sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Blade Runner 2049

                Uma volta ao universo de “Blade Runner”, roteiro de Hampton Fancher inspirado numa historia de Philip K. Dick,autor que levou a muitas “sci-fi”admiráveis como “Minority Report”, não me parecia convidativo. Tanto que relutei a ver o filme sabendo que levava na tela 3D mais de 2 horas e meia e as sessões de copias legendadas, em Belém, ficaram marginalizadas a horários noturnos e salas congeladas (o ar condicionado de um pequeno espaço usa 2 compressores e só é suportável com boa frequência). Mas ouvi e li elogios que me impulsionaram. E agradeço a eles. O filme está longe de ser ruim. Mesmo seria difícil este qualificativo com a direção de Denis Villeneuve o responsável por “A Chegada” meu melhor filme do ano passado.
                A base da nova historia passada 30 anos depois da primeira e trazendo nas falas o fato de que houve um “apagão” que mudou muito o cenário, apoia-se em alguns pilares: primeiro: os replicantes (robôs humanizados) ganharam nova geração e caçam os que restaram do passado (diz-se 2019, data marcada no primeiro filme). Os novos querem se unir e lutar por uma independência dos humanos. Segundo, a base da trama é um replicante guinado a blade runner ou seja “caçador de replicante”, que se entusiasma ao saber que uma das mulheres-maquinas pariu uma criança (humana), filha de um caçador(blade). Seria ele  a criança? Depois ainda tem uma demonstração de classes sociais mesmo de maquinas. E há vilãs.
                Do primeiro filme resta um gancho interessante que leva a imagens de um “passado” onde cabem Elvis Presley, Frank Sinatra e Marilyn Monroe. Imagens em uma casa de estilo antigo, muito mais antigo do que a data referida no roteiro anterior. Neste conjunto encontra-se o blade runner da primeira historia, vivido pelo mesmo Harrison Ford, possivelmente com pouca maquilagem a mostrar o ator como ficou ao passar do tempo.
                O novo caçador de robôs chama-se Joe, mas é conhecido na profissão como K, a lembrar o personagem de Kafka em “O Processo”. Interpreta-o Ryan Gosling, impulsionado ao estrelato depois de “La la Land”. Quando encontra o velho Rick (Ford) o filme entra numa reta perigosa onde os dois viram vitimas de um ataque (terrorista, certo) e quem pensa em um parentesco entre eles torce para que Joe salve Rick até de um naufrágio produzido pela vilã-mor (com direito a brigas de mocinho e bandido como em uma produção  comercial).
                Mas a base dessa trama é o fato de se ter descoberto em exame de ossos que uma replicante engravidou e teve uma criança humana. Dizem: quem nasce tem alma (obviamente quem não nasce é maquina). Soma-se a questão do amor, a produção de  um ser vivo sem a parafernália tecnológica. E no caso quem foi o bebê que sumiu (e nem se pode contar detalhe disso, pois é a chave da historia).
                O filme tem felizmente  o dedo de Denis. Um diretor competente usa uma direção de arte capaz e uma fotografia belíssima que não se furta à cidade fantasmagórica de antes, mas abre espaço até para uma espécie de jaula onde floresce um belo jardim (a metáfora de que a natureza deve superar a tecnologia, mesmo com sacrifício, porejando poesia).
                Pena que no final renda-se ao espetáculo bem de acordo com as aventuras cinematográficas tradicionais. E deixe que se veja uma novai investida num futuro que prevê maravilhas . Aliás, datar futuro de magica tecnológica é piada. O que se viu como em 2019 é daqui a dois anos e não há perspectiva de colônias espaciais e robôs com cara de gente. Para 2049 há mais perspectivas que agora se vê como extremamente fantasiosas. Espera-se é que haja sorte como nas historias de Flash Gordon onde, nos anos 1930 se via foguetes, tv gigante, e mais “invenções” que chegariam daí a 20 ou mais anos.
                Bem, Denis Villeneuve não deve assinar o próximo Blade Runner. Ou será seduzido pela bilheteria que agora festejou seu trabalho no porto de origem(EUA), mas não tem andado às mil maravilhas em lugares como o nosso. Pelo menos o filme nas nossas salas de shopping só está em sessões noturnas e poucas com o som original (terrível dublar um filme desses).



sábado, 7 de outubro de 2017

Sci-fi datada

                Datar historias de ficção cientifica é um perigo. No cinema eu lembro que o “Daqui a Cem Anos”(Things to come) de William Cameron Menzies com roteiro de H. G. Wells, um avião do século XXI ainda não usava jatos e motores de explosão ficam abaixo de tombadilhos onde os passageiros “tomavam banho de sol” como se estivessem num transatlântico. Neste filme, a viagem a lua seria só em 2036.  No “Blade Runner” de 1982 a ação se passa em 2019 (daqui a pouco mais de um ano) e já se fala em colônias espaciais e robôs de forma humana numa Los Angeles que parece Hong Kong. Não há telefone celular embora impressões vocais abram portas. Agora uma nova versão joga a historia para 2049 e a tecnologia ajuda a servir de trampolim. Ainda não vi o novo filme mas de entrada me parece oportunismo comercial. Ridely Scott entregou a direção a Dennis Villaneuve saído do excelete “Chegada”. Por ele merece uma ida ao cinema. Mas é bom lembrar “Barton Fink” e ver que filme comercial bisa, acima de tudo, faturamento.

