sábado, 24 de dezembro de 2011

Melhores do Cinema em 2011

Meus melhores filmes do ano 2011:

1-A ÁRVORE DA VIDA

2-EM UM MUNDO MELHOR

3-A FITA BRANCA

4-O DISCURSO DO REI

5-INVERNO DA ALMA

6-CÓPIA FIEL

7-HOMENS E DEUSES

8-RANGO

9- MEIA NOITE EM PARIS

10-CONTRA O TEMPO



Ator-COLIN FIRTH (O Discurso do Rei)

Atriz- JENNIFER LAWRENCE (Inverno da Alma)

Ator coadjuvante- CHRISTIAN BALE (O Vencedor)

Atriz coadjuvante- CHARLOTTE GAISBOURG (Melancholia)

Diretor-TERRENCE MALICK (A Arvore da Vida)

Roteiro original- Bem Ripley (Contra o Tempo)

Roteiro adaptado- Debra Granik e Anne Roselini (Inverno da Alma)

Fotografia- Johanne Debas e Darius Kondji (Meia Noite em Paris)

Música (Trilha sonora)- Stephane Wrembel (Meia Noite em Paris)

Edição- Robert Duffy e Chris Lebenzon (Incontrolável)

Som- Mark Stoeckinger (Incontrolável)

Figurino-Jenny Beavan(O Discurso do Rei)

Efeitos Visuais- Equipe de “Além da Vida”





Melhores Filmes da ACCPA

1) "A Árvore da Vida" de Terrence Mallick

2) "Melancholia" de Lars Von Trier

3) Meia Noite em Paris" de Woody Allen

4) "A Fita Branca" de Michael Haneke

5)"Cópia Fiel" de Abbas Kiarostami

6) "Cisne Negro" de Darren Aronofsky

7) "Em Um Mundo Melhor" de Sussane Bier

8) "Filme Socialismo" de Jean-Luc Godard

9) Tio Boonmee que pode Recordar suas Vidas Passadas" de Apichatpong Weerasethakul

10) "A Pele que Habito" de Pedro Almodóvar

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Dermatologica

O personagem de Antonio Banderas em “A Pele que Habito” de Pedro Almodóvar já foi chamado de Frankenstein erótico. Procede. Quando ele tenta transar com uma “criatura” que ele moldou a partir de um macho é como se o dr. Victor Frankenstein de Mary Shelley tentasse de produzir ereção no pobre diabo que ele moldou como um mosaico. Aliás, mosaico é o tipo de narrativa do filme do espanhol mais conhecido na área de cineastas atualmente. Passa-se do presente (que é 2012) a 6 anos antes e volta-se para mais adiante no tempo com simples legendas pontuando a ação. Esse comodismo quebra o orgulho dos novos que brincam com o calendário narrativo. “A Pele....” é linear, é uma pele de bumbum de nenê. O filme conta o que quer do modo mais fácil possível, mas, mesmo assim, deixa furos. Não conto para não desmanchar prazer de quem vai ver.
Bem, com “A Pele...”os filmes importantes do ano realmente acabam. O novo “Missão Impossível”é coerente:impossível mesmo. E a noite de ano novo de Garry Marshall é presente boomerang, ou seja, para ele mesmo que vai ganhar dinheiro dos ingressos vendidos.
A todos os meus leitores um Natal realmente feliz.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Ano Velho

“Vespera de Ano Novo”(New Year’s Eve) é mais um filme colado na meia-noite de 31 de dezembro. O veterano diretor Garry Marshall (77) gostou (em $$ é claro) de seu “Idas e Vindas do Amor”(St Valentine’s Day)e bisou a formula. Muitas personagens, interpretadas por estrelas de Hollywood, são focalizadas em esquetes clichês e se acham no fim. Nada nesse achado é supreendente. E no caso atual o que mais o público quer ver é uma bola gigante, bem iluminada e multicolorida, cair sobre a grande platéia do Times Square (NY). Para injetar suspense, a bola está com um fusível queimado, prende na subida, e a encarregada do show, interpretada por Hilary Swank deposita esperança e emprego num velho eletricista que ela própria tinha despedido.
No tempo do star-system o filme seria uma festa. Hoje é o que é: uma feérica banalidade. Tudo o que acontece nas vinhetas que se vê é o que muito já se viu em telas grandes e pequenas. E o final feliz em plano aberto é um voto de “bom ano novo”do cineasta de “Uma Linda Mulher”. Ele chegou a usar detalhes com o numero 2012 na festa de entrada de 2011. Ou gastou dólares da Warner que, enfim, estão se pagando posto que o filme encabeçou a lista da semana nas bilheterias norte-americanas, desbancando o incrível “Amanhecer”.
Abacaxi por abacaxi este réveillon mesmeiro é menos ruim do que vampiros galantes e tantas baboseiras de efeitos digitais acurados. Pelo menos dá para ver que fim levou Michelle Pfeiffer, ainda bonitona (foi uma das deusas das telas nos 70).
Ah sim: Robert de Niro faz cara de moribundo. Convence. Vai ver que viu o filme antes de adoecer.
Por curiosidade lembro de filmes que trataram da entrada de ano: “Tarde Demais Para Esquecer”, “O Último Encontro”, “Em Busca do Ouro”e”O Destino se Repete”. Claro que tem muito mais...

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Fossa Astronomica

O filme “Melancholia” de Lars Von Trier prega um fim de mundo. Não é simplesmente a destruição do planeta como viu George Pal & Rudolph Maté em “When Worlds Collide”(aqui “O Fim do Mundo”/1951) nem outro “filme catástrofe” como “Impacto Profundo”(Deep Impact/1998) de Mimi Leder. É mais o que viu Antonioni em “Eclipse”(L’Eclisse/1962). O mundo acaba primeiro no plano individual, ou seja,para as pessoas que vêem a vida desabar.
Mas o filme do dinamarquês não é só a fossa da personagem vivida por Kristen Dunst, chamada Justine. A sua noiva surge na tela já melancólica, e por se vidrar no astro que se aproxima da Terra, chamado Melancholia, afina uma similitude não apenas astronomica.
Não sei se coube ao cineasta mas Justine é uma das mais notáveis mulheres imaginadas por Sade, o marquês. Em “Justine ou les Malheurs de la Vertu” ele mostrou a mulher insatisfeita com o sexo – e por isso buscando-o por fora dos padrões sociais vigentes como forma de se realizar. Nesse quadro, e eu não arrisco chamar de patologia, cabe a mocinha que se casa com luxo, dança, admira sua veste branca, mas deixa o marido só, na alcova, e vai fazer sexo com um convidado em campo aberto. Além disso, Justine não mais compactua com a irmã em troca de segredos intimos. Esta irmã, Claire, é mais padrão burguês, mulher “bem casada”e com um filho menor, afinal quem deve sentir o desastre sideral que se aproxima.
Pode-se traduzir o filme como o casamento, mais real do que o mostrado no segundo dos 3 capitulos a que se entrega a narrativa,do micro com o macrocosmo na constatação de um vazio interior, de uma catástrofe emotiva antes da fisica.
Formalmente é mais comportado do que o padrão do diretor . Só ha ranço do seu estilo a que chamou de Dogma na preferencia pelas tomadas sempre manuais. Lembrei do esforço que a gente fazia no cinema amador de sustentar com a mão direita uma objetiva pequena, temendo o tremor natural do corpo. Trier quer que se veja o tremor. E neste caso ele compactua com o nervosismo do assunto.
Mas se o filme é lógico, explica-se com razões que a razão bem conhece, ele está longe de ser uma criação de esmero, um quadro que privilegia a exposição de reações do mundo moderno. Quem não sente no transito, por exemplo, um fim de mundo? E quantos casais não se afinam na cama ou na casa, na conversa ou na rua, na familia ou na solidão a dois ? Antonioni trabalhou anos nisso aí. E eu não morro de amores pelos filmes dele. Muito menos da fase de Von Trier pós-“Europa”(o seu bom trabalho inicial e acadêmico). Sentindo assim até que me surpreendi apreciando “Melancholia”. Foi um passo à frente. Em Cannes quase pifa com o discurso pró-nazismo que o irriquieto cineasta proferiu em tom de piada. Mesmo assim, o festival francês honrou o esforço de miss Dunst. Dentre as damas da fossa prefiro ela à Monica Vitti de “Deserto Vermelho”.


Justine ou les Malheurs de la vertu) é um clássico das histórias eróticas escrito pelo Marquês de Sade.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Max Ophuls

A elegancia de estilo de Max Ophuls pode ser observada nos filmes que foram agora editados em DVD no Brasil: “Madame D”, “La Ronde” e “O Prazer”.
Max(1902-1957)era alemão. Seu verdadeiro nome era Max Oppenheimer. Botou Ophuls por causa de uma família assim conhecida. Fez cinema em sua terra, na Austria,nos EUA e na França. Gostava de circular com a câmera como se ela dançasse uma valsa. Por essa qualidade pensava-se que ele era austríaco. Seus filmes tinham afinidades especialmente na elegância do trato e dos tipos. Em “La Ronde”,por exemplo(que aqui se chamou “Conflitos de Amor”), Anton Walbrook apresentava girando um carrossel que seguia o ritmo de uma valsa. Ele dizia: “Pelo ambiente vocês podem imaginar que vai se tratar de amor”. E se tratava. O amor seguia através de diversas personagens e quando uma falhava na cama o carrossel parecia ter quebrado. Albrook sorria e tratava de consertar a máquina.
Em “Madame De” ele seguia a mulher do titulo que era infiel a um marido infiel e as aventuras amorosas se descobriam através de uma jóia que ela empenhava. Danielle Darrieus era a madame. Charles Boyer o marido. Vittorio De Sica um amante. Um filme-valsa.
“Le Plaisir” também tem esse tom. E até filmes americanos de Ophuls tinham o charme de belle-époque. O melhor deles, “Carta de uma Desconhecida”, tratava da paixão de uma jovem de classe inferior a do amado que na verdade pouco lhe dava conta. Ele Louis Jourdan, ela Joan Fontaine. A valsa era em tom amargo, mas se ouvia e sentia.
É bom lembrar Ophuls. Os novos cinéfilos talvez não o conheçam bem. Procurem os discos com os filmes dele. O último, “Lola Montés” é uma festa visual. Um tom de despedida.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O Elefante e o Poeta

Um rapaz que nasceu com orelhas grandes tinha mania de fazer versos. Um dia encontrou num bar o poeta Emilio de Meneses(1866-1918), conhecido por gostar da vida boemia e fazer de um posto de venda de bebida alcoolica a sua segunda (ou primeira ?) casa. O rapaz chegou perto de Emilio e começou a versejar: “Maria Dolores/Maria Dolores/ os meus amores/dos meus amores/ entre muitas flores/entre muitas flores/és Maria Dolores/Maria Dolores”.
Emilio tomou um trago, olhou para o seu “colega” e lhe perguntou o nome.
“-João Fernandes”, respondeu. E sem demora falou a ele: “- João Fernandes/João Fernandes/orelhas grandes/orelhas grandes/ninguém te escuta/ninguém te escuta/filho da puta/filho da puta”.
A piada, que não sei se é fato verídico, lembrou-me na época em que me contaram o pequeno elefante Dumbo. Com enormes orelhas não versejou : voou(as orelhas serviram de asas). Virou atração do circo onde morava sua mãe. E salvou artistas de perigos imediatos.
O elefante voador (e orelhudo) foi imaginado por Helen Aberson (1907-1999) e Harold Pearl. O livro “Dumbo, o Elefante Voador” foi lançado em 1939. Dois anos depois surgia no filme produzido por Walt Disney com direção de Samuel Armstrong, Norman Fergunson e mais 4 membros da equipe do já famoso desenhista. Foi o 4° longa metragem dos estúdios Disney(antes “Branca de Neve e os 7 Anões”, “Pinóquio” e “Fantasia”) .Grande sucesso na época. E inovador com seqüência surrealista .
“Dumbo” vai ganhar homenagem pelos seus 70 anos numa sessão especial a ter lugar no Cine Olympia. Merece os aplausos que o poetinha esperava de Meneses (com “s”).

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Mitos e Micos

Assim como os nossos avós diziam que no dia 24 de agosto, por conta da matança dos huguenotes (etimologicamente a união dos termos francês, Huis Genooten /colegas de casa, grupo de estudantes da Biblia, e alemão Eid Genossen /colegas de juramento), perseguição comandada pelos suditos de Catarina de Medicis contra os protestantes (a maioria calviniosta) na França do século XVI , “o diabo estava solto”, outra cultura afirma que no dia 11 de novembro de 2011 (ha pouco passado) uma energia peculiar abrange a Terra e “os demônios aproveitam para testar a resistencia dos homens”.
Se a história é prato de numerólgos & seguidores também faz parte do cardápio dos roteiristas de filmes. Este “11-11-11” que está nos cinemas é um aproveitador de mito. Ou, em si, um mico(posto que ridiculo quase sempre). Atormentado pela morte da mulher e filho num incendio em casa, o escritor Joseph Crane(Timothy Gibbs) segue dos EUA para a Espanha, procurando o pai moribundo em Barcelona e um irmão religioso. Lá chegando ele é atormentado por visões e ruidos, seguindo a imagem de uma estatua de anjo que tinha réplica na sala onde os familiares viraram cinzas. No fim de muitos gritos e intercessões visuais grotescas o escritor fica sabendo, com o sacrificio de sua vida,que o mano quer fundar uma nova igreja, usando-o para um novo livro biblico.
A trama escrita pelo diretor Darren Lynn Bousman cairia numa denuncia corajosa contra as novas formas de exploração da fé popular. Mas o filme começa a cair com os tradicionais acordes que acompanham sequencias “de terror”. A meta é assustar. E cortes bruscos, caras feias e barulho é o que vende as tantas “atividades paranormais” de cinema.
O conjunto só não ganha a pole do pior que se fez no genero por conta do ator principal. Timoth Gibbs) convence no tipo absolutamente improvável. Acompanhando-o a gente sempre pensa que as coisas na tela vão melhorar. Mas como disse o Hugo Carvana, “nada vai dar certo”. E “11-11-11”é mesmo um tremendo abacaxi. Lastimavel, pois abria espaço para uma coisa densa e até oportuna(são inumeras as novas seitas espalhadas pelo planeta).

