros específicos em pousadas.
                Poucos filmes de estrada são tão ricos. A abordagem do racismo é tratada com acuidade a ponto de passar por cima de caricaturas como em tantos outros filmes do gênero. É uma exposição sensível digna dos prêmios que vem recebendo.
                Tomara que chegue aos cinemas locais.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

A Culpa da Dinamarca


“Culpa”(Den Skydige) tem roteiro de Gustav Möller e Emil Nygaard com direção de  Gustav Möller. O ator Jakob Cedergren faz o papel de Asger, um operador de emergência na policia dinamarquesa que recebe um chamado de mulher alegando sequestro e ao entrar em contato com a casa dela sabe que a filha de 6 anos está sozinha já que o bebê, seu irmão, não responde a estímulos pois resta esquartejado em seu berço. A ideia inicial é de que o marido da autora do chamado é o sequestrador e assassino do próprio filho. Mas...
                O filme é um modelo de narrativa coesa. A ação não sai do local onde o policial atende aos telefonemas. E mesmo assim provoca um suspense pouco encontrado hoje em dia.
                O cinema dinamarquês demonstra vitalidade neste exemplar. E chega a ser versátil quando busca a comédia em “Draeberne fra Nibe” tal como “Den Skydige”na programação do Telecine Cult (Sky). Vale a pena conhecer tais filmes, uma prova de que, pelo menos em termos de cinema, Shakespeare se enganava ao dizer que “ainda há algo de podre no reino da Dinamarca”.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Luzes da Cidade


Chaplin contava que refez mais de 10 vezes a sequencia em que Carlitos encontra pela primeira vez a florista (Virginia Cherryl) em “Luzes da Cidade”(Citylights/1931). O filme é uma das mais legitimas obras-primas do mestre da comédia(ou o símbolo do próprio cinema).
                “Luzes...” volta às telas  grandes de Belém e no espaço que o lançou por volta de,1933.
Passará no Olympia com musica ao vivo (que deve seguir a trilha sonora original) comemorando o aniversario da cidade. Foi o primeiro trabalho de Chaplin com o sistema sonoro (movietone). Faz rir e também chorar. No plano final há um close do vagabundo quando reconhecido pela mulher a quem protegeu e que era cega. Ela percebera pelo tato que o personagem era o estranho que tanto a ajudou.
Há também um momento cômico irresistível: Carlitos no refeitório com o milionário que só o conhecia quando bêbado, provocando uma série de desastres com os pratos servidos.
                “Citylights” começa com o herói no colo de uma estatua que a  prefeitura inaugura. Daí segue numa avalanche de sequencias hilárias. Se há filme que se pode chamar de clássico este é um exemplo muito feliz.
                Rever esta joia da tela é sempre um prazer.