                É bom frizar que o “2001”de Kubrick não queria dizer o ano. Era o século iniciante. Nesses filmes espera-se milagres tecnológicos e tragédias acompanhantes. Os profetas de cinema não são nada animadores.

domingo, 1 de outubro de 2017

O Estranho que nós Amamos

“The Beguiled” romance de Thomas Cullinan foi ao cinema em 197l por Don Siegel com Clint Eastwood. Foi um filme estranho na carreira de Eastwood então afeito a western. Ele fazia o soldado ianque durante a Guerra da Secessão que surgia ferido nas vizinhanças de uma escola de moças e pelas jovens e a diretora do lugar, era abrigado, tratado, e depois sacrificado quando sofria mutilação (perde uma perna) por conta do tratamento de emergência à infecção que pegou. O tema serve agora ao filme de Sofia Coppola que recebeu o mesmo nome tanto no original como em português (“O Estranho que nós Amamos”). Por ele Sofia ganhou premio em Cannes.E muitos elogios até apressados de quem certamente não lembra ou não viu o de Don Siegel.
            A meu ver a nova versão é comportada, sintética e com produção eficaz assim como interpretações. Mas ainda voto na anterior. Lembro bem da mascara de Eastwood e de como ea recebido por Geraldine Page. Elzabeth Hartman, Jo Ann Harris e outras figurantes. O tema não me parece ter mudado e nem evoca o machismo que se diz agora quando se compara com a versão atual que seria “feminista”( como ?!).
            Nicole Kidman, Kristen Dunsten e a irmã de Dakora Fanning, Elle, não acrescentam ao que mostraram suas antecessoras. E a direção comportada não exibe a virulência que a obra exige e que o diretor que deu a mão a Eastwood nos EUA(depois de ganhar fama na Itália nos spaghetti de gente como Sergio Leone) não avança numa possível visão introspectiva dimensionando melhor o temperamento das jovens que freavam seus instintos num retiro forçado (corria fora do prédio a guerra civil).

            Mas não há de se jogar fora. O novo “Estranho..” de Colin Farrell tem seu valor, especialmente na programação liliputiana da cidade nos dias atuais. Precisa é fazer comparação com o que foi feito na área. 

sábado, 30 de setembro de 2017

Adorável Vagabundo

A historia de Richard Connel (1893-1949) “Encontre John Doe”(Meet John Doe)serviu ao filme que Frank Capra realizou imediatamente antes de ir para a Europa filmar documentários da série “Why We Fight”trabalho que justificava a presença norte-americana na 2ª. Guerra Mundial. Curioso, de entrada, é que Capra era italiano (Francesco Capra) e abominava o fascismo de Mussolini, lutando com suas armas (o cinema) contra a prepotência que se instalou especialmente na Alemanha e Itália. Quando realizou “Adorável Vagabundo”(Meey John Doe)em 1941 havia contabilizado o sucesso de seus trabalhos nitidamente socialistas: “O Galante Mr Deeds”(Mr Deeds Goes to Town/1936) e “A Mulher Faz o Homem”(Mr Smith Goes to Washington/’1939)este ultimo abominado pelo pai dos Kennedy, lutando para que o filme tivesse exportação proibida e com isso inviabilizado no páreo do Oscar(mas acabou ganhando o premio de roteiro). Seria uma resposta à direita poderosa na América de então a ponto de precisar acontecer o bombardeio japonês em Pearl Harbor para que o país entrasse no conflito contra o chamado Eixo (e no caso não só Alemanha e Itália mas também o Japão).
                John Doe é numa tradução brasileira “Zé Povinho”. Nome do homem comum.Na historia, uma jornalista (Barbara Stanwick) estava em compasso de desemprego e achou de se despedir colocando na sua coluna de jornal uma falsa carta de um homem do povo que dizia estar propenso ao suicídio como forma de protestar contra a politica corrupta de sua terra natal. Como a carta faz sucesso a jornalista busca um John Doe real e encontra num jogador de basebol aposentado (Gary Cooper). O homem encarna de tal forma o personagem que passa a agir como John Doe, culminando com um comício de protesto a ser sabotado pelo prefeito local. A continuação da luta, já que se via abortada pelas forças governistas, é levar adiante a ideia de suicídio. Seria na noite de Natal, atirando-se do mais alto edifício da cidade. Nesse ponto o filme parara. Capra contou em suas memorias que passou notes acordado pensando em como terminar a façanha do combativo Doe. Ganhou a ideia  de que o homem do povo seria salvo pela mulher que “o criou” e na hora em que ia mesmo se atirar para a morte. Nessa sequencia há um fecho de close em que um tipo afirma “Este é o povo, ninguém pode com ele”.
                O filme não repetiu o sucesso comercial dos anteriores mas virou clássico. Capra sempre focalizou o cidadão comum, o homem idealista que a sociedade oprime; Mesmo depois da guerra voltou ao tema com “A Felicidade Não se Compra”(It’a a Wonderful Life/1946).
                O idealismo do cineasta foi mal interpretado por alguns críticos que o chamaram de “Polyanna”(a garota otimista da escritora Eleanor Porter duas vezes filmada). Mas ele nunca renegou seu ideal. Fez um cinema direto, sempre bem construído, e muito popular. No seu livro “The Name Above the Title” esceveu que sempre se incomodou com o publico modesto, com o cidadão comum. Seus atores preferidos, Cooper e principalmente James Stewart(herói da guerra) foram bem encaixados nos tipos.
                Ver hoje no Brasil “Adorável Vagabundo” é motivo de reflexão. Falta por aqui e agora uma voz como a de John Doe, ou ouvidos que ouçam a mensagem social. Vendo como a politica se move à custa de diversas formas de interesse acha-se analogia com o herói de Capra, um desconhecido que permanece oculto ou rouco .
                Um filme sempre atual desde que intrinsicamente democrata. Uma brilhante continuação do senador caipira de “Mr Smith...”(outro nome comum) que descobre falcatruas no senado) ou Mr. Deeds, um felizardo em loteria que resolve repartir seu ganho com os menos favorecidos.
                Capra era um autor de cinema, mesmo que só ajudasse em roteiro de seus filmes no caso de “A Felicidade...”. Sabia mostrar a bandeira de luta por um ideal.E sem apelar para ditaduras (ao contrario, sempre contra elas).  Foi ele quem elevou a Columbia a um grande estúdio e ganhou aplausos, no fim das contas, do presidente Franklin Roosevelt que fazia questão de se filiar entre os seus fãs.