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Comprando Tempo

O novo filme de Andrew Niccol (“Gattaca”), “O Preço do Amanhã”(In Time) é sobretudo curioso. Num futuro datado por 2020, o dinheiro é substituído por frações de tempo. Não se compra uma passagem de ônibus, mas uns 20 minutos ou o tempo que possa durar a viagem. E quem pode compra até cem anos de vida. Os miseráveis se contentam com dias. A mãe do herói do filme (Olivia Wilde a “13” da série “House”), morre ao esgotar seu tempo correndo para os braços do filho que pode pagar mais minutos à ela. O que não se explica é como o estranho cambio começou. Qual seria o parâmetro para se cotar minutos, horas, dias e até século?
A trama envolve um caso de Romeu & Julieta. Um rapaz pobre, enriquecido com a quota de tempo dada por um amigo suicida (só podia morrer se presenteasse o seu tempo guardado), namora a filha de um milionário dono de um cofre cheio de anos. A idéia é roubar o conteúdo do cofre e doar o conteúdo para a pobreza condenada a pagar cada dia que vive. É claro que vai conseguir, e é claro que para alcançar o que contentaria um Robin Hood tinha de enfrentar muita correria, muitos perigos, muita munição própria de um thriller comercial. E isso Niccol utiliza para vender a sua idéia. Fosse ele próprio rico faria um filme independente onde a missão dos mocinhos ganharia maior embasamento psicológico e menos ação.
Mas o filme interessa. O autor é imaginoso, sabe fugir da mesmice industrial. “O Preço do Amanhã” chega a ser um raro caso do titulo em português ganhar o original, que é insosso (“No Tempo”). Não perdi meu tempo assistindo-o.

domingo, 6 de novembro de 2011

Filme de Festival

Quando eu aprendi fotografia de cinema com Fernando Melo havia um pavor da contraluz (“dá um borrão na imagem”) e do abuso da câmera manual (tremor do quadro era defeito). Hoje essas coisas fazem parte da linguagem cinematográfica normal. Aliás, na época eu via (e estava certo) que a objetiva era o olho e o diafragma as pestanas.Não se pedia uma profundidade de campo com diafragma fechado. Desconfiava-se da luz artificial. Eu quebrei esse tabu quando filmei um interior usando diafragma f-4,5 e um filme sensível . Bem, a sensibilidade (asa)era primordial. Hoje se grava(não se “filma”) com câmeras digitais sem se dar bola para abertura de lente ou mesmo distancia focal (antes usava-se telêmetro).
A evolução técnica levou a experimentos que muitas vezes desafiam a postura de ver cinema – ou a educação ganha em anos adiante de telas. Um filme como “Tio Boonmee Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas” é o reverso do que se aprendia. E do que se via. O diretor que pede ser conhecido como Joe ( o nome dele é impronunciável no português:Apichatpong Weerasethakul) agarra-se à cultura de seu país, a Tailândia, e não conta bem uma história: divaga sobre um velho doente renal que vê gente morta. Cada plano esquece de sair da tela, a luz é parcimoniosa, os atores demonstram preguiça, enfim não há ritmo. Tudo é para se meditar. E são mais de duas horas de “meditação”. Um sacrifício suportar numa poltrona de cinema e invariavelmente uma sessão com hiatos na telinha de casa.
O “tio” do Joe ganhou a Palma de Ouro em Cannes. Vai chegar por aqui. Já me chegou em DVD. Sei que alguns colegas da critica vão elegê-lo um dos melhores do ano. Tudo bem, cada cabeça uma sentença. Mas não é este o cinema que eu aprendi a fazer e amar. Se o melhor dessa arte é essa morosidade charadistica, eu passo. Não gosto de “cinema de festival”: sou um sonhador ou um “espectador da vida” como Diane Keaton chamou Woody Allen em “Sonhos de um Sedutor”(Play ir again, Sam).

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Virose Mortal

“Contagio”(Contage) mostra um apocalipse que lembra os muitos do cinema, como “Eu sou a Lenda”ou, bem mais atrás no tempo, “Os Últimos 5”. Só que não é a radiação pós-3ª.Grande Guerra a grande vilã: é um vírus.E trata bem o problema da mutação viral que impede vacinas imediatas. Mesmo assim o defeito médico da coisa é justamente uma vacina em menos de 150 dias a contar o inicio do primeiro caso da virose. Só se no futuro se possa fazer isso. No filme,o melhor do diretor Steven Soderbergh em anos, uma jovem médica injeta em sua perna o que possa ser a vacina salvadora. Antes, o pânico. E o oportunismo da indústria farmacêutica. Isto cabe num documentário. Existe sim a exploração da doença pelo capital. Um jornalista interpretado por Jude Law dá a dica da safadeza com que se trata um mal cosmopolita.
Gostei do que vi. O povo lutando por um remédio que está em falta, a inexistência de uma cobertura mais amplas da terapêutica comunitária, tudo chega às câmeras em boa direção de arte. E um grande elenco ajudou o diretor (ou o filme custou muito caro ou muitos artistas colaboraram). É o terror palpável, uma coisa que pode acontecer.
“Contágio” ganhou cópias insuficientes para chegar logo aos cinemas de Belém na periferia e no centro. Fosse um desses abacaxis 3D estaria em várias salas com cópias dubladas e legendadas. Aliás, louve-se a escassez pela omissão da dublagem. Para este mal não há vacina que dê jeito. E antes que me despeça, voto desde já em Gwynett Paltrow como “o cadáver do ano”.Perfeita a sua máscara mortuária. Fernanda Montenegro deve tê-la visto assim quando a atriz norte-americana roubou-lhe o Oscar de “Central do Brasil”.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O Palhaço o que é ?

No caso do filme de Selton Melo não é o ladrão de mulher do refrão brasileiro. É um artista de picadeiro que não pode sair de seu estreito cenário de trabalho. Quando se enjoa de fazer graça para os outros (e cadê uma graça de vida?) resolve pular fora. Mas o mundo além das arquibancadas de um circo não é uma piada. É uma lamúria. E logo o palhaço descobre que é melhor ficar rindo da desgraça alheia do que compartilhar com essa desgraça.
Taí uma boa idéia para cinema. Carlitos ao rever a ex-ceguinha a quem ajudou com aventurosos recursos não esconde uma lágrima entre um sorriso forçado e uma flor na mão. É difícil mostrar a imagem da pessoa por trás de um Fígaro. Melo foi inspirado mas daí para uma produção correspondente a distancia machucou. Que circo é o dele, apesar de receber o nome de Esperança, que se mantêm só com dois palhaços? E que diabos a menina Manuela (não é este o nome dela?) encarna a própria esperança finalizando o filme num passeio do exterior ao picadeiro, seguindo a fonte de luz, aludindo à imortalidade, ou renovação, da alma circense?
Estremeci na poltrona. Saiu ridícula a apoteose de um programa curto, sem ritmo, que se conseguiu dizer o que se queria não conseguiu fazer sentir o que desejava que se sentisse. “O Palhaço” é um exemplo clássico de frustração. Doída porque o tipo pode representar o termômetro da sensibilidade humana, arrancando o riso de um espasmo de dor.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Cartazes da Semana

Tenho cinema perto de casa (shopping Boulevard), mas ainda assim acho incômodo ir até lá. A rua por onde vou tem postes no meio da calçada que obrigam o transeunte a passar na frente dos carros (que pouco respeitam pedestre). E só se entra na sala de projeção em hora certa. Nada de ver fim de filme. Lembro de que se fazia borderô em papel impresso pela Embrafilme & Concine. Agora a renda de cada sessão segue em computador até para a matriz da distribuidora (quando for o caso) em Los Angeles. E ainda tem o ar condicionado descontrolado. O frio é polar.
Mas não deixo de ver filmes em tela grande. E vejo muita bobagem. “Atividade Paranormal 3” é um logro. Os produtores querem que a gente pense que as imagens foram gravadas em câmera digital por um personagem. Mas há cortes, há planos diversos. Quem maneja a máquina?O fantasma da história? Por sinal uma história boba que se estende por quantos filmes o público peça. Assustar é uma arte. Logro também. Assustar logrando é arte dupla.
“Gigantes de Aço “ troca o boxe de estrelas como foi Joe Louis por robôs. O gênero deu filmes marcantes e eu cito sempre, na cabeça, “Punhos de Campeão”(The Set Up) de Bob Wise (1949).Mexendo lata não se diminui o instinto bem humano pelo ato violento. A platéia torce pelo robô do herói, um pai que recebe o afeto do filho através dos bonecos brigões.
Sabe-se que criança adora brinquedo como os Transformers. Spielberg, produzindo isso, alimenta a sua conta bancária. E o diretor Shaw Levy não tem currículo apreciável. Seus “Uma Noite no Museu” são constrangedores. O pior é que o enredo se inspirou num curta escrito por Richard Matheson para a série “Além da Imaginação”. Ele não foi citado. Não creio que tenha reclamado. Um currículo em que se conta “O Incrível Homem que Encolheu” não precisa de “reforço” como estes gigantes barulhentos.
No mais, “Os 3 Mosqueteiros” que brigam no ar (caravelas voadoras) e uma jóia na lama da programação: “Contra o Tempo”. Este bom filme do jovem Duncan Jones (de “Lunar”) conversa com a inteligência de quem vê. É imaginoso e aí está o estimulo para se ir ao cinema hoje em dia. Mesmice não paga sair de casa onde um bom DVD está sempre à disposição.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Tempo de Círio

Vi mais um Círio. Pela primeira vez de um ângulo que mostrou o “cotovelo”do Boulevard Castilho França com a Av. Presidente Vargas, cenário que dimensiona a multidão de devotos. Justificou o que ouvia desde crianças quando a referencia para muita gente era : “parece o Círio”.
A mídia local (jornais,rádio e TV)cobriu bem a tradicional romaria. O resto do país, especialmente o sudeste, calou (ou se falou foi cochichando, não ouvi). Não é novidade. Se acontecesse uma tragédia daria manchete. Mas a santinha não deixa que isso motive os que só se lembram da gente quando abrimos canal para a morte.
No cinema, meu terreno, lembro de quantas vezes o Círio foi registrado. Tenho cópia em DVD do que me parece um dos primeiros filmes longos em que aparece a berlinda e o povo acompanhando: o inglês “O Fim do Rio”(The End of the River/1947) com Sabu e a jovem Bibi Ferreira. Tempo em que se andava de roupa branca (paletó) e chapéu de palha. Herança do figurino inglês. E depois disso os estrangeiros só voltaram no absurdo “Os Bandeirantes” de Marcel Camus onde se aludia a uma ferrovia ligando Pará ao Ceará. O mais foi prata da casa. Libero Luxardo dava a sua de Hitchcock aparecendo nos dois exemplos de sua autoria: ”Um Dia Qualquer”(1962), hoje uma lenda, e “A Promessa”(1974) episódio de “Brutos Inocentes”.
No rol dos longas eu acho interessante o “Iracema”(1974) de Jorge Bodanszy até pela fala de um policial que ao ser entrevistado sobre o que está achando do Círio daquele ano ele diz, consultando o relógio “São 9 horas e já estamos chegando na avenida Nazaré” como quem acha que a multidão está correndo.
Ainda falta “o filme” sobre o Círio. Sei que nos idos de 1924 exibiram “Os Milagres de N.S. de Nazaré”, produção de um anônimo que mostrou Plácido achando a imagem e a lenda de que ela voltava para o galho da árvore onde foi achada quando lhe tiravam do lugar. Procurei muito este filme. Achei quem o viu, não quem trabalhou nele. Isso mostrou que não foi um sonho . Algum mascate rodou seu cinematographo dramatizando um tema.
O mais é como as salas exibidoras da cidade se comportavam durante a festa. Festivais, brindes, teatros, o arraial no centro da praça. Não é uma rendição à nostalgia mesmo porque eu detestava o fato de brigar por uma poltrona nesses espaços. Mas havia mesmo uma festa de 15 dias. Agora é de um. Hipertrofiada nesse um.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Em DVD