                Este mês dois filmes de Capra estarão à disposição dos espectadores locais no Cine Clube Alexandrino Moreira. O outro filme. “Do Mundo Nada se Leva”(You Can’t Take it With You/1938) será comentado outro dia. É um raro exemplo de projeção aplaudida em cineclube paraense. E o Oscar de seu ano.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Ainda mãe

Em 1941 Albert Camus escreveu sobre Sisifo, o personagem da mitologia grega que carregava uma pedra para cima de um morro e sempre ao chegar perto do objetivo a pedra rolava e ele era obrigado a repetir a façanha. Desse modo o tipo vivido por Javier Barden em “Mãe”,o filme de Darrel Aronovsky, é um poeta que se inspira na mulher-musa(Jennifer Lawrence, sérias candidata ao próximo Oscar), aliada à sua casa, que de inicio se vê destruída(e a mulher queimada)para ressurgir tudo quando precisa se re-inspirar.
                O filme foi construído de forma que as imagens reflitam a construção da poesia desde a quebra da inspiração no inicio, a retomada dessa inspiração no quadro de um lar padrão, e a gradativa derrocada das imagens com a inserção de diversas personagens, até que tudo se desmorone (há até um plano dele abrindo o corpo dela para lhe tirar o coração –afinal a imagem de um diamante que se vê no inicio da trama). Como Sisifo, ele volta a se inspirar –e o filme parece ter sido um sonho da “Mãe” que acorda, como antes, procurando pelo marido na casa aparentemente incólume.
                Construir e reconstruir é a formula do autor, no caso do poeta, que sempre tenta levar sua obra ao píncaro (daí a exposição da vaidade em se deixar levar por uma multidão de jornalistas- até matadores de seu filho). Mulher-mãe é sempre uma figura subordinada ao que Ele(e o poeta se quer se chamar assim) programa/faz.

                Um filme denso e muito criativo, inspirando-se em vertentes literárias para fazer ver a construção penosa de uma obra de arte.

mãe

                “mãe”(com letra minúscula) podia se chamar “Casa”, ou “A Musa do Poeta”. No roteiro do diretor Darren Aronovsky é uma alegoria em torno de um poeta que se inspira na esposa e ela se dedica à casa onde moram, num local isolado, cuidando de manter o espaço gasto pelo tempo(ela e casa se confundem).
                O filme usa da opção de Carl Theodor Dryer(“A Paixão de Joana D’Arc”) em focalizar personagens em close. Não é apenas a atração pela atriz Jennifer Lawrence com quem o diretor passou a manter um romance. É um modo de enfatizar “quem” inspira o poeta e quem sofre por isso. O poeta, no caso, é interpretado por Javier Bardem. Não interessa os nomes. A esposa é “ela”, ou a mãe de seu filho, e ele, como chega a dizer “eu sou Eu”.
                De inicio há planos que parecem fortuitos como a imagem de um cristal. Também lá pelo meio, a casa queimada e duas mãos se contatando. Na alegoria proposta ela e casa representam a inspiração do poeta. O primeiro momento dramático, ou a quebra da exibição de um casal em perfeito entrosamento romântico, a chegada de um medico (Ed Harris) que se sabe doente e se mostra como desconhecido do poeta e mesmo assim convidado a ficar na casa dele. Logo adentra a mulher deste medico (Michelle Pfeiffer), e ainda os dois filhos homens do casal que logo se digladiam e um deles morre. Há uma pequena pausa na agonia da já fadada a ser mãe (a dona da casa) e quando está prestes a parir chegam jornalistas que aplaudem a nova obra poética do “pai”, fruto da inspiração dramática que envolveu a esposa. O filme alcança um momento de caos, com a filmagem manual varrendo o aposento que se vai destruindo, e uma criança nasce sem que isso represente a independência materna. Logo o recém-nascido é levado pelo pai para a multidão que o segura como o ícone da obra de um grande autor. E tudo se destrói: a casa e a mulher-mãe, que se incendeia e o marido chega a tirar-lhe o coração como adentrar na origem de sua obra poética.
                Mas há um plano final em que tudo parece se repetir ou seja é necessária uma nova inspiração para que persista o poeta.
                O filme nunca se rende ao realismo. Penso na frustração da plateia acostumada na linearidade do cinema industrial. A inspiração poética chega, sai e volta na medida em que se torna necessária para que o poeta continue poeta(“Sou o que sou”).
                Desta vez Aronhovsky ousou um tipo de cinema nada comercial posto que muito autoral. E gastou bastante, talvez porque o estúdio(Paramount) gostou de seu “Noe”.
                Claustrofóbico (a ação se passa quase toda dentro da casa), com a câmera sempre na mão do operador, usando ao máximo a capacidade interpretativa dos interpretes, especialmente de Jennifer, o filme incomoda da melhor maneira possível. Ganha duas horas em ritmo vertiginoso. Um  suspense, um terror, sem qualquer liame de gênero afeito a Hollywood. É a ousadia surreal de um artista da letra que chega a pegar no coração de sua musa para satisfazer a vaidade de quem espera sempre que a sua obra ganhe repercussão universal (no caso a vaidade ganha o aspecto metafórico de uma multidão aplaudindo um poema, coisa impensável neste mundo tão avesso à poesia).

                Um filme diferente. Na minha juventude seria rotulado de “fita de arte”. Terror do publico. Paraiso dos críticos. Creio que ainda hoje, a julgar pela receptividade negativa no mercado americano, é assim. 

terça-feira, 12 de setembro de 2017

David Lynch

Quem conhece David Lynch de “O Homem Elefante”, “Veludo Azul” e outros filmes que  alcançaram nossas salas comerciais, não sabe, por exemplo, que ele é pintor. Visceralmente pintor. O documentário“David Linch a Vida de um Artista”(David Lynch the Art Live) que está em exibição no Libero Luxardo, é uma rara oportunidade do citado artista se desdobrar, confessar quem foi e quem é. Não chega ao cineasta. Termina quando ele ganha uma bolsa de estudos em acaba aluno de cinema em Hollywood.
O próprio Lynch narra o documentário dirigido por Jon Nguyen e Rick Barnes. É uma confissão de um homem que passa por varias cidades, varias classes sociais, muitas escolas e só muito tempo depois cede à teimosia ditada por um talento e ingressa no cinema.
O filme não é nada agradável ao grande publico. E o final decepciona quem pensa em Lynch como diretor de filmes e series de TV. Por sinal que é o tipo de fecho de “Joaquim” o filme luso-brasileiro sobre Tiradentes. Ali a ultima imagem é de quem vai lutar contra a coroa portuguesa. Em “Lynch...” é quem fez um curta-metragem experimental que aprecia. O tipo do cinema hermético que fala a quem faz. Como a própria pintura do cineasta, não qualificada nas vertentes dessa arte.

Cinema de câmera como já se disse. Nem tanto de tela.

sábado, 9 de setembro de 2017

It-A Coisa

                Escrito por Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman, com  direção de  “It”(A Coisa) deriva de uma historia de Stephen King  que já havia chegado ao cinema ; Na superfície pode ser visto como um filme de terror em que crianças moradoras em uma pequena cidade chamada Derry desaparecem numa casa devidamente assombrada onde se esconde um palhaço conhecido como Pennywise  que as mata de medo.Contra esse quadro um grupo de jovens na faixa de 13 ou 14 anos resolve enfrentar o palhaço medonho, compreendendo que “a união faz a força”.
         Felizmente o filme deixa mais subsídios ao espectador exigente. Pode ser visto como uma alegoria em que o palhaço é o que sintetiza um temor que os mais velhos impõem nas crianças para melhor dominá-las. Os contos de fadas cabem nisso. No caso de “It” há detalhes que evidenciam a metáfora como um pai que além de despótico se mostra até passível de seduzir a filha, uma senhora mãe que pastoreia o seu menino e outros personagens que inclusive são alvos de bullying. Lendo assim, o palhaço é o próprio medo. E a garotada vai percebendo, quando unida, que o único meio de escapar desse monstro é se unir na luta contra ele.
         Há mais: um menino persegue seu barquinho de papel feito pelo irmão mais velho  nas aguas servidas que correm pelas valas das ruas. Quando o barquinho cai no esgoto ele tenta tirá-lo com a mão mesmo sabendo do perigo que isso enquadra- mas pior medo é a repreensão fraterna. Na busca pelo esgoto depara com o palhaço. E cai no buraco cheio de agua poluída.
         O amago do terror está não só nas caras feias mas no asco provocado pela podridão ambiente. Diga-se o medo é imundo.
         Vendo assim –e há motivo para se ver assim, “A Coisa” é o melhor de King no cinema desde “O Iluminado” de Kubrick(que por sinal o escritor não gostou e achou de fazer uma versão muito ruim).

         Um filme insinuante. E bem dirigido, com um grupo de atores novatos que promete, em especial Jack Grazer(Eddie) e a muito bonita Sophia Lillis(Bev). Vale as duas horas que v. passa no cinema aturando comerciais e trailers que em sua maioria nunca serão exibidos em  nossas salas de shopping; 

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Relendo Frantz

"Frantz" está sendo exibido agora no cine Libero Luxardo. Vale a pena reler o que eu escrevi sobre ele:
"Quando eu exibi em casa,no meu Cine Bandeirante, a copia 16mm de “Não Matarás!” filme de Ernst Lubitsch, fiquei comovido com o que vi. O drama de um soldado francês que depois da I Guerra Mundial resolve ia à Berlim pedir desculpas aos pais de um soldado alemão que ele matou durante o conflito. O interprete do pai do soldado morto era Lionel Barrymore. O filme vinha de um texto de Reginald Berkeley e a produção era de 1932. Hoje eu vejo a nova versão, “Frantz” do cineasta francês François Ozon. Quase o mesmo argumento, recebendo tratamento no roteiro do diretor e de Philippe Piazzo. Só que Ozon estica a historia e se vê o soldado francês como um homem noivo em sua terra, longe de corresponder ao amor que lhe passa a dedicar a namorada do alemão que matou. Em “Frantz” há sequencias da jovem que chorara a morte do amado e já  estava aceitando o francês como novo amor, procurando o rapaz em Paris e deparando-se com uma realidade que preferira esquecer.
         Também o nome do soldado morto que dá titulo ao novo filme é outro na versão de Libitsch:chama-se Walter. E o ultimo plano é dos velhos pais dele abraçados e emocionados com um numero de violino e piano executado pelo visitante que jamais diz a eles ser o assassino de seu filho, e da filha que perdoa o crime de guerra.
         Os dois filmes possuem qualidades estéticas distintas. Em Libitsch a iluminação expressionista ajuda na ênfase do drama relatado. Mas Ozon usa a cor nos momentos em que se evoca Frantz, especialmente quando é personagem de um falso relato de seu assassino(se é que se chamava assim o atuante em guerra).
         A historia visa a dimensão maravilhosa do perdão. Foi difícil os alemães aceitarem os antagonistas no conflito de 1914-18. Até porque a Alemanha perdeu territórios, ganhou uma hiperinflação, acabou ladeando para um governo tirânico que levaria o país a um conflito maior.
         Os dois filmes são marcantes. E o de Ozon ganha a difícil tarefa de voltar a um assunto que deu margem a um clássico do inicio do cinema falado."

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Adão e Annabelle

Vendo ‘Assassin’s Creed”, filme baseado em um videogame que resvala o prestigio de Marion Cotillard e de Jeremy Irons, lembrei de uma das muitas marchas de carnaval que mexia com o Gênesis. Uma dela foi “Adão e Eva”,de Rutinaldo, gravada por Cauby Peixoto.Perguntava “se a Eva era branca como é que nasceu o Pelé”. E encerrava: “..na macieira tambem dava Jamelão”(atendendo ao cantor que aqui em Belém lançou o clássico “Ela disse-me assim” de Lupicinio Rodrigues). Pois no filme Templários e o grupo Assassinos buscam a maçã edênica. E acham!...
        A bobagem que eu não sei se funcionou em game porque eu não jogo isso, ganhou estrutura de blockbuster e muitas lutas a cargo do galã Michael Fassbender. Ainda bem que não perdi meu tempo vendo a coisa num cinema. Alias ando guardando horas desprezando sessões de cine-shopping. Cinema em casa tem entre muitas vantagens acelerar as sequencias quando se trata de porcaria.
        E por citar porcaria, que tal a volta da Annabelle ? Só no circuito perto de onde eu moro a coisa ganhou 5 salas em sua 2ª. semana. Bonecos malvados surgem desde o Chuky (lembram ?) . Aliás teve coisa mais velha. É tentador meter medo em criança que brinca com boneco. Imaginem a Barby diabólica...
        Há filmes bons. O problema é que a distribuição, hoje, seguindo de perto o box-office americano, é toda controlada pelas grandes distribuidoras. Elas que já cantavam de galo antigamente agora urram.
        Saudades do bom cinema sem cadeira numerada, sem sessões tão distantes umas das outras, sem a simultaneidade que se vê graças às copias digitais.

        Ganham as salas alternativas. Aqui, agora, capitaneadas pelo Libero. O Estação, com projetor moderno, pifou com a mudança de programador...