Na falta de filmes interessantes nos cinemas mergulhei no DVD e vi muitos títulos em um final de semana. Tento resumir o aspecto critico de cada um.
“Um Novo Despertar”(The Awake) tem Jodie Foster dirigindo e atuando. Coincidentemente(ou não) traz um Mel Gibson na fossa. O ator-diretor passou por uma crise ao ser flagrado dirigindo bêbado. No filme de Foster ele é um deprimido. Tanto que se apóia num bichinho de pelúcia por onde passa a se expressar. “Castor”é o que um boneco foi para Danny Kaye em “Cabeça de Pau”(Knock on Wood) de Mai Zetterling. Esse trampolim para o mundo em volta pode ou não dar certo. O filme não vai muito dentro do terreno psicológico. Mas é interessante porque Gibson está convincente, como se ele próprio estivesse precisando de um castor.
“Hotel Atlântico” de Suzana Amaral tem razões que só a razão dela conhece. Não entendi porque o herói da história volta a um cenário depois de bancar um sofrido e mutilado andarilho. Baseado em um livro, com roteiro da diretora, é bem construído em termos artesanais, mas a trama é confusa. Só Suzana pode dizer se tudo o que se viu foi verdade ou imaginação do personagem. Nem Bergman nem Antonioni vagaram tão aereamente sobre um ego sofrido.
“As 3 Máscaras de Eva”(The Three Faces of Eve) ainda hoje convence. O caso real de múltiplas personalidades foi tratado por Nunnaly Johnson (mais roteirista que diretor em termos de carreira) como um documentário. Joanne Woodward convence sempre. Na realidade Eve (Black, White )não desapareceriam quando surgiu Jane, o equilíbrio dos comportamentos. Depois do filme a paciente voltou a ter as suas crises e morreu. Não importa para a realização cinematográfica. O caso espanta e vence as limitações do cinemascope, processo impróprio para um tema introspectivo, a exigir planos próximos.
“2 Semanas de Prazer”(Holiday Inn) nunca me deixou prazer. É uma chatíssima porfia romântica entre um cantor (Bing Crosby) e um colega dançarino (Fred Astaire). Das musicas de Irving Berlin destaca-se “White Christmas”. O diretor Mark Sandrich perdeu a verve mostrada em “O Picolino” (Top Hat) 6 anos antes.
“O Maior Amante do Mundo”(The Greatest Lover of the World) só fez um bem: tirou do cinema o chato do Gene Wilder. Lançado por Mel Brooks este comediante fez rir em momentos de “O Jovem Frankenstein”e no “Tudo o que V. Quer Saber sobre o Sexo” de Woody Allen. Aqui, dirigindo a si mesmo numa paródia aos filmes de Valentino prova que seu tipo de humor é um blefe. O filme foi um fracasso comercial.
“Jovem no Coração”(Young at Heart) escapou de bisar o titulo em português quando foi lançado o filme da Warner com Dóris Day e Frank Sinatra. É uma comédia de 1941 em que Janet Gaynor faz parte de uma família de trambiqueiros que tenta se aproveitar da bondade de uma senhora solitária e aparentemente rica. Um bom elenco (Gaynor, Douglas Fairbanks Jr, Roland Young, Paulette Godard), uma direção de arte do mestre William Cameron Menzies, uma produção de David O. Selznick, só dançando no diretor Richard Wallace, fazem a festa. Não é um exemplo muito feliz de um gênero em um tempo. Mas diverte.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Cinegrafista Pioneiro

Rubens Onetti, falecido semana passada, apareceu na TV Marajoara filmando em 16mm. Surgiu quando Fernando Melo atendia aos amadores como eu e se associava a profissionais como o seu amigo Libero Luxardo que lhe emprestou a casa para ali fazer uma oficina (onde consertava projetores e revelava películas). Foi nessa época que eu conheci o Onetti. Época em que eu ia pegar filme na TV com o Roberto Jares e o Sobral para passar no meu Cine Bandeirante (mais as chanchadas da Atlântida).
Onetti filmava para a a TV e aceitava encomendas de festas familiares, nos passos do que fez antes o Milton Mendonça e o próprio Libero. Mais tarde ele foi para o jornal “A Província do Pará”. Eu mantinha a coluna de cinema onde fiquei de 1966 a 2001. Creio que só o fim do jornal afastou a gente. Onetti foi para “O Liberal” e eu fiquei zanzando, hoje com este blog e com “A Voz de Nazaré”.
As noticias sobre o falecimento do “cinegrafista”(dizia-se assim de quem fazia documentário, hoje tudo é cineasta-felizmente) não mencionaram a passagem dele pelo cinema. Mas foi importante. Ele chegou a fazer filmes sobre certos temas, que eu não cheguei a ver, mas soube da existência em uma conversa que tivemos no Mosqueiro.
Com RO fechou-se mais um capitulo da história da cinematografia local. Creio que a turma que filmava em 16mm ou 8mm (os profissionais enveredavam pelo 35mm) já está inteirinha no passado. E seus trabalhos? Os filmes do Milton foram em parte salvos por seus familiares e hoje estão no MIS. Os de Luxardo, a maioria se perdeu. Do pessoal do Super 8 creio que as relíquias ou estão com descendentes ou se deterioraram. Lembro que nos anos 70 a Luzia, na Embrafilme, fez um festival de cinema amador aqui em Belém. Cobria a região amazônica. A gente não pensava em preservação. Uma pena, pois tudo o que se viu representava peças da história corrente.
Transmito meus sentimentos aos familiares e mais amigos de Rubens Onetti. E naturalmente a quem fez ou viu cinema regional nos anos 60/70.

Dois Falam de Um

DIDI , PARA OS ÍNTIMOS
Luzia Miranda Álvares
luziamiranda@gmail.com
A Família Miranda (Abaetetuba e Igarapé Miri) tinha o dia 3 de outubro como uma data importante: aniversário da matriarca Gertrudes de Miranda Maciel (ou Mocinha) que ainda sob o peso da adolescência, teve que cuidar dos oito irmãos órfãos de pai e mãe falecidos numa distância bem curta – entre seis meses um do outro. Essa data se manteve também como marco das eleições, porque os meus familiares tinham sempre nas veias uma forte tendência para a luta política ou de divulgação dos seus candidatos. A pé, pelas ruas da cidade, ou de canoas a remo, pelos rios do interior, minha mãe ou meu pai nos incluiam nas suas “caminhadas” distribuindo cédulas eleitorais dos seus escolhidos, em busca de votos, culminando na data-símbolo festejada nas próprias cantigas criadas para o dia. Outra menção é para o navio que nos trazia até Belém, o “3 de outubro”, um “gaiola” de luxo que circulava através da linha do Tocantins, incluindo Abaetetuba onde aportava também.
A mudança de ambiente, da cidade pequena para a “grande” e de status civil, de solteira para casada, me fez inserir, no calendário de efemérides, outro marco para a data: o aniversário do Edwaldo Martins, jornalista que foi se incluindo no nosso meio de amigos de cinema e permaneceu entre os “mais chegados” (como referia) até sua “passagem” para outro plano de vida. Já conhecido do Pedro Veriano ainda solteiro, frequentava o “Cine Bandeirante”, mas, desse tempo não guardo lembrança. No avanço das mudanças, entre as sessões de cinema e os banhos de piscina com o mesmo grupo, a cada dia ele marcava a sua presença nas feijoadas e churrascos dominicais. E para ficar. Era também o tempo do barzinho onde nos reuniamos (o Corujão, o Garrafão, a Tonga, a Pop’s) para curtir um final de sábado, após uma sessão de cinema, ou os festejos coletivos de um aniversário (cada qual paga o seu e do aniversariante), ao tradiconal dia de Natal quando ele se transformava porque eleito na ocasião em secretário efetivo da então APCC para anotar o lugar dos filmes que cada sócio-eleitor relacionava nas suas listas. Sua presença era significativa e importante nessa função. Mas esse procedimento não era uma simples anotação do Didi: era acompanhada de uma frase chistosa quando o tal filme escolhido por um de nós era, para ele, “muito cerebral” ou se caia no desinteresse pelo tal diretor que ele achava sem pendores para a arte ou fora de seu gosto. Esse era o momento-chave de nossos encontros que hoje não temos mais, pois, o Didi era especial nas suas frases mordazes sobre as escolhas e seus eleitores. O que mais ele impinimava era na contagem dos valores, se era para os dez títulos ou dez lugares.
Da “Vila de Satanaz” (a casa dele na Braz de Aguiar), à Cova dos Monstros (a garagem de casa, onde ficava o “Bandeirante”) ou na “Casa do Pavor” (casa da Lana Gomes da Silva), a turma (mais chegada) da APPC, àquela época em que se reunia, vivia de graça os encantos do Didi. De suas viagens ao exterior, ao chegar, ele fazia a roda para contar as novidades e os lugares “de cinema” que tinha visitado. Sua emoção: curtiu um fim de tarde na Piazza de São Marcos, em Veneza, com uma orquestra tocando “Summertime”, a exemplo do filme de David Lean que ele amava. Falava da “Mariazinha” (Marilyn Monroe) de quem tinha um poster gigante à porta de seu apartamento. Distribuia cartazes de filmes de Chaplin e de outros, àquela altura, muito difíceis de encontrar no Brasil. Foi ele quem me deu a noticia da morte do ator-diretor-autor, com a voz embargada e sabendo que Chaplin era um dos meus mais queridos.
Um grande débito devo ao Didi: ele avalizou, junto a Rômulo Maiorana, a minha escolha para escrever sobre cinema, em “O Liberal”, no final de outubro de 1972, coluna batizada por RM como “Panorama”. Ele foi comigo na visita ao “italiano” e fez minha apresentação. Esse foi o meu primeiro emprego público. Desafio para mim e para o que eu sabia. Mas isso não invalidou sua insistência comigo para que o PV, a quem ele tinha uma especial admiração pelo estilo de crítica que este escrevia, assumisse a coluna após o fechamento de “A Província...”. Isso nunca foi em desrespeito pelo meu saber (dizia ele, “tu já tens a UFPA...”), mas pelo que ele considerava como um lugar cativo do seu amigo, no espaço da crítica de cinema em Belém.
Hoje, 3 de outubro, Pedro e eu resolvemos fazer-lhe uma homenagem, registrando seu “leva-e-traz” sobre cinema no tempo de sua presença entre nós, ele que hoje está “encantado”, no dizer de Drumond.
Beijo grande, Didi. (Luzia Miranda Álvares)

LEMBRANDO O DIDI

Na minha adolescência 3 de outubro era o dia de eleição e o nome de um gaiola, que fazia a linha do Tocantins (e por onde eu pretendia encontrar a namorada Luzia, acabando por me contentar com um teco-teco). Mas não demorei a acrescentar outra característica: era o aniversário do Edwaldo Martins, um garoto que montava uma página sobre cinema no jornal “A Província do Pará” competindo com que a sua colega Regina Pesce que fazia no outro jornal da cidade,”Folha do Norte”.
Edwaldo, mais tarde ganhando de minha família o diminutivo carinhoso de Didi, apareceu no meu Cine Bandeirante, a garagem que exibia filmes em 16mm, numa noite em que passava o neo-realista “Um Domingo de Verão”.filme italiano de Luciano Emmer. Lembro de que nesse tempo havia uma tumultuada greve de ônibus e alguna veículos tinham sido incendiados pelos grevistas. Mesmo assim o novo espectador viu a sessão e saiu corajosamente a pé no rumo de sua casa noutra rua.
Anos mais tarde eu era o critico de cinema de “A Província...” e tomava parte na Associação Paraense de Críticos Cinematográficos, nome pomposo criado por um grupo de amigos. Nos finais de ano o Didi era convocado não só para a escolha dos 10 melhores filmes do ano como para secretariar a sessão que acabava sendo uma festa natalina.
Por muito tempo Edwaldo contava os pontos dos filmes, resmungando, fazendo piadas do que se achava extraordinário e ele, muito prático, concluiu que aqueles títulos cabeça “não balançavam o passarinho”.
E não ficou por aí. Didi respondia presente em reuniões familiares, até em um réveillon com direito a banho de piscina, nesse ano trocando uma de suas reuniões sociais já que na época havia assumido a coluna especifica do jornal (e mais tarde de outro jornal, “O Liberal”).
Este amigo de muitas horas morreu cedo, desprezando os perigos de sua diabetes. Não preciso escrever que deixou uma cratera na lua de tantos. A última vez que o vi foi em seu apartamento, já com seqüelas da enfermidade. O cinema e o colunismo social abraçavam-se nas ironias do jornalista de vocação. Conseguiu concretizar sonhos como visitar a Piazza de s Marcos em Veneza e pedir para a orquestra de lá tocar “Summertime” como no filme de David Lean que ele adorava. E visiitou mais de duas vezes os EUA indo à calçada da fama, vendo as marcas dos artistas que desde criança admirava, chegando a ter a receber a “visita” de um furacão para lhe lembrar filme de John Ford.
Coerente sempre, seu filme predileto era “Mompti” com Romy Schneider e Alain Delon. Na primeira escolha dos críticos em grupo votou em “Rocco e seus irmãos” de Visconti. Dizia sempre que se devia votar, no fim de ano, em filmes exibidos nas salas comerciais e não nos cineclubes. Gostava de ver estrelas, ora...
Em cada 3 de outubro a lembrança de Edwaldo Martins fica mais forte. Não que ele se cultuasse. Era muito simples. Mas os amigos somavam muitos e não deixavam de prestigiar o seu natalício.
Neste calendário de saudade cito o Didi no espaço que me cabe. Ele manteve uma secção chamada “A Cara de Belém”. Botou muita gente mas esqueceu a dele, um bragantino que amava a capital do Pará. (Pedro Veriano)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Não se Brinca com o Amor