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Nem Tudo é Vigilia

Na mostra de filmes espanhois que o Olympia exibirá em setembro um titulo me impressionou bastante: “Nem Tudo é Vigília”(Nio Todo es Vigilia) de Hermes Parallusio.
O assunto é a velhice. Os avós do cineasta são focalizados como parte de um tipo de documentário. Começa com o homem no hospital e a mulher dele visitando-o. Depois, já em casa, os dois são vistos na forma que a idade lhes deixou: ela sempre usando um andador, ele andando lentamente para não cair, ela falando muito dos tempos passados, ele comentando em síntese. Perto do fim do filme, uma narrativa extremamente lenta que acompanha dessa forma a rotina dos velhinhos, a câmera fixa-se no quadro deles jovens, em tempo de casamento. Segundo dizem já faz mais de 60 anos. O enfoque com musica de fundo ganha perto de 5 minutos na tela. Depois se vê o casal saindo de casa e falando do passado.  Nada acontece de gravidade. É simplesmente o enfoque da vida em crepúsculo, da resistência dos órgãos ao desgaste natural do tempo. A lembrança do silogismo irregular que diz “a vida é um conjunto de fatores que resiste à morte”.

                Triste e ao mesmo tempo lírico, o filme é difícil de degustar como peça de cinema. Mas é o quadro realista do passar do tempo para certas pessoas. Com paciência, vejam.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Macacos lhes mordam

Não sei se Pierre Boulle ao escrever “O Planeta dos Macacos” marcou geograficamente o local onde pousa a astronave que navegou na velocidade da luz e adentrou um  futuro onde os macacos predominam. Pelo filme de Franklin Schaffner a ação se passa nos EUA. Tanto que mp emblemático final Charlton Heston descobre a Estatua da Liberdade naufragada( e grita: “-Vocês fizeram isto..”). E o resto do mundo? Será que no Brasil a macacada derrubou o Cristo Redentor no Rio ?Por sinal que em nossa casa já estão macaqueando na politica.
                O filme que está nas telas internacionais e pretende ser o fecho da série em que os símios lutam com os humanos e ganham a  guerra, não diz que foi a macacada quem derrubou “Miss Liberty”. Seriam mesmo os humanos, e se Boulle escreveu assim ele usou a estatua de NY  como metáfora. Mas se o filme atual quer ser o fim de uma trilogia (?) comercialmente rentável a ação fica restrita ao cenário norte-americano. Hoje, com Trump, pode até ser uma critica (embora o filme tenha sido feito no governo Obama). De qualquer forma o roteiro é bobo, preferindo a ação, e a linha dorsal da obra do escritor de “A Ponte do rio Kwai” resta uma piada sobre a Teoria Evolucionista (no caso Involucionista).

                Esta “Planeta dos Macacos, a Guerra”  é outra perda de tempo nas telonas povoadas de ação para garotada de menos de 12 anos.Felizmente não faturou o que os produtores esperavam. A coisa deve ter mesmo terminada. Amem.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Os Meninos que Engavam os Nazistas

 Quando da ocupação da França pelos nazistas os irmãos judeus Maurice (Batyste Fleurial) e Joseph (Diruan Le Clech) fogem de seu sitio driblando a perseguição alemã. O filme “Os Meninos que Engavam os Nazistas”(Um Sac des Billes), dirigido por Christian Duguay, ganhou no circuito Cinepolis apenas uma sala no nordeste.  Hoje nem mais se lamenta o tipo de lançamento, pois é usual na ótica de que só fatura blockbuster americano. Resta perseguir o filme em download.  E vale a pena achar. Com uma reconstituição histórica bem definida e atores capazes o trabalho do diretor canadense de “A Cilada” impressiona. Não chega a se inserir perpetuamente na memoria como alguns filmes de guerra com crianças à maneira de “Brinquedo Proibido”(Jeux Interdits) de René Clément, mas dá o recado de um dos males do holocausto. No panorama raquítico das estreias atuais ganharia posto para figurar entre os bons programas do ano.

Esperem o dvd.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Jerry Lewis

                Jerry Lewis morreu aos 91 depois de sofrer varias doenças graves, desde problemas cardíacos a um câncer de próstata. Depois que deixou de ser o palhaço de plantão para Dean Martin passou na dirigir seus filmes e inventar cinema. Em “O Terror das Mulheres”(Le Ladies Man) por exemplo, construiu um edifício no set sem paredes laterais. Assim a câmera podia subir e descer os andares sem cortar plano (chama-se plano-sequencia). Também chegou a filmar e gravar em tape ao mesmo tempo permitindo edição rápida.
                Seu filme “O Dia em que o Palhaço Chorou”,uma obra-prima segundo os felizardos que viram, foi cancelado por ele “até 2025”. Não se sabe o motivo. Trata de um palhaço num campo de concentração nazista que fazia rir os condenados a morte.

                Creio que agora as distribuidoras de vídeo devem lançar coleções de filmes de Lewis. É tentação para colecionadores que deixaram escapar algum titulo na sua estante.

domingo, 20 de agosto de 2017

A Nova Mumia

                A Universal através do produtor e também diretor Alex Kurtzman, vem fazendo replay de seus sucessos comerciais nos anos 30, os afamados “filmes de monstros”. Estes filmes foram encomendados nesse  tempo pelo filho do fundador do estúdio,Carl Leammle, que teria assumido a empresa como presente de aniversário do pai, um alemão pioneiro de Hollywood. Agora a ideia comercial foi refazer os filmes com a tecnologia moderna. E veio este “A Mumia”(The Mummy) como virão Frankenstein, Homem Inivisivel e Dracula. O problema é que o roteiro da nova produção é um primor de bobagem.Quatro escribas adaptaram o que escreveu Jon Spaights, Alex Kurtman e Jenny Lumet, tudo gente nova. Interessante é que Tom Cruise entrou no projeto e faz um mocinho que dá cambalhotas improváveis em quem já soma 55 anos. A trama, abordando uma princesa egípcia que fez pacto com o diabo e está sepultada numa caverna, é de uma inventividade de folhinha usada. Tudo para gerar caretas e cenas de ação, coisas que ainda faturam diante de uma plateia juvenil. Mas alto lá: “A Mumia”de 2017 não andou bem nas bilheterias de origem, Mal sinal para a monstrada que virá.