Sexo é sexo, amor é amor. Ou como escreveu Alfred de Musset: “on ne badine pas avec l’amour”. Várias vezes se dissertou, nos cinema, sobre o tema, mas em “Amizade Colorida”(Friends with Benefits) a coisa ganha o ar de deboche. É assim que se vê a recrutadora de eventos (Mila Kunis) paquerar o cliente de S.Francisco que chega a NY atrás de melhor emprego, levando-o para a cama, sofá, onde der, pensando que as investidas sexuais são apenas atos de amizade. Se o casal acaba descobrindo que o melhor é ficar junto a consciência disso passa por investidas de ciúme.
O filme dirigido por Will Gkuck de um roteiro que ele ajudou a escrever, é uma gozação irresponsável sobre o tema definido por Musset. Não há qualquer cuidado em se desenvolver o liame que passa do coito ao amor sublime, ou como as personagens vão se dedicando uma à outra sem precisar mostrar talento físico. O tom é de comédia, ou de pornochanchada mesmo, e a conclusão é tão boba quanto o desenvolvimento de uma idéia basicamente densa.
Pode-se dizer que o filme, entre cenas de sexo, tem algum enredo. E as cenas passam por explicitas quando na verdade há um pudor muito camuflado, especialmente por parte da atriz. Mesmo assim a coisa seria impensada na Hollywood do Código Hayes ou mesmo imediatamente depois dessa censura interna dos produtores. Lembro de que nos 40/50 um seio de mocinha visto com mamilo evidente era coisa “extremamente proibida”. Eu cheguei a furar um bloqueio para menores de 18 anos (tinha 13 ou 14) para ver Françoise Arnoul(estreante) em um plano médio só de calcinha no abacaxi “Tormento do Desejo”(L’Épave/1949) de Willy Rozier. Hoje Mila Kunis passeia pelos aposentos de topless e Justin Timberlake mostra o bum bum “n” vezes, certamente usando só um “tapa sexo” posto que a câmera o focaliza de lado ou de costas . Mas as posições de coito são exibidas como se o espectador estivesse recebendo lições filmadas do Kama Sutra.
Zé Wilker no “Bye Bye Brasil” de Cacá Diegues diz, em uma seqüência, que “sacanagem tem que ser bem administrada”. Não é em “Amizade Colorida”. E ao voar por terreno mais sério torna-se uma dessas chatas comédia românticas que hoje disputam com os blockbuster a paciência da platéia internacional.
O pior, minha gente, é que essas porcarias estimulam pagantes. E por isso proliferam.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Sem Graça

Amnésicos como Ronald Colman em “A Noite do Passado”(Random Harvest/1942) ou quem se diz reencarnado como a menina de “As Duas Vidas de Audrey Rose”(Audrey Rose/1977) deixaram espectadores curiosos para saber se as pessoas se encontrariam ao longo do tempo, digo, da metragem do filme. Mais ou menos isso é o que acontece com Taylor Lautner, o lobisomem da série “Crepusculo”(Twilight) neste “Sem Saída”(Abduction) que está levando muita gente ao cinema. Ele vê no seu computador uma foto que tirou quando criança. O nome é outro, os pais seriam outros (os que reconhece como pai e mãe não são nada disso) e o motivo de ter sido abandonado e adotado ganha caminhos de um “thriller” de espionagem sujeito a todos os clichês do gênero.
O diretor John Singleton é um talento negro surgido com o modesto e forte “Donos da Rua”(Boyz in the Hood/ 1991). Bem adaptado ao ritmo dos grandes estúdios aceita a tarefa de dirigir um roteiro de sua autoria com a maquilagem imposta pela produtora Lions Gate e trampolim para Lautner, o ator (?), chamar as meninas que adoram crepúsculo de cinema posto que jamais adorariam auroras substanciais como a filmada por F. W. Murnau.
O filme tem ritmo, não se olha para relógio durante a projeção nem dá para se mexer a bunda na poltrona. Mas ninguém sai da sala sem sentir que foi ludibriado. Os furos são imensos, desde os eternos molhados que logo enxugam à porfias de forças contrárias, ambas ligadas à espionagem, que bem poderiam resolver seus problemas numa cena sem mesmo ser necessário chamar o herói , acomodado na rotina burguesa embora aprendendo a brigar posto que o pai postiço era um agente zero zero qualquer coisa.
Bem, já se disse que cinema é a mentira 24 vezes por segundo., Todo filme começa a mentir quando se sabe que o dono da verdade é olho que está colado na câmera . Por isso, um “thriller” como “Sem Saída” é feito para, exclusivamente, divertir. E se há defeito sério é o pouco humor. O galã é tão medíocre que consegue fazer rir com uma postura de herói da Marvel. Se levasse na brincadeira a sua briguinha contra policia e vilão até que a coisa seria algo mais do que uma volta na roda gigante. Fica com o espectador tentar achar graça dele e da namorada correrem milhas sem suar e não sairem de cena sem uma beijoca. Aliás, o lobisomem beijando é o que as garotas da platéia pagam pra ver. Elas ganham mais no programa. Os chamados cinéfilos saem com cara de besta. Aí é que chega a comédia.

Espionagem no Tempo

O diretor Duncan Jones já está no meu caderninho de preferidos. Seu “Lunar” foi uma espécie de “2001” em miniatura. Feito com poucos recursos, focalizou dois astronautas isolados numa base edificada no satélite natural , tentando pedir recursos para o planeta-mãe sem obter resposta. O tipo do isolamento aterrorizante, ou como ficar no mundo da lua textualmente, sem ganhar concessões. Belo trabalho. Agora ele surge com este “Contra o Tempo”(Source Code) que torna a arranhar a ficção - cientifica. O capitão Stevens (Jake Gyllenhaal) vê-se num trem conversando com uma garota conscientizando-se de que não é ele quem está ali e na hora. Quando o trem explode (por sabotagem), ele acorda num laboratório militar, mutilado desde sua última missão numa guerra, e ouve da médica & agente federal que foi transportado para o tempo e o espaço de onde veio com o objetivo de saber quem sabotou o trem. Este seria a primeira viagem ao lugar e hora. Voltaria tantas vezes que fosse preciso para identificar o terrorista responsável pelo desastre.
Como se trata de um filme comercial, as viagens levam Steven a se apaixonar pela estranha com quem conversa: Michelle (Christina Warren). É reticente o final, embora se saiba que o sabotador é descoberto antes que faça mais um atentado. O que não se sabe ao certo é se ele e Michelle vão ficar juntos numa realidade que se coloca praticamente inacessível (ele é mutilado e parte de uma experiência cientifica).
Boa idéia, bom roteiro de Ben Ripley (primeiro filme deste rapaz para cinema-antes só fez TV). O tema lembra muito a série “Além da Imaginação”. Roteirista e diretor devem ter visto e admirado o que produziu Rod Serling nos anos 50. E procuraram o gênero para divagar em cima. “Contra o Tempo” é tão imaginoso quanto alguns episódios que empolgaram os vovôs de hoje. Eu no meio. Per cause gostei muito do filme do filho de David Bowe. Tomara que ele continue nesse tipo de cinema. Seria um novo George Pal, com mais densidade na exploração de idéias.

domingo, 25 de setembro de 2011

Piadas Infames

Há uma piada que bem define o mau gosto do filme “Missão Madrinha de Casamento”(Bridemaids/EUA,2011): as mulheres focalizadas vão a um restaurante brasileiro nos arredores de Los Angeles. Comem um churrasco e elogiam o gosto. Mais tarde começam a vomitar. E uma delas faz uma gracinha no entender dos autores do filme: defeca no meio da rua. Isso mesmo: uma explicita posição entre carros que prudentemente desviam da cagona. E mais: ela está vestindo um traje e noiva que provara numa casa de modas.
Escrito e interpretado por Kristen Wiig, uma das comediantes do programa Saturday Night Live(TV), o filme quer ser o roteiro de uma trintona frustrada (na vida profissional e na vida sentimental) que entre muitas trapalhadas estraga a ornamentação do casamento da melhor amiga, esbanjando o que um porre é capaz de fazê-lo.
Eu ri muito pouco das duas horas com essas maduronas expansivas (fazem sexo com a naturalidade de quem bebe um copo d’água). Apesar do apelo moderninho dado pelo diretor Paul Feig, a mando do produtor Judd Apatow, e pelo que escrever Wiig e a amiga Annie Mamolo, tudo é clichê e o final se arranja para manter a capa de felicidade a todo custo.
Pior pode se considerar “Premonição 5”(Final Destination 5/EUA<2011). Só ganha certo humor no fim, quando emenda com o primeiro filme da franquia. Feito para ser visto em 3D começa jogando cacos de vidros dispostos nos créditos em direção à platéia. E as mortes de quem driblam a morte (neste caso escapa de uma queda de ponte em ruínas) são arranjadas de forma mais bizarra possível para melhor efeito tridimensional. Uma delas: uma paciente de oftalmologista está com uma pinça nas pálpebras quando há uma pane elétrica, ela toma choque, dispara em direção à janela do consultório e se joga no cimento da rua com um olho pulando fora do corpo. Mais gracinhas acontecem em noventa minutos de sadismo. Vantagem em relação à comédia das balzaquianas que dura duas horas na tela. Haja saco!

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Lembrando o Carequinha

O palhaço Carequinha foi contratado para fazer a propaganda no plebiscito em que se pedia o regime parlamentarista como o ideal para o país (a direita temia que João Goulart como presidente levasse o país ao comunismo). Cantava assim:
“-Eu vou fazer um x
Um xizinho ao lado da palavra não.
Parlamentarismo não, chega de confusão
Eu vou fazer um x, um x ao lado da palavra não .
Hoje não tem mais Carequinha (George Savala Gomes). O ator circense morreu em 2006. Mas tem plebiscito. E o Pará é a vitima. Querem dividi-lo com a criação dos estados de Tapajós e Carajás. Primeira pergunta: quem quer sair é porque se acha suficientemente forte (em termos de meios de produção) para proclamar independência. E assim está porque fez parte do Pará, foi o Pará quem lhe deu esta projeção. Segunda: De que vale se separar além de criar novos cargos políticos, contentando carreiristas dessa área? Terceira: quando o país se gaba de fugir da crise econômica mundial, e já agora está engolindo a vaidade com as quedas sucessivas da bolsa e o dólar ganhando alturas, que rombo patrocinará novos estados?Pensem no que se vai gastar com novos governadores,deputados, senadores, serviçais desse pessoal, e os gastos recorrentes dessas novas fontes de despesa ? Enfim, pensem no quanto se vai pagar por uma vaidade. Quando se mendiga verbas para a Saúde, o que vai acontecer com o separatismo é a encruzilhada para novos impostos (ou aumento de alíquotas dos que já existem).
Carequinha cantaria outra vez o NÃO. Mas sem fazer graça. A pretensão política é por demais dramática. Ficaria melhor o Zé do Caixão cantando o sim.

domingo, 18 de setembro de 2011

Realmente Barbaro

Não estou freqüentando assiduamente as sessões extras por dois motivos:primeiro porque quase todos os filmes lançados eu já vi em DVD (e dificilmente faço revisão em tela maior imaginando o desconforto de sair de casa nesse tempo de transito caótico e violência em cada esquina). Depois estou selecionando muito o que vejo por conta de uma cada vez maior certeza do que me satisfaz. Não sou mais o critico intransigente do passado. Hoje admiro o slogan da Imovision quando distribui seus filmes em discos digitais: “Leve para casa o filme que você gosta”. Virei escravo do meu gosto. Se ele alguma vezes expõe uma fragilidade cultural que eu mesmo atacava quando dirigia cineclube, sem medo assumo uma posição que me define, ou seja, conforta meus sentimentos. Com isso estou conhecendo os novos blockbuster em pescarias na internet. “Conan”é um desses pescados. E bendigo a tecnologia que me poupou de ir ao cinema, sujeito a horário, filas e frio glacial de algumas salas, ver o que de pior se pode fazer nessa arte.
“Conan 2011”é realmente bárbaro. Não só no roteiro que expõe a idéia da selvageria de uma gente em um tempo como na péssima realização cinematográfica, seja na condução do elenco, seja no roteiro em si, seja na direção de arte, seja na maquilagem, na música, na edição que metralha seqüências para tapar buracos de representação (se um personagem vai bater em outro corta-se rápido, usa-se o ruído correspondente, e passa-se para um close do batido).
A origem do herói, um livreto que desconheço, e seu passado nas telas a revelar a canastrice de Arnold Schwarzenegger,ganhou a direção do problemático John Millius, um ex-roteirista (até de "Apoclipse Now") que só fez um filme importante:"O Vento e o Leão". Não foi um desastre total. Apesar do ator (que nunca foi isso), tinha o que ver na fabula que vislumbrava a chegada da Idade Média. Agora, a mania de refilmagem expõe ao ridículo o jovem havaiano Jason Mamoa, o diretor Marcus Nispel e se especializa na construção de cenas de massacres, com os recursos do CGI para rolar cabeças ao uso da espada miraculosa do mocinho.
Um exemplo de mau cinema. A se juntar a tantos exibidos este ano. A sorte é que no período muito de bom surgiu.É o ano de “A Arvore da Vida”,”Um Mundo Melhor”, “O Discurso do Rei” e outros títulos que vão ficar. Por isso um ano em que, apesar de meu comodismo justificado acima, fui muito a cinema.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Tem ET no Faroeste

Há quem diga que a Terra é observada pelos seres do espaço desde o tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça. Mas o filme “Cowboys & Aliens” não saiu dessa história. Na verdade Steven Spielberg, Ron Howard e até Jon Faveau, foram consumidores de gibis que mostravam em separado aventuras de Hopalong Cassidy e de Flarh Gordon ou Brick Bradford.
O filme dirigido por Faveau e produzido pelos amigos nostálgicos procura misturar as coisas como se o Durango Kid, ao invés de ajudar a diligencia afugentando os bandidos depara com monstros do espaço à maneira daquele que veio do Planeta X e guardou quase uma cidade inteira no porão mais próximo.
A salada pop tem de tudo. O herói sem memória que traz uma enigmática pulseira no braço pode se chamar “O Estranho sem Nome”. A garota enigmática que surge num saloon é como a filha do cientista que descobriu um pequeno planeta próximo da Terra e acaba dando de cara com o et feioso seqüestrador de humanos (tal como o do filme “Casei-me com um Monstro”). Os cowboys unem-se aos índios no combate ao inimigo espacial. Sinal dos tempos (esqueceram os peles-vermelhas que roubaram Natalie Wood em “Rastros do Ódio”). E a nave espacial fincada no solo árido esteve agorinha mesmo no “Super 8” que o próprio Spileberg botou para JJ Abrams dirigir.
Os espectadores mais velhos poderiam gostar. Mas a condução não é simplista como o cinema de vesperal passatempo. A cor lembra o que Gore Verbinski fez na animação “Rango”(com mais procedência).Eu não gostei. Até Harrison Ford mostra-se fora de forma, longe de Indiana Jones. Ah sim, o xerife une-se ao possível vilão na caça aos ETs. Um prato no fim das contas indigesto. Melhor rever as matrizes em casa.São ingênuas o bastante para soltar o riso. No filme de agora, produzido com muitos recursos, é uma viagem na máquina do tempo em que se atola num paradoxo a lembrar o do Claudio Torres neste “Homem do Futuro” também em cartaz. E essas lembranças de criança grande chegam emprenhadas de “adultismo” chato. Quando eu era moleque de ver seriado consumia as bobagens sem criticar o fato do chapéu do herói não cair na hora da porrada. E os ETs falarem inglês com sotaque de Oxford. Valia todo e quanto mais mentirinha melhor. Assim ficou na memória um tempo. E nem tinha tecnicolor. Era tudo feito nos quintais da Columbia ou Republic...