                O filme chegou aos cinemas de Belém abertos sempre a blockbuster. Pior não existe. Lembro-me de algumas sequencias dos seriados de Sam Katzman. Não sei quanto deram a Tom Cruise, mas arriscar prestigio no tipo bomba. Melhor será se o fracasso estimule a desistência e refazer os outros filmes de monstros que marcaram a Universal. Falta faz Boris Karloff e Bela Lugosi...

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Dunkirk

 O cinema já havia abordado a Retirada de Dunquerque , especialmente no filme de 1958 dirigido por Leslie Norman com Richard Attenborough, John Mills e Bernard Lee.Mas a lembrança que eu tenho desse filme foge diante da maestria de Christopher Nolan no seu “Dunkirk” que felizmente chegou aos nossos cinemas.
                Nolan gastou milhões na recriação do episódio da 2ª.Guerra quando militares ingleses e franceses (principalmente ingleses) saíram de Dunquerque rumo à Inglaterra quando os alemães estavam às portas. Esta operação pedida por Churchill indicou para alguns, na época(1940) uma derrota. Mas foi o modo de evitar que Hitler invadisse Londres(como acabou fazendo com Paris).
                O filme é detalhado na reconstituição dos fatos. Multidão de figurantes fazem os soldados que tentavam desesperadamente fugir do fogo alemão, já evidente, apegando-se a barcos particulares que muito ajudaram na escapada. Em detalhes poucos personagens, e no caso a ficção auxilia a composição de um quadro histórico.
                Poucos filmes de guerra são tão minuciosos. Nolan dilui a “patriotada” comum no gênero quando feito na velha Hollywood(e mesmo por Pinewood) e chega a dar suspense no modo como enquadra a resistência dos rapazes que tentavam de todas as maneiras escapar dos panzer germânicos que já se faziam ouvir. Também se observa o papel da RAF, com os poucos pilotos ingleses combatendo os aviões nazistas que bombardeavam os fugitivos. Nesse quadro há até uma sequencia emocionante: a do piloto que vê seu aparelho ficar sem combustível e mesmo planando conseguir salvar soldados fugitivos e pousar na praia. Tambem o aeronauta que ao cair no mar não consegue abrir sua cabine e é salvo por um barco pesqueiro.

                O filme foi aplaudido na sessão em que eu estive. E a sala estava lotada, com poltronas tomadas até na primeira fila. Raridade em estado de graça. “Dunkirk”é a obra-prima do diretor de “Interestelar” e há quem o veja como candidato ao próximo Oscar. Nada mais aplaudível.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Franceses

“Outsider” de Christophe Barratier é mais um filme sobre golpes econômicos. O foco é a bolsa francesa onde um jovem funcionário consegue captar 1 bi e meio de euros e estremece o mercado quando há uma queda nas vendas.
É o tipo do filme para economistas. Quem desconhece as manhas da profissão vai sair sobrando do cinema. Mas a narrativa é dinâmica e o desempenho dos atores muito bom, especialmente de Arthur Dupont que faz Jerome, o novato esperto. O filme está no Olympia em distribuição da Cinemateca Francesa e vai ser sucedido por “Boybuilder”, da mesma fonte distribuidora, este dirigido por Roschid Zem e focalizando halterofilistas que se preparam para um concurso de preparo físico, no caso especial atenção pelo idoso(mais de 50 anos) que se vê às voltas com dois filhos, especialmente o mais novo que já tem entrada na policia.
                Nada de memorável mas esmero artesanal que gera a impressão de documentário. No caso de “Boybuilder” que se pode traduzir como “Físico construído” está um prologo com Arnold Schwarzenegger o ícone do gênero.
               


terça-feira, 25 de julho de 2017

Mulher Maravilha

Filhas de Hipólita com Zeus ou criada a partir de uma estatua Diana, desde criança, sabia lutar e defender as mulheres da ilha Paraiso onde sempre morou. Essa trama surgiu em quadrinhos por volta de 1941. Chegou à DC Comics e hoje faz parte do elenco de super-heróis da empresa ao lado de Superman e Batman. Claro que viraria filme. E deu este que passou mais de mês em cartaz na nossa Belém e mundo afora já faturou US$1 bi, ganhando alguns de seus colegas de tela grande. A direção soube a californiana Patty Jenkins e o roteiro apoiado em Zack Snider.               
                O filme é mais um espetáculo de ação feito pelos atuais estúdios de cinema americano visando a plateia juvenil. No caso é uma licença feminina aos espetáculos dos colegas machões. E se é bem administrado não deixa nenhum subsidio além do que se viu nos gibis. Quem pensava que amazona era raça brasileira vai aprendendo grego. Mas em termos de cinema recebe licenças como um flerte da deusa lutadora com um piloto de avião perdido durante a guerra(a 2ª. mundial). Nada que implique num romance entre cenas de lutas. É mesmo um parêntesis para dar mais chance comercial ao produto (e as femeas, no caso, não são apenas as que vivem bem obrigado na ilha onde nasceu e vive a heroína).

                Cinema comercial de hoje é isso mesmo. Quando eu era garotinho esperava filme dos heróis da HQ com certa ansiedade. Vinham em seriados modestos. Hoje, os afortunados netos recebem essa gente em telas grandes, 3D e CGI à vontade. É o cinema de  feira, de nada mais que diversão inconsequente. Pensando desse jeito vale olhar a Mulher Maravilha. E já vem uma sequencia da mesma diretora.... 

sábado, 22 de julho de 2017

De Canção em Cansaço

              Há filmes em que o diretor-roteirista deve apresentar pessoalmente ao publico para explicar o que ele quis dizer. Ou mostrar. O caso deste “De Canção em Canção”(Song to Song) de Terrence Malick. O que eu vi foram planos desconexos de Rooney Mara se esfregando em Michael Fassbender e Ryan Gosling alternados por paisagens de Austin(Texas), o local das filmagens. Rooney controlaria os dois mas ainda há espaço, da parte de um deles, para um esfregaço com Natalie Portman e até Cate Blanchett. Não sei quem deseja quem ou mantenha um romance com quem ao som de um repertorio musical que eu só penso ser musica pelo cuidado da legenda em especificar que é isso.
                O filme cobra duas horas de folia formal sem dizer a que veio porque não possui uma historia. É uma pretensa folia amorosa que nem se dá ao luxo de dizer o que fazem as personagens na vida boa que levam.
                Não gosto desse tipo de cinema experimental. Detesto Godard e seus acólitos. Terrence Malick que já fez excelentes filmes, cai nesse tom. Faz cinema de festival e isso quer dizer filme para publico que  adora decifrar charadas cinematográficas elogiando detalhes que escapam a sensibilidade dos pobres mortais da plateia (eu no grupo).