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Prêmio Pinocchio

Cinema é mesmo a mentira 24 vezes por segundo. Vejam “Apollo 18”. A NASA jura que o vôo foi interrompido no chão. Mas os produtores do filme que leva o nome da que seria a exploração da cratera Copérnico na lua, mostram que ele existiu e que os astronautas morreram (não só os dois que pousaram no satélite, mas o que ficou em orbita aguardando por eles). Teria, um dos rapazes que andaram no solo lunar, sido infectado por uma pedra, ou um vírus ou uma bactéria que estivesse incrustada nessa pedra. Por sinal que os moços acham o corpo de um russo na borda da cratera objetivada. E daí em diante um deles sente formigamento no corpo, volta à sua nave e o amigo descobre uma pequena pedra incrustada numa ferida (que não sabe como ela surgiu já que a roupa de astronauta é vedada sob pena de chegar a explodir se furada na zona sem atmosfera e com baixa pressão).
A ordem de voltar correndo para casa, dada a quem está em orbita, sacrifica os que estão no solo ou tentam voltar para acoplagem. A coisa é tão bizarra que a sonda de volta choca-se com a nave mãe. Todo mundo vai para o céu de corpo presente.
Igual às lorotas de “A Bruxa de Blair”, “Atividades Paranormais” e/ou “Rec”, há detalhes “técnicos” da ação ditos a guisa de depoimentos tomados por tele-reporteres. Não sei como a NASA viu o filme. Se os defuntos da Apollo 18 não existiram, ou se existiram foram vitimas de outros acidentes (sem que se lhes resgatasse os corpos) faltou explicação oficial. E o filme vai além, dizendo que as pedras trazidas da lua por outras missões podem conter esse microorganismo malévolo seriam, no caso, “presentes de grego”a tantos governos que receberam a relíquia(inclusive o nosso- eu vi uma dessas pedras em exposição no Teatro da Paz).
Uma coisa é certa. O diretor espanhol Gozalo Lopez Gallego, soube mentir. Sua narrativa em ritmo de documentário é capaz de entusiasmar platéias. Uma edição marota e uma fotografia grosseira fazem da conta uma realidade. E se alguém pergunta quem filmou os 2 astronautas na lua se só estavam os dois, outro absurdo cabe no fato de todos os filmes terem se evaporado no choque das naves. Mas é a tal coisa: quem filmou os fantasmas de “A Casa”? Como não saiu velado o filme dos amadores que registraram a bruxa (de Blair)? Como eu disse, cinema é mentira. O público gosta de ouvir/ver mentiras bem contadas. Na minha sessão de “Apollo 18”, ninguém abandonou a sala pelo meio da projeção. E deve ter saído praguejando contra os “assassinos” que não se importaram com os jovens viajantes do espaço.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A Vida como em Cinema


“Amor à Toda Prova”(Crazy, Stupid Love/EUA,2011) não é doido e estúpido como diz o original e tampouco se exibe como um tratado sobre o amor. Se for visto como uma comédia romântica, dessas que hoje faturam poucos pontos abaixo dos blockbuster de mais de 100 milhões de dólares, ganha dianteira. E nem é por culpa do roteiro ou do argumento. Quem carrega a trouxa é o elenco, muito afiado, e a direção da dupla Glenn Ficarra e John Requa (os sobrenomes soam em português como piadas). Eles conseguem que a gente não só acompanhe das peripécias amorosas de pelo menos 6 personagens como se divirta bastante. Isto sem que a narrativa caia de amores pelo humor fácil de trapalhadas de alcova ou pinte algumas figuras de tons melodramáticos (e há por onde fazê-lo).
Tudo começa quando a esposa de mais de 20 anos diz ao marido(ele dirigindo um carro, de noite) que quer se divorciar pois “até já transou com um colega de trabalho”. Daí em diante ele tenta sair da fossa paquerando quem lhe dê bola, auxiliado por um paquerador emérito, e o filho mais novo, um garoto de 13 anos, declara-se apaixonado pela babá que, por sua vez, declara-se, intimamente, apaixonada pelo patrão. Como se não bastasse, a filha mais velha do divorciado passa a namorar o “professor de paquera”. Toda esta confusão ganha terreno numa espécie de apoteose, com direito a um apêndice moralista na formatura do garoto gamado.
Steve Carrel com a cara de pau que lhe dá espaço na comédia pinta bem o tipo que lhe dão. Julianne Moore tem pouca chance, mas cumpre o estereotipo da separada que pede pra voltar. Mas é o moleque Josh Groban quem rouba a cena com a idéia de que a babá três anos mais velha é a sua “alma gêmea”.
Tudo podia dar em um ridículo atroz. Mas saiu um filme bem divertido. Prova de que o cinema é uma arte complexa onde bons assuntos naufragam e maus emergem do mar de expectativas (da platéia). A mim valeu até porque vi o filme em sessão de 11,35 e guardei a fome como não olhei para o relógio.


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Lanterna Sim,Não Importa a Cor


Os Guardiões de AO, responsáveis pelo equilíbrio do universo, representam a essência do bem e, como tal, possuem um rival que é a essência do mal e se chama Parallax. Para lutar contra Parallax os heróis usam lanternas verdes que produzem raios devastadores. E buscam apoio de todos os mundos, inclusive o nosso. Para isso um guardião visita a Terra, mas se dá mal, caindo na zona rural dos EUA. Por feliz coincidência ele é encontrado (moribundo) por um audacioso piloto de provas, filho de outro piloto morto em serviço (e afinal a causa do filho seguir a profissão do pai). O resto da trama é ver o piloto botar uma fantasia condigna (que não se sabe quem costurou, apenas que é coisa de outro mundo), arranjar uma namorada e seguir pelas galáxias para vencer o bandido que recebeu o nome de um recurso de máquina fotográfica.
“Lanterna Verde”(Green Lantern/EUA,2011) foi a aposta da DC Comics no jogo milionário do cinema onde a campeã, na linha dos quadrinhos, é a Marvel. Perdeu feio. Com o custo de produção orçado perto dos US$200 milhões, mal tirou 100 nas bilheterias domesticas. E a critica arrasou. Com maldade, pois o filme não é bom mas está longe de ser abominável como “Transformers 3”.
Programa para crianças. E caro para os pais que vão pagar para ver em 3D uma coisa que pode muito bem ser consumida em 2D.
O que o conjunto dirigido por Martin Campbell se esmera é na direção de arte de Grant Major e na fotografia de Dion Beebe. Nem falo dos efeitos visuais, pois nesse tipo de filme isto rende um programa mirabolante dos digitadores. O “plot” é bobinho, com inclusão sentimental na história do garoto que vê o pai—ídolo morrer num desastre de aviação. E convenhamos, o que os autores do super-herói fizeram ao longo dos anos foi copiar o trabalho dos colegas. O que o Lanterna Verde tem que o Superman não tem?. Noutro campo, o mocinho pode passar até pelo Capitão America ou outro capitão de fisico hipertrofiado existente no "exército" dos comics. O fundo dessas histórias sempre teve um toque místico: o herói é um arcanjo, o vilão um demônio. Na eterna luta sempre o Bem sai vencedor, e nesse roteiro clichê melhor mesmo é o que a Dream Works fez com “Megamente” onde o herói pode ser o vilão quando não tenha um concorrente disponível.
“Lanterna Verde” é um dos programas lançados na temporada de verão norte-americana. Foi um dos primeiros e por aqui aparece como um dos últimos. Culpa da má receptividade. O público quase o coloca de posse de uma outra lanterna: a de último colocado na ambiciona porfia pela renda nos guichês das salas exibidoras. Sorte:a Warner não pensa em um “Lanterna Verde 2”.

A Nova Pornochanchada


Não resisti aos elogios de parentes e amigos e fui ver “Cilada.Com”, filme que emplacou a sua 5ª.semana nos dois circuitos exibidores locais e no plano geral já deve ter ultrapassado a meta de 1 milhão de espectadores.
Primeira impressão: o fascínio do “palavreado” é a formula que hoje o cinema internacional está usando para fazer rir. Lembro de um colega que ao ouvir a anedota de outro, não só sem graça como mal contada,pedia licença para acrescentar o termo “filho da puta”. Dizia que só assim atiçava o riso. Certo ou errado hoje quando se solta a língua nas telas dos cinemas a platéia, criadas no rigor de uma educação que chamava certos termos de “nomes feios” (ou chulos, ou palavrão), o riso aflora. É um prêmio pela coragem de quem fala. E se antes as legendas dos filmes estrangeiros, ainda impregnadas da moral vigente na época do Código Hays de Hollywood,omitiam o que os artistas falavam em alto som, agora traduzem corretamente no grosso das gíria nacional.
A “boca suja” dos tipos mostrados pelo roteiro mal costurado de Bruno Mazzeo é imprescindível nas situações expostas.
Segunda impressão: o gênero se sofisticou. Uma direção de arte eficiente, uma edição mais cuidada, faz a diferença do que Helena Ramos atuou nos anos 70 driblando a censura dos generais. Mas o miolo da coisa é o mesmo. Inclusive na exploração do preconceito. Ejaculação precoce é um problema médico. Pode-se chamar de doença. Mas no filme é motivo de gozação. E se o marido ansioso faz sexo de segundos ele com outra mulher parece ser mais lento. Pelo menos é o que se tira da cena em que é flagrado pela cara-metade que,por vingança, lança um vídeo da transa “oficial” num arremedo do Youtube.
Naturalmente que uma situação grotesca é arma de comédia desde o cinema mudo. Mas os verdadeiros comediantes não queriam ser realistas: assumiam o absurdo. Agora personagens e situações saem da realidade como o flagra da mulher traída que se vinga disso até que o parceiro peça penico. E contrabalançando a proposta de ridicularizar o cotidiano há um derrame de caricaturas. Mazzeo explode exageros de expressão corporal. E há tipos grotescos como o interpretado por Sérgio Loroza (o Marconha). Ícone do preconceito.
Sinceramente só achei graça umas duas vezes nos 95 minutos e projeção. Estou longe de ser puritano mas estou perto de um cinema responsável com a criatividade. “Cilada. Com” só tem de novo o uso da internet como arma do ridículo (e é em muitos programas de rede social). Podia aproveitar a deixa e fazer coisa boa. Não fez. José Alvarenga, o diretor, mesmo assim anuncia uma seqüência. Mas deixa uma semi-metáfora quando se joga o vídeo na lata do lixo. Um garoto salva a fita, mas já se fez a critica que a produção merece.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Novas Macaquices














O final do filme “O Planeta dos Macacos”(Planet of the Apes/EUA,1968) foi elogiado entre nós por um dos críticos mais exigentes que eu conheci: Francisco Paulo Mendes. Ele achava o filme de Franklin Schaffner melhor do que o “2001” de Kubrick. E salientava o final, realmente chocante: o astronauta que pensa estar em outro planeta depois de uma longa viagem pelo espaço sideral descobre a Estatua da Liberdade semi enterrada numa praia e, se atira no chão gritando: “-Seus malditos, vocês fizeram isso!!”
O filme com base numa história de Pierre Boulle(1912-1994), o autor de “A Ponte do Rio Kwai”, teve um roteiro primoroso a cargo de Rod Serling(1924-1975), o criador da série de TV “Além da Imaginação” e de Michael Wilson (1914-1978), veterano escritor que contribuiu nos roteiros de “Lawrence da Arábia”, “A Ponte do Rio Kwai”, e trabalhou sem credito no que escreveu Frances Goodrich, Albert Hackett e Frank Capra em “A Felicidade Não se Compra”.
A base nesse tempo de fobia atômica era o fim da civilização se entrasse numa guerra nuclear que nos anos 60 parecia próxima. A civilização não só desapareceria como haveria uma mutação genética radical voltando na escadaria genética do homem ao macaco.
O filme de agora. “Planeta dos Macacos, A Origem” (Rise of thePlanet of the Apes/EUA,2011) tem roteiro de Rick Jaffa e Amanda Silver, ambos autores do “Olho por Olho” de John Schlensinger . A base é a explicação de como os símios evoluíram. Seria um tratamento efetuado no século XXI com objetivo de estimular os neurônios e com isso curarr doenças como o Mal de Alzheimer. Os macacos cobaias ficavam inteligentes e começavam uma revolta contra os humanos que os escravizavam.
Felizmente o roteiro de agora não viaja muito pelo futuro. Mas o final é de um dos macacos tratados em cima de uma arvore olhando, absorto, para a cidade grande. Oxalá tudo termine aí, mas pela bilheteria que o filme está auferindo é quase certo que surja um novo “episódio” e a série só vá acabar quando a macacada sobreviver à uma guerra mundial. Aliás, é possível que os “imaginosos” roteiristas de Hollywood, estimulados pelos produtores cada vez mais comerciantes, omita a guerra atômica e deixe que um desgaste natural pelo desprezo da espécie enterre “Miss Liberty”. Vale dizer que os macacos sepultam o ícone de sua escravidão. Pode ser. O interessante no filme de agora, dirigido por Ruppert Wyat, inglês revelado em “The Escapist”(2008), é que a narrativa é célere e explora o que interessa do tema, diminuindo a “obrigação” de um romance entre o cientista interpretado por James Franco(“172 Horas”) e Freida Pinto a indiana de “Quem quer ser um Milionário” e já com um filme de Woody Allen em seu currículo(“V. Vai conhecer o Homem de seus Sonhos”).
Dessas seqüências oportunistas que andam por aí esta é a melhor. Incrível dizer isso, mas é verdade. E o ator que faz o macaco Ceasar, , Andy Serkis, que já esteve no “King Kong” de Peter Jackson, é fantástico(não só por estar maquilado mas por fazer crer suas macaqueadas).
Vale espiar.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Cineastas Amadores

Eu filmei muito em 16mm, mas na minha época de amador nessa bitola o mais procurado era o filme em Super-8, herdeiro do 8 mm (largura do lendário “Círio, Outubro 1º” de Edwaldo Martins e JJ Paes Loureiro).
O Super-8 era barato e fácil de manobrar, exigindo menos fraquejo de fotógrafos. Aqui em Belém quem comandava a bitola era Alfredo Paes Barreto. Também Roberto Lobato da Costa deixou filmes do tipo: “Búfalos de Marajó”, “Belém Show” e “Pesquisa Urológica Entre Índios”(ele era médico urologista).
O filme “Super 8”(EUA,2011) de JJ Abrams com produção de Steve Spielberg focaliza esse tipo de cineasta amador rodando a sua ficção quando acontece um grande desastre de trem e eles inadvertidamente descobrem que na pequena cidade onde moram há um et gigante escondido, procurado pela milícia federal.
Roteiro (do diretor) típico dos anos em que decorre a ação. Todos os velhos chavões são ressuscitados e um “happy end” mostra que a família é o elo mais forte, elemento que Terrence Malick atendeu com muito carinho no seu “Árvore da Vida”.
Vi no filme o passado que vivi. Talvez nem tenha sido o de Abrams, que só tem 44 anos. Mas foi de Steven Spielberg com 20 na frente do colega. O artesanato é retrô, a ação esbanja fantasia e o et está mais para o de Spielberg, apesar do tamanho, enfrentando o menino-galã cara a cara para desistir de ameaçar a Terra e seguir de volta a seu mundo de origem.
Eu contei a história, mas acho que não fiz mal. O melhor da brincadeira é mesmo a capacidade de reabrir um baú de memórias. De novo apenas a presença da jovem Elle Fanning(hoje com 12 anos) irmã mais nova de Dakota FanningI( de “A Guerra dos Mundos” por Spielberg). Bonitinha sem jamais parecer ordinária. Vai longe.

domingo, 14 de agosto de 2011

Divagações Godardiana

“O sonho do Estado é estar sozinho;o do individuo é tonar-se dois”. Esta pérola e outras surgem soltas em “Filme Socialismo”(Film Socialisme/França,2010) anunciado como o último filme de Jean Luc Godard(80 anos).
Começa com uma viagem de cruzeiro. O transatlântico tipo Titanic passa por Odessa, Napoles, Barcelona, Cairo e mais alguns outros pontos turísticos ocidentais e orientais. Os passageiros são de diversas nacionalidades e posturas ideológicas. Há até mesmo um nostálgico do nazismo. As conversas erudita derramam frases de autores mil que os créditos iniciais catalogam de forma rápida, parece que feitos para não se ler. Depois dos planos do ou no navio, as câmeras voltam-se para um posto de gasolina onde o proprietário filosofa sobre a sua vida “miserável”. A filha contesta e lê Racine. Interessante como os personagens, independentes de classe e cultura, falam como doutos. Num filme de Godard todo mundo sabe de tudo.Mas se fala muito, age pouco. A ação maior se dá na terceira parte do filme que é uma colagem de sequencias de clássicos como “O Encouraçado Potemikm” de Eisenstein(não à toa mostrar a escadaria de Odessa).
No fim os passageiros desembarcam. Há uma frase critica sobre a Justiça. Segue-se a legenda: “Não comente”.
Godard despede-se (e oxalá se despeça mesmo) sem macular o seu estilo(ou falta de). Seus filmes lembram a postura de Hamlet quando a mãe pergunta o que ele está lendo. O Principe da Dinamarca responde: “palavras, palavras, palavras”. Shakespeare sabia onde colocar as frases que definissem posturas. Godard usa palavras em filme de cinema. E cinema é antes de tudo imagem em movimento. No “Fime Socialismo” há imagem mas não muito movimento. E a imagem não diz claramente que as ideologias conflitantes, como o socialismo, estão falidas. Divagar é a ordem do autor. Divaga-se sobre tudo e todos. Quem gosta desse modo de filmar fica em êxtase. Mas dificilmente define o que vê. Godard quer ser confuso para se entendido. Tenha-se entender como apreciar o jogo de menções aleatórias buscando um sentido. E quem encontra sentido não deve ser o espectador. Nem Godard, certamente.Para ele basta jogar os termos na tela sem qualquer ordem. É uma expiação do que lhe chega ao consciente (ou “in”).
Eu não vejo cinema desta forma. Simplesmente porque essa barafunda não me sensibiliza. E sem sentir não acompanho o que possa ser uma narrativa. Para mim, o novo Godard,como tantos outros filmes dele, é simplesmente um saco. Sem fundo.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Comédia de Matar(Quem Fez)

Nos anos 50 o estúdio Ealing de Michael Balcon, na Inglaterra, faziam comédias macabras como brincadeiras com crimes e criminosos a exemplo de “As 8 Vitimas”, onde o herói ia matando seus familiares até chegar ao posto e primeiro herdeiro. Alec Guiness foi um dos “crias” do Ealing. Dizia-se que aquilo era o “humor inglês”, tão difícil de ser percebido que dava margem à anedotas de poucas palavras como “ela fechou as pernas e quebrou os óculos dele”.
“Quero Matar Meu Chefe”(Horrible Boss/ EUA,2011) quer seguir a linha Ealing como antes tentou Dany De Vito em “Jogue a Mamãe do Trem”(Throw Mama from the Train/EUA,1987). Aborda 3 funcionários que se cansam de patrões despóticos. O pior deles é David Harken (Kevin Spacey). Os 3 são amigos de bar e concluem que a melhor forma de suportar a vida é mandar os caras para as profundas do inferno. Começam os planos dos assassinatos mas o fazem de forma errada quando contatam um “profissional”negro(Jamie Foxx um dos melhores do elenco) que lhes cobra 5 mil e no fim das contas revela que só otário paga adiantado a quem não conhece por trabalho que não pode reclamar. O mais bizarro da trama é uma dentista ninfômana (Jennifer Aston) que se delicia atacando os clientes anestesiados.
A linha do roteiro aposta na grosseria, na pornochanchada. Mas fraqueja no ritmo. E esvazia a graça do arranjo em que o vilão maior serve de criminoso em um dos casos.
O filme dirigido por Seth Gordon (de “Surpresas do Amor”) só não é abandonado pelo meio porque a opção de ver filme em sala vizinha é pior. Eu só olhei para o relógio uma vez no meio da sessão. Talvez porque a sala do cinema não estivesse tão fria. Um dia desses eu vi um filme bom numa temperatura glacial e quando se dizia que um personagem ia morrer adulto e ainda era visto criança eu pensava para dentro: quando ele morrer eu já morri...congelado.
Certo: é difícil o empregado que num momento da vida não quisesse mandar seu chefe para o diabo que o carregasse. Mas se a idéia para uma comédia caísse nas mãos de um Alexander Mackendrick , diretor de alguns títulos fantásticos do time inglês, a chance de fazer rir era um remédio para relaxar. Aqui, com Mr. Gordon, é puro mau gosto. Especialmente o quadro da dentista e seu funcionário (pateta). Constrangedor.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Raizes da Vida

Penso que Terrence Malick botou as suas memórias em “A Árvore da Vida”, sem dúvida o seu filme mais sincero. Focalizando uma família da classe média no Texas dos anos 1950 ele começou dimensionando esta família (ou todas as famílias). Foi buscar imagens sugestivas do começo do universo, seguindo a evolução das espécies como aquela concepção artística de Bruno Bozzeto em “Musica e Fantasia”(Allegro, non Troppo), adentrando pela vitória dos mais fortes como ensinou Darwin (a cena do animal que pisa na cabeça do outro), e chegando ao núcleo humano, colocado abaixo das arvores muito altas, querendo dizer que ali está a espécie mais completa, não necessariamente a maior em tamanho.
Dos mergulhos astronômicos, antropológicos e filosóficos ele centraliza pai, mãe e 3 filhos, dizendo logo, por imagem e som, que um deles morre. Não interessa qual. Como a dor aparece antes da explanação sobre como vivem, ou viviam, as cinco figuras. Ali se tem o pai autoritário, a mãe “dona de casa”, o filho mais velho que primeiro se insurge contra certas regras da educação, o problema do homem que não explorou devidamente o seu talento e amarga o desemprego, a perda da casa onde o trio de rapazes passou a infância, e mais em flashes do filho mais velho adulto, entre arrojos arquitetônicos, mencionando a desumanização de seus semelhantes.
Vê-se mais de uma vez pai e filhos plantando. O teor metafórico não é imposto. Vale o lado místico. Na hora de amargar a perda do emprego o pai reclama que “nunca deixou de pagar o dizimo”(como quem diz que sempre foi um homem de fé e agora Deus lhe prova). E ainda nesse patamar todos se acham numa apoteose em que os elementos se encontram numa praia (sempre o símbolo da “vida à margem” ou do porto dos primeiros seres a chegar das águas), abraçando-se e fitando o céu.
Raro o filme dedicado aos sentimentos de quem vê sem se preocupar com a racionalização do enredo. “The Tree of Life” é um poema dedicado aos sentimentos dos espectadores. Pena é que o cinema acostumou tantos a exigir uma posição de “contador de história” com a métrica que estimula um velho método de raciocínio. Essa cultura cinemágica pode levar ao enfado, à resistência ao que Malick expõe. Por isso mesmo as pessoas que se dispõe a aceitar um cinema realmente novo devem ir ver logo o filme. Não garanto o seu sucesso comercial.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Salada Russa

Eu era um adolescente quando li “Os Irmãos Karamazov” de Dostoievski. Mais tarde vi o filme de Richard Brooks. Na época fiquei entusiasmado com a fotografia de John Alton. Ele experimentava matizes diferentes do tecnicolor em determinadas seqüências. Há por exemplo, o vermelho vivo sobre o quarto do velho Karamazov, típico vilão como está no filme. Hoje percebo que foi só. Ou o que ficou no tempo. Maria Schell nunca esteve tão ruim como Gushenka. Ri tanto que ao tentar ficar séria gera um ato cômico. Ela está tão ruim que Yull Brynner passa como Dmitri. Mas o pior é o roteiro que fez do livro matéria das Seleções do Reader’s Digest. E com o invariável “happy end” a gosto de Hollywood.
O teor dramático da obra do autor de “Crime e Castigo” ficou melhor em outras versões. Mas a de Brooks para a Metro foi a mais festejada. E só merece isso pela composição de Lee j. Cobb como patriarca da problemática família. Ate o vilão maior,o Smerdjakov de Albert Salmi, parece caricato. Ele e o ótimo Richard Basehart que fez “Il Matto” no “La Strada” de Fellini, aqui no insosso Ivan.
Richard Brooks, que foi marido da atriz Jean Simmons, repetiu a cor funcional no melhor sucedido “Elmer Granty”(Entre Deus e o Pecado). Como “Os Irmãos Karamazov”este filme também se encontra nas locadoras, em DVD

domingo, 31 de julho de 2011

Pegadinha Uruguaia

Quem se aventurar a entrar na casa (“A Casa”/La Casa Muda)uruguaia que está por um desses milagres de exibição num cinema de Belém, vai sair com a sensação de que foi logrado. São 70 minutos de imagens captadas por uma câmera digital com um mínimo de corte (pode ter dois, quando o quadro fica escuro). Tudo bem, é um desafio. Mas para isso conta-se uma história de terror que se diz amparada num caso real, onde pai e filha vigiam um prédio abandonado e começam a surgir ruídos depois assassinatos (o pai da garota é a primeira vitima).
No fato acontecido nos anos 40 que o filme diz se amparar, na manhã posterior ao primeiro dia de trabalho do vigilante, acha-se dois corpos (a legenda diz três). Explica-se o cadáver do pai e de um dos donos do prédio que chega depois. Uma legenda diz que a moça desapareceu. E ela é acompanhada pela câmera o tempo todo, assumindo uma postura de valente embora reclame.
Os furos do roteiro começam com a coragem da garota. Se ela grita quando vê o pai esfaqueado e ouve ruídos, o natural seria fugir da casa. Mas não: ela vai ver que diabo está acontecendo no sobrado de onde tinha vindo o pai, moribundo.
O fotografo Pedro Luque dá um banho técnico com enquadramentos elegantes sem parar o plano-sequencia. Mas o roteiro do diretor Gustavo Hernandez, associado a Oscar Esteves e Gustavo Rojos, é extremamente inverossímil.
Depois dos créditos, para quem não se encheu de 70 minutos sombrios e trêmulos, há uma seqüência que traduz a pegadinha.
Gol da câmera digital de meu xará. Pênalti da equipe brasileira na Copa América na trama focalizada.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A Volta da Censura:Ria se Puder