                “Song to Song” pode até chamar a atenção dos que aplaudiram musicais modernos como “La La Land”. Mas eles tinham um fio de meada sustentando acordes. Aqui, na farra de Malick, nada se sustenta. São planos manuais independentes  montados de forma acronologica  . Eu sinceramente não entendi o que vi. Nem senti, exceto que estava perdendo tempo. Saco!

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Ficção e Realidade

                Quem gosta de ficção cientifica deve comprar a coleção de dvd com a série “Cosmos” de Carl Sagan. Esta série chegou até nós no fim do século passado e quem viu alguns episódios na TV, como eu, admirou a facilidade com que o apresentador (e autor do argumento) via a astronomia e a física de um modo geral, mostrando como a gente é pequena no universo, como se substancia o pensamento dele (“eu não quero crer, eu quero entender”).
                Se a ciência ganha espaço popular em “Cosmos” alguns filmes de sci-fi aborrecem como este “Paralisia” que anda por aí em dvd copiado da faixa Netflix. Ali uma viagem no tempo leva pessoas do futuro ao nosso ano para tentar abortar uma guerra nuclear que diminuirá sobremodo a população da Terra. Este assunto já foi muitas vezes abordado mas desta vez, com os viajantes no tempo tomando corpos de pessoas atuais, perde-se na absoluta falta de senso do argumento, abrindo furos por todos os lados no contraste de épocas (ou o quanto se pode influir no futuro alterando o passado.
                Nem vale a pena decorar nomes de autores (e atores). Tudo é ruim.
                Melhor em DVD é “Ninguém Deseja a Noite”(Nadie Quiere la Noche), biografia fantasiada da mulher do explorador do polo norte, Robert Peary, chamada Josephine, dama da classe média alta americana que se mete no gelo em busca do marido que pretende fincar a bandeira do país no teto do mundo. O filme escrito pelo espanhol  Miguel Barros e dirigido pela catalã Isabel Coixet tem em Juliette Binoche e na fotografia de Jean Claude Larrieux o seu amparo. Também se salienta a jovem japonesa Rinko Kikushi que faz a esquimó Allaka, amiga de Josephine a mãe de um filho possivelmente deixado em seu ventre pelo explorador Robert.
A “cor local” está presente e a narrativa consegue driblar a monotonia de uma unidade de lugar. O filme não chegou aos cinemas locais, o que não é de espantar.           

                                

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Z, A Cidade Perdida

                O filme “Z, A Cidade Perdida”(The Lost City of Z/ Ingl.2016) passou correndo pelos circuitos de shopping existentes em Belém. E o curioso é que não agradou ao grande publico (quem viu afirmou que não gostou);. Na verdade poucos sabiam da historia do coronel inglês Percy Harrison Fawett que em 1925 sumiu na selva amazônica com seu filho Jack e um amigo. Eles procuravam uma suposta cidade perdida na mata e no livro de Davida Grann que deu margem ao roteiro do diretor James Gray eles acabaram capturados por índios e levados a um sacrifício que a narrativa cinematográfica não explicita(fica uma reticencia poética).
                O mistério em torno dos Fawcett não terminou  quando a ossada encontrada pelo sertanista Villas Boas que recebeu de índios Kalapalo ossos de “estrangeiros” não recebeu exame de DNA pela recusa de parentes do inglês desaparecido (a mulher dele é vista no ultimo plano do filme divagando pela possível vivencia do marido em uma terra estranha). O filme também se despede dos Fawcett(pai e filho) quando eles seguem em padiolas, guiados pelos índios antropófagos para um lugar que não é explicito e está no meio da taba entre sinais luminosos dos habitantes em uma noite.
                Gray filmou em locais distantes da nossa Amazônia. Mas o espaço não trai a imagem que a gente conhece. E quem acompanhou a odisseia de Fawcett por jornais e revistas ao longo dos anos (foram muitas expedições atrás dele) não se sentem frustrados. Há um cuidado cenográfico muito bom auxiliado por uma fotografia que capricha na luminosidade parca da selva circundante.
                O filme pode cansar quando detalha a vida de Fawcett antes da aventura que lhe fez sair da vida (pelo menos da civilizada), mas tudo é necessário. Um trabalho de folego(mais de 2 horas de projeção) que situa entre os melhores de tema amazônico.
                Quem não chegou a ver o filme nos cinemas (horários compatíveis só em copias dubladas) ganha chance em dvd. Ressalto o trabalho do ator Charlie Hunnan (de “Filhos da Esperança”). Não é bem o Fawcett que se viu em fotos de jornais mas dá força ao personagem.

                Um bom filme de um tema sempre interessante.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Frantz

Quando eu exibi em casa,no meu Cine Bandeirante, a copia 16mm de “Não Matarás!” filme de Ernst Lubitsch, fiquei comovido com o que vi. O drama de um soldado francês que depois da I Guerra Mundial resolve ia à Berlim pedir desculpas aos pais de um soldado alemão que ele matou durante o conflito. O interprete do pai do soldado morto era Lionel Barrymore. O filme vinha de um texto de Reginald Berkeley e a produção era de 1932. Hoje eu vejo a nova versão, “Frantz” do cineasta francês François Ozon. Quase o mesmo argumento, recebendo tratamento no roteiro do diretor e de Philippe Piazzo. Só que Ozon estica a historia e se vê o soldado francês como um homem noivo em sua terra, longe de corresponder ao amor que lhe passa a dedicar a namorada do alemão que matou. Em “Frantz” há sequencias da jovem que chorara a morte do amado e já  estava aceitando o francês como novo amor, procurando o rapaz em Paris e deparando-se com uma realidade que preferira esquecer.
         Também o nome do soldado morto que dá titulo ao novo filme é outro na versão de Libitsch:chama-se Walter. E o ultimo plano é dos velhos pais dele abraçados e emocionados com um numero de violino e piano executado pelo visitante que jamais diz a eles ser o assassino de seu filho, e da filha que perdoa o crime de guerra.
         Os dois filmes possuem qualidades estéticas distintas. Em Libitsch a iluminação expressionista ajuda na ênfase do drama relatado. Mas Ozon usa a cor nos momentos em que se evoca Frantz, especialmente quando é personagem de um falso relato de seu assassino(se é que se chamava assim o atuante em guerra).
         A historia visa a dimensão maravilhosa do perdão. Foi difícil os alemães aceitarem os antagonistas no conflito de 1914-18. Até porque a Alemanha perdeu territórios, ganhou uma hiperinflação, acabou ladeando para um governo tirânico que levaria o país a um conflito maior.
         Os dois filmes são marcantes. E o de Ozon ganha a difícil tarefa de voltar a um assunto que deu margem a um clássico do inicio do cinema falado.