Há uma piada sobre um genro consultado pelo agente funerário sobre como fazer o sepultamento de sua sogra: enterrada ou cremada. Respondeu o interessado:”-As duas coisas, a gente não pode facilitar..”
A resposta deste “ente querido” veio à causa da possível volta da censura aos filmes no Brasil. Antes de me deixar levar pela lembrança do tempo em que vivi a presença dessa bruxa,devo considerar que no governo Sarney (1985-1990) houve um caso de censura de filme. Pressionado pelas entidades religiosas (que nem viram a coisa), o presidente baixou uma medida provisória impedindo a exibição de “Je Vou Salue Marie”, o polêmico trabalho de Jean Luc Godard (por sinal indecifrável para os censores tradicionais).
Nos 70 eu mantinha um cineclube. Era obrigado a levar ao escritório da Policia Federal o certificado de censura, documento que chegava na primeira lata do filme (se 16mm dentro da maleta) , com um anexo datilografado especificando o lugar o dia e a hora da exibição. Era uma viagem semanal. Acabei conhecendo todos os censores. Muitos não entendiam nada do que eram obrigados a fazer. Um deles disse-me ter feito um curso de cinema em Brasília e no currículo esteve “todas as obras daquele cara que escreveu Shakespeare”(eu ainda remendei, “Hamlet”, e ele se entusiasmou: “Esse cara mesmo”).
Se alguma autoridade do grupo achava que os cortes dos filmes exigidos no documento não haviam sido feitos, pedia uma sessão especial e, se constatado o “agravante”, tratava de cancelar o lançamento na cidade. Dificilmente um censor local podia cortar película.
Era um movimento surrealista. Engraçado é que o cineclube tinha como um de seus espaços de exibições, um cinema de base militar (o “Guajará” na Base Naval). Para exibir ali não era preciso visto da censura. Mas o comandante da base pediu-me pessoalmente que “evitasse passar “O Encouraçado Potenkim”,filme que teria sido o incentivador de um levante de marinheiros, no Rio, ajudando a detonar o golpe de 1964.
Lembro do caso de um filme que foi barrado porque a cena do ator nu tinha sido mexida, ou melhor, ele, ator, se mexeu. Se estivesse nu como estatua tudo bem. Assim é que tinha ganhado liberação em Brasília.
A censura nos anos “de chumbo”,que foram mais cômicas do que as anteriores, do DIP em época do chamado “Estado Novo”(Era Vargas), murchou quando o filho de um dirigente do departamento federal especifico exibiu para amigos “O Império dos Sentidos”de Nagisa Oshima. A exibição caiu na mídia e o jeito foi deixar passar o filme japonês. Com ele morreu tudo o mais que abordaria sexo em tela grande. O que ainda demorou foi a trama política seguida da imoralidade consentida da violência . Para esses casos precisou a cremação.
Hoje, com o espasmo de uma neo-censura volto à piada do genro e vejo que algum liame, ou fio de cabelo, da megera, saiu incólume do forno e forneceu DNA mitocondrial para um clone . Tudo é possível quando se pensa em tornar os macacos aptos a pensar e falar. Aliás, a julgar pelas ameaças de volta de censura penso que já estamos no Planeta dos Macacos.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Capitão América em seriado de 1944

A estréia do filme “Capitão América” levou-me a rever o seriado de John English feito em 1944 e exibido por aqui creio que por volta e 1948 ou 49.
Um fato curioso no seriado: os bandidos morrem. O próprio Capitão América atira para matar. Obedecendo ao Código Hays, a censura dos estúdios na época, os ferimentos não jorravam sangue. Nem manchavam roupa. Tudo era “asséptico” dentro da hipocrisia reinante. E também não se via o escudo mágico do herói dos quadrinhos. Ele podia brigar com a fantasia característica como usando terno e chapéu(e jamais cai da cabeça)como o promotor Grant Gardner (Dick Purcell). E mais: a trama parecia mais substanciosa do que o normal das séries, agarrando os 15 episódios com renovação de situações.
O herói foi moldado durante a 2ª,Guerra como arma de propaganda. A vestimenta era uma bandeira dos EUA recortada. Por aqui esteve nas páginas dos quadrinhos mensais, as revistas de histórias completas. Fez sucesso. Não havia o antiamericanismo surgido com a guerra fria. Mas a verdade é que a garotada não dava bola para política. Vibrava com as cenas de lutas. E tinha em todos os capítulos, algumas bem engendradas.
O velho filme que a Classiline cearense lançou agora em DVD é oportuno para se comparar com o que a Marvel bolou para as telas grandes. Claro que tudo é sem compromisso intelectual. Mas a critica americana viu mais. E eu vou constatar. Logo eu que não pretendia ir ao cinema ver este novo blockbuster...

terça-feira, 19 de julho de 2011

O Adeus do Bruxo

J.K. Rowlings foi abençoada com uma inspiração milionária ao rascunhar num bar de escala na viagem que fez para sua terra, Londres, a linha média do que seria a aventura (ou as aventuras) de Harry Potter. Saindo de um relacionamento frustrado, a escritora em potencial foi buscar subsidio para desabafar a sua sede de fantasia no que ouviu e viu(em cinema) na infância, como fez quase todo mundo que leu ou assistiu aos desenhos animados partidos dos contos de Grimm,Perrault, Andersen e outros que pescaram em seus folclores os entes mágicos.
Na literatura Harry Potter consumiu muitas páginas e no cinema sete filmes de longa metragem com o último dividido em dois como forma de ser mais próximo do original escrito. Penso que o herói está entre os mais cultuados do povo ocidental (e não meto a mão no fogo ao negar o oriental) nesta virada de século. E posso dizer que JK teve sorte no cinema. Os filmes de seus livros não voaram para muito longe de seus enredos e auferiram renda bastante para satisfazer os executivos da Warner e garantir uma aposentadoria milionária à autora.
“Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte 2”,ou como está num pôster “HP-7”, é um fecho bonito. Realizado com a pompa que os efeitos digitais patrocinam, exalta os poderes (quase mágicos certamente) da direção, da edição, da fotografia, do som, enfim do que se usou para se projetar.
E a história? Muita filigrana para chegar ao duelo final entre Potter(o Bem) e Lord Voldemort (o Mal).Claro que o Bem vai vencer. Mas a platéia suspira. Há um pré-climax com o herói feito morto. Mas o espaço no limbo, quando vê seu mestre Dumbledore, serve como uma experiência de morte em vida. Volta para enfrentar o inimigo cara a cara (ou mágica a mágica). Lembrei aquele desenho da Disney “A Espada era a Lei”. Não há como suspeitar que o lorde malvado possa sair ganhando. Ele chega até a arregimentar sua patota. Mas se desintegra como bom vilão de science-fiction (hoje os contos de fadas adentraram pelo estilo de tramas siderais). Suspiram aliviados os fãs. Mas os suspiros são, também, de saudades. Não é pior porque se abre uma brecha para replay. Potter e amigos deixam os filhos na rodoviária seguindo para a escola dos pais. Se duvidarem pode surgir em livro e filme a prole de Potter. E desse jeito salva a palavra de Radcliffe, o ator, que não quer ficar na história como interprete de uma figura única (o que pensava Sean Connery quando deixou de ser James Bond).
A estrutura narrativa rende-se aos encantos da magia. Trouxas são os que estão de fora. Uma edição prodigiosa dá o ritmo certo à dança de efeitos que pulveriza e reconstrói cenário (décor). Eu imagino como se faria um filme desses antes dos computadores. O orçamento estouraria mesmo com miniaturas expostas. Tudo o que se vê é produto de um trabalho industrial esmerado. Os que buscam substancia talvez achem que a bruxaria é a síntese da luta pela vida no mundo que muda. Os detalhes dos contos de fadas passam para os tempos modernos e só se faz esticar as malvadezas das bruxas, ou madrastas, e as habilidades dos gnomos ou das fadas. A cultura ocidental, com a sua bagagem de mitos, está ali representada. O que embalou o berço de Rowlings. E afinal o que deu alento a muitos meninos e meninas da era da internet que sentem necessidade de sonhar num mundo onde o sentimental é tido como careta e a violência como cool.
Gostei do filme, mesmo nunca lendo uma linha de JK e nem me colocando em fila para ver todos os títulos da série. A feição dark evidencia o dramático do entrecho. E fica bem os últimos planos não serem de festejos pela vitória de Henry. No lugar da folia o diretor David Yates, o mesmo de outros exemplares da série, prefere um plano da trinca amiga, como fazendo pose, seguindo-se um fade - out para 9 anos depois quando todos 3 já são pais e família (e de futuros bruxos).
“Henry Potter” conseguiu empatar com “O Senhor dos Anéis”no plano de cinema fantástico feito pela grande industria. Se Peter Jackson quer voltar a Terra Média com “Hobbitt”, espero que J.K. Rowlings, David Yates e a Warner deixem Hogwart na saudade de seus fãs . Nada de seguir a prole dos heróis. Ou de fazer “prévias”como agora se anuncia “O Planeta dos Macacos” de antes da macacada ser inteligente (com o físico de simio, pois tem muito humano com cabeça de macaco).

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A Última Hora

Anthony Quinn(1915-2001)foi ator em 167 filmes e dirigiu um. De seus desempenhos guardo excelentes lembranças do Zampanô de “La Strada”, de”Zorba, o Grego”(a dança final), do discreto papa em “As Sandálias do Pescador”, do “boxeur” que acaba na luta livre fantasiado de índio(“Réquiem por um Lutador”) e do sofrido romeno de “A 25ª Hora”. Isto da sua atuação como ator principal. Como coadjuvante tem mais, como em “Lawrence da Arábia”. Mas a lembrança de “A 25ª Hora” eras tênue.Não via o filme desde a exibição através do Cine Clube APCC no Cine Guajará da Base Naval (e creio que também no Grêmio Português). Revi agora em DVD. É um filme subestimado de um romance escrito em 1967 por C. Virgil Gheorghiu (meu pai tinha este livro em casa mas eu não cheguei a ler). Com direção de Henri Verneiul (1920-2002), o mesmo de “O Carneiro de 5 Patas” e “Gangster de Casaca”, exibe uma produção requintada de Carlo Ponti recriando o cenário do drama vivido pelo romeno humilde Johann Moritz, perseguido como judeu quando vai trabalhar com judeus, depois tido como arquétipo da raça ariana e por isso transformado em soldado nazista, depois confinado em campo de concentração norte-americano, tudo isso dos primeiros aos dois últimos anos da 2ª.Guerra Mundial. Nessa jornada entre inimigos que ele desconhecia por quê brigavam acaba por se separar da mulher, sabe depois que ela foi violentada por um russo e gerou um filho deste, enfim, quando ganha a liberdade é um tipo raro a ser alvo de mídia.O filme encerra com o que podia ser um happy end mas logo expõe a dor do personagem quando um repórter vai fotografá-lo pedindo que sorria. A expressão de Quinn fecha o filme. Fica com a gente.
Pode ser que a narrativa esquematize os fatos e pise no acelerador diluindo um pouco o drama em foco. Mas nunca esvazia o herói. Quinn exibe muito bem o tipo bruto e ingênuo, o homem que prefere comer na cozinha quando chega à casa de amigos judeus e lhe convidam para o jantar.
Pode ser que Virna Lisi seja bonita demais para o papel que lhe deram. Mas Serge Reggiani como o escritor amigo de Moritz que se cansa de esperar pelo resultado de suas petições em prol da liberdade quando a guerra já faz parte do passado, está excelente.
Talvez seja o melhor de Verneuil no drama. Um belo filme pouco comentado pelos críticos desde sua estréia em 1967. O DVD que saiu agora no Brasil traz o enquadramento original (franscope). Merece lugar na videoteca do cinéfilo.
Antes que me esqueça: o titulo (25a hora) é dado pelo escritor de Reggiani. Seria a última hora da vida de uma pessoa. Dependendo do que se entenda por vida. A do tipo interpretado por Quinn acaba várias vezes.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Recordações

Há um filme raro de Martin Gabel com este nome. O original é “The Lost Moment”. Mas o que interessa agora não é a história do sujeito que vai procurar as cartas de um poeta guardadas por uma centenária reclusa. Lembro de brincadeiras de minha infância quando a gente seguia Jararaca e Ratinho aportuguesando os nomes dos artistas. Eles, os cômicos que assinavam ponto nos teatrinhos de Felix Rocque na Festa de Nazaré, gravaram um disco chamado “Amor Cinematográfico”. Lá falavam de Ramon Não Varro(Ramon Novarro), Lon Chinelo (Lon Chaney), A Barca Está no Uisque (Barnara Stanwyck), e brincavam com Jan Kiepura dizendo que “tem artista que só gosta de caninha; quando chegaram aqui estava passando aquela fita do Jeff e eles gritavam queremos ver Mutt(a dupla Mutt e Jeff do gibi). Respondiam de longe: Ver Mutt(vermute) nada, o Gim que é Pura (Jan Kiepura).
Meus colegas de colégio iam adiante: Já me Caguei (James Cagney), James Estevarde (James Stewart), Marta Arraia (Martha Ryer), Spencer Traça (Spencer Tracy), Rita Revolta(Rita Hayworth), Pola Negra(Pola Negri), ou iam para as piadas como a história do marido brutamontes que esperava a mulher se pintar para sair. Em dado momento ela se vira para ele e pergunta: ”-Tu não me achas parecida com a Greta Garbo ?” E ele, na bucha: “-Da Greta Garbo só tu só tens a greta.”
Ainda lembro do Roberto Cuminho (Robert Cummings) da Susana Raivada (Susan Hayworth), e ainda seguindo Jararaca e Ratinho quando um falava da Carmen Miranda o outro respondia: “-Ela estava fazendo fita pra vir mas veio. Menino, dizem que o Bando da Lua só namorava as estrelas. A mãe dela não queria que ela viesse mas ela começou: “-Mamãe eu quero, mamãe eu quero”(a marcha,por sinal, era de autoria do Jararaca)”.
Em seguida: “Um dia desses eu sonhei com a Carmen. Se ela chegou daqui a pouco a Aurora (Aurora Miranda irmã da atriz) vai raiar por aí...”
Claro que maior parte dos nomes eram de norte-americanos ou ingleses. Dos europeus eu lembro o Vittorio te Pica (Vittorio De Sica), o Ama deu no Sarro(Amedeo Nazzari),da Michelle Morgana (Michelle Morgan), do João Gabola (Jean Gabin).
Nesse tempo a gente não perdia seriados de aventuras. Muitos heróis vinham do gibi nosso de cada dia. Agora muitos desses caras estão chegando ao cinema em produções caras. O Capitão America,por exemplo. Hoje é da Marvel. No tempo de guerra era fichinha que saía em séries da Republic. Por sinal que agorinha saiu no mercado brasileiro o DVD desta série. Coisa da cearense Classic Line. Comprei meu exemplar. Tenho coleção desses seriados. Homenagem ao meu foi.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Filmes Inpéditos nas Telas Grandes

Eu já tive um tempo de exibidor. Programei um cineclube atuante em várias frentes com cópias película de 16mm e 35mm e inaugurei o Cine Libero Luxardo (Centur).Por isso, e até porque fui sócio fundador dos cinemas 1 e 2 do amigo Alexandrino Moreira (além de ser marido da Luzia que chefiou a Embrafilme na região norte na virada dos 70 para 80), aprendi manhas da distribuição e exibição de filmes em salas comerciais. Bem verdade os tempos mudaram e hoje uma central de distribuição sabe da renda de uma sala em cima do lance. Antes a gente fazia relatórios (borderôs) e mandava para os donos dos filmes. Mas a mecânica de cópias prossegue. Com um adendo: hoje se tiram mais cópias. E ainda tem o recurso da projeção digital que se resume no envio das imagens pela internet com gravação no computador acoplado no projetor.
Os comerciantes do ramo sabem o que o público mais gosta. Ou paga para ver.Por isso a dieta de exibição é sempre de produções megalômanas de Hollywood onde o espetacular é moldado em informática. Raramente fazem experiências. O caso do filme de Woody Allen(“Meia Noite em Paris”) onde se testou a platéia intelectualizada e ela compareceu. Mas grosso modo os filmes mais densos são endereçados primordialmente ao DVD. E é por isso que o cinema caseiro, hoje em dia, é farto. O meu “Bandeirante 2”(o 1 era no porão de casa, com filmes em 16mm), funciona diariamente com títulos inéditos e rigorosamente bons.
Esta semana eu vi “A Última Estação”, filme inglês de Michael Hoffman que reporta,no pé de um livro, os últimos dias de Leon Tolstoy. Quem faz o escritor é Christopher Plummer.Nem de longe lembra o Barão Von Trapp de “A Noviça Rebelde”. Lembra mesmo a imagem que o autor de “Guerra e Paz” deixou em fotografias. A mulher dele, Sofia, é interpretada por Helen Mirren. Os dois repetiam a canção de Lupicinio Rodrigues:”...vivemos brigando....mas é melhor se brigar juntos do que chorar separados”. Quando o escritor está morrendo, o “muy amigo” Chercok (Paukl Giamatti) não deixa que o casal se veja. Cruel. Um filme que emociona.
Também emociona “Flores do Amanhã” de Zhang Yang. Aqui, através de uma família de classe operária vê-se as mudanças que se processam na China depois de Mao. O foco maior é um pai despótico. Mas amante incondicional da mulher e do único filho, um rebelde sem causa (ou por causa dos pais). No segundo plano surgem as avenidas, os prédios modernos, e o poder aquisitivo maior dos personagens. Menos do velho pai, que cisma em viver na mesma casa,prestes a ser destruída. Ele plantava girassóis e no final deixa a marca de sua presença através dessas flores. Nada de lacrimogêneo, mas tocante. Cinema não deve se envergonhar de ser sentimental nem a gente de corresponder a isso. Gostei muito.
Em compensação vi “Esposa de Mentirinha” e “Tambores Distantes”, novo e velho exemplares de um cinema de consumo. Ruim para cada tempo e perenes em sua ruindade.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Imagens

Cinema é imagem em movimento. Embora muitos filmes se apóiem em falas, as imagens bem elaboradas cativam o espectador. E eu revi agora dois trabalhos (os primeiros longas) do diretor Terrence Malick, onde as imagens ganham especial relevo. Tanto em “Dias de Paraiso”(Days of Heaven), estreado nos cinemas locais com o nome de “Cinzas do Paraíso”, como “Terra de Ninguém”(Badlands), a fotografia eleva o drama ao limite do poético. E isto é um desafio porque os dois filmes são trágicos. No campo de trigo onde se passa a maior parte de “Dias de Paraiso” o fotografo Nestor Almendros consegue planos que dizem do que sente a heroína entre um amante pobre como ela e a oportunidade de ser rica com um apaixonado dono de terras. Um enquadramento dos personagens contra um céu de nuvens bem desenhadas e com alternância de cores é mais do que a busca de um postal. É o belo sobre o drama, lembrando o “belo horrível” que se chama às fotogenias dantescas como o cogumelo atômico. Isto se repete em “Terra de Ninguém”, aqui ainda mais coerente com o teor dramático. O casal de amantes (a seguir o filme anterior) é sempre perseguido. E ele foge matando. A cada assassinato um plano aberto do cenário de fuga. Um interior belo sustentando o horrível, ou o homem maculando a beleza natural.
Mallick usou 3 fotógrafos em “Terra de Ninguém”: o japonês Tak Fujimoto e os americanos Steven Larver e Brian Probyn. A composição é sempre estudada, com o enquadramento procurando colocar os tipos na ação como eles representam, ou seja, como são pequenos numa terra paradisíaca e como se ocupam do espaço em pontas de cena, o bastante para que sejam notados.
Quando eu filmava com Fernando Melo a gente buscava os planos como se eles fossem unicamente o interesse do filme, Para ele, fotografo de profissão, era isso. Eu cutucava por mais e tentava fazer luminosidade com funcionalidade dramática. Era a teimosia do garoto doido por cinema. Mas eu já sabia que cinema era imagem. Sem

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Cada Doido com a sua Mania

Eu tenho carro porque preciso para viagens de grande distancia. Mesmo assim é uma peça de museu: um fusca 1994. Gosto dele como um amigo que me leva ao Mosqueiro, minha Inisfree ou Passárgada ou Shangri-la desde que observado nas épocas vazias (meu itinerário é de 4ª. a sábado em mês de fora das estações de veraneio). Mas há quem adore carro. Meu irmão era um. Tinha modelos do ano. Vivia debaixo desses carros ajeitando peças (a seu modo). Minhas filhas & genros andam em carros novos. Eu faço exercício na direção mecânica do Volks encomendado por Hitler (a única coisa boa que ele fez). Por esta distância que cultuo de carros achei um saco ver “Carros”(Cars) de John Lassetter em 2006. Saí no meio de uma sessão no finado Cine Nazaré. Teimoso, e acompanhando a mulher que leva a sério a coluna diária de critica de filmes que mantêm em um jornal, fui ver “Carros 2”. Pensei que é uma forma coadjuvante da tortura que passo tratando dos dentes. E pensei bem.
O filme reporta viagens dos carrinhos falantes a competições internacionais defendendo as cores norte-americanas. Como tal, devem enfrentar vilões terroristas. Se é engraçado, esses ganham cores e sotaques distintos. Mas no fim das contas o filme, de quase duas horas de duração, é a mesma cantilena de automobilismo acelerado.
Humanizar carros pode até valer para o meu fusca. Mas ele não fala, não me diz que as ruas estão esburacadas, que eu não o lubrifico desde o século passado, ou pede desculpas para as vezes que me deixou na estrada seja por sujo no carburador seja por quebra de cabo de acelerador.
O filme da PIXAR é só para a garotada (de 6 a 60 anos) que choca mexer em automóveis. Há e tudo neste mundo, como quem se vidra em avião (meus sobrinhos(), em informática (meu neto mais velho), em feminismo (minha mulher). Eu só tenho um vicio: cinema. Vejo a média de 2 filmes por dia em DVD. E vou às estréias. Às vezes pego outro tipo de carro, como algumas comédias ditas românticas ou blockbusters que a mim parecem apenas busters. No caso de “Carros 2” eu tentei homenagear com a minha presença a produtora de “Up” e “Wall E”, desenhos que me sensibilizaram. Enfim, há cada um tem direito à uma mancada, E Lasseter é o dono da bola. Ou do gol contra.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Cinema Privado

Vejo em casa a média de 2 filmes por dia. Em DVD naturalmente. Alguns ajudam no sono. Prefiro ver as coisas chatas de tarde. Nesse período aturo até um Godard. Por sinal que vi o documentário “Godar e Truffaut: a Nouvelle Vague”. Interessante mas omisso. Focaliza muito Jean Pierre Léaud, ator em filmes dos dois mas não mostra nenhuma entrevista dele. E não explica bem o “estilo” adotado por Godard, passando pelo seu tropismo vermelho quando propagou as idéias de Mao Tse Tung.
Truffaut era doido por cinema e fazia filmes que gostaria de ver. É do time de sonhar filmando, aquilo que em “Sonhos de um Sedutor”(Play It Again Sam) Deanne Keaton critica Woody Allen dizendo que ele é “um espectador da vida”(pois prefere ver tudo numa tela ao invés de visitar lugares). Eu sou desse grupo. Por isso gosto de ver o que Truffuat fez (mesmo assim há alguns títulos chatos). Godard nunca me atraiu. Ele diz, no documentário, que não gostou quando seu primeiro filme fez sucesso popular e passou a trabalhar para mudar esse conceito. Fazia e faz o que não se gosta. Cinema para ele é motivo de matar a cabeça. Nunca um prazer. E nisso vai pelo ralo a definição de que arte é o belo.
Um filme ultra modesto, “O Sal da Terra”(Salto of the Earth/EUA,1954) só agora chega ao Brasil (e em DVD). Trata de uma greve de mineiros no Novo México. Esses operários são todos de origem latina. Há preconceito para dar e vender. Humilhados, os mexicanos, em maioria, resolvem grevar. Mas os patrões da mina apelam para a violência. Eles são presos e proibidos de continuar a greve. As mulheres tomam a vez. Desafiando a cultura machista de então. Algumas levam os filhos para um desfilme adiante da mina onde os maridos trabalham com risco de vida. A coisa piora quando os anglos resolvem tomar as casas dos mineiros, todas em propriedade da firma. É a hora de um mutirão de solidariedade.
O filme andou vetado nos EUA por se achar “comunista”. Imagino ele projetado na época do macarthismo. Mas acima de tudo é um drama humano bem focado. Poucos atores profissionais estão no elenco e dentre eles a extraodinária Rosaura Revueltas.Ela me lembrou a Falconetti do “Joana D’Arc” de Dreyer. Um de seus closes faz lagrima em pedra. Por sinal que o filme comove. E ensina que cinema para coração e mente não precisa ser piegas nem cerebral. O diretor chama-se Herbert J. Biberman (1900-1971).
E vi “Burlesque”, que perdi (propositadamente) no cinema comercial. Ganhei ficando em casa. Da primeira seqüência se advinha as outras. Cher é a dona do cabaré onde a mocinha (Christina Aquilera) vai atuar. A estrutura do roteiro(o próprio diretor Steve Antin) lembra “Cabaret” de Bob Fosse. Mas a lembrança piora a cotação. O filme dista léguas dos musicais americanos dos anos 30/40/50/60 e a linha dramática é tão frágil que nem dá para....rir.
Vi também “Becket, o Favorito do Rei”(Becket) de Peter Glenville. Teatro filmado que dá asas a Peter O’Toole como Henry II. O Becket de Richard Burton é passível de critica. O ator devia ter tomado umas e outras no set. Só convence quando tem de ser ríspido encarnado no arcebispo de Canterbury. Já O’Toole está à vontade. É um ator de recursos imensos que esteve varias vezes no pareo do Oscar e só recebeu um honorário. O filme é uma superprodução que troca a ação pela densidade dramática da peça original (de Lucienne Hill). A autora ganhou um Tony(premio de TV)em 1961.”Becket” foi a sua vez nos palcos.