segunda-feira, 26 de junho de 2017

O Circulo

                Quando o próprio escritor de um livro escreve o roteiro de um filme que aborda este livro é indesculpável certas gafes. O caso de Dave Eggers e seu “The Circle”(O Circulo), cartaz dos cinemas brasileiros nesta ultima semana de junho.
                A ideia básica tem a ver com  “Snowden” aquela historia do nerd que inventou um modo de penetrar a internet na vida das pessoas, ou seja, rifar a privacidade. Aqui é uma organização fictícia que apresenta uma pequena câmera capaz de ser produzida aos montes e de forma barata (parece um caroço ) capaz de monitorar tudo e todos desde que colocada em locais hábeis. Essa organização, chamada “Circulo”, emprega uma jovem que precisa de amparo com o pai doente (seria esclerose múltipla sem que o quadro exposto satisfaça) e a mãe sem meios de manter a família. Esta jovem fica sabendo dos pros e contras do projeto, os contra através de um técnico que trabalhou no inicio da coisa e hoje critica o resultado mantendo-se como um fantasma no subsolo do prédio onde funciona a base do tal circulo. A garota , que costuma passear de caiaque no rio próximo, sempre roubando os barcos, ganha a simpatia dos seus superiores mas acaba por assumir uma postura critica quando vê morrer seu namorado graças ao processo de bisbilhotara vida dele. Mesmo assim, mesmo dizendo que as câmeras devem penetrar nas contas bancárias de seus chefes, ela volta a um caiaque e o ultimo plano do filme é um painel de imagens captada pelas câmeras indiscretas,uma delas com sua própria imagem sorridente
                O roteiro dança na exposição de um tema que salta de, por exemplo, o “1984” de George Orwell . Também foi abordado em “Brazil” de Terry Gilliam. Nesses casos, até pelo tempo de edição, a falta de privacidade ganha um tom critico. No filme de agora, dirigido sem inspiração por James Ponsoldt, de filmografia pequena, o conteúdo polemico passa como uma aventura de mocinha de classe média-baixa que ambiciona uma posição na escala social e não demonstra interesse pelo  efeito colateral de seu novo trabalho. Mesmo à custa de um romance que se mostra extremamente reticente a ponto de não se dimensionar até que ponto a moça (Mae/ Emma Watson) gosta do namorado.
                Tom Hanks aparece pouco como um dos donos do projeto técnico. Quem está em quase todos os planos é Emma Watson, fancesa que se deu bem em Hollywood com a série Herry Potter e este ano chegou a ser a Bela da nova versão (ou Disney version) de “A Bela e a Fera”), É tanto enfoque de Emma que cansa quem (a) vê. E o esforço da atriz apenas contabiliza a fraqueza da trama, dando a entender no final contraditório que ela prefere continuar roubando caiaques e que se f... as criaturas espiadas (ela inclusive) pelas objetivas de espionagem montadas pelos donos de dólares.
                Acompanhar a narrativa é fácil, a produção se dá ao luxo de um auditório imenso (que por sinal se repete em mais de uma sequencia) , mas a ideia interessante de se denunciar um esquema imoral não chega a enfatizar que o tal esquema  continua com toda a amostragem de que é nocivo. Chega a ser desperdiçado um fato de que as câmeras bisbilhoteiras só respeitam os sanitários. Poderia dizer que só quem se livra do espião de suas vidas é quem está cagando... (ou, inadvertidamente, de que o filme, para ser projetado, precisa ser uma merda).

                Afinal ninguém sai do cinema sabendo o que mr. Eggers quis dizer. Pode ser que advogue a ideia de que as grandes manobras cientificas, desde que amparadas na politica dominante, são invencíveis. E nem se coloca a imagem de Batman nas nuvens da cidade-ou se mencione a eleição de Trump.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Neo melodramas & Mostras Européias

A formula de “A Culpa é das Estrelas”(The Fault in our Stars), filme de Josh Boone de um livro de John Green, deu certo, ou seja, deu dólares. Hoje os filmes românticos não estão mais afeitos a  um “happy end” tão agradável aos nossos avós. Hoje se encerram os melodramas com alfinetadas realistas e é isto que se vê em “Antes que eu vá” e agora “Tudo e Todas as Coisas”. Nesse tom os enamorados devem seguir mais de perto o casal de “Love Story” e a intenção é comover a plateia.

                O cinema comercial vive de formulas. Revejam “Barton Fink” e constatem que a indústria pensa no lucro através do que fez sucesso na mesma fabrica em passado muitas vezes vizinho no tempo. Em geral o que se vê em telona deriva entre super-herói que pode ser dos quadrinhos Marvel ou DC e tramas onde o vilão é um terrorista. Claro que se fala do cinema norte-americano, a ponto dele influir em produtos de outras plagas. Mas é até por isso bom que se veja os filmes das mostras Varilux e Européia que estão em Belém neste meio de ano. Da segunda eu gostei especialmente do representante da Croácia, “O Caminho de Halima”, e acho que o publico vai gostar ainda mais de “Marie Kroyer”do veterano Bille August(da Dinamarca). Muito bom também é “Hannah Arendt”, que já esteve aqui, dirigido por Margarethe Von Trotta sobre a mulher judia que ousou defender argumentos expostos pelo nazista Adolf Eichman. De um modo geral o extenso programa merece ser visto. É o remédio para a intoxicação de coisas como a nova versão de “A Múmia” ou do Rei Arthur ou outras franquias feitas para faturar fácil a partir de quem vê cinema para não pensar.

domingo, 18 de junho de 2017

A Viagem de Fanny

Fanny, 12 anos, lidera crianças judias que fogem da França ocupada pelos alemães, em 1943, buscando a Suiça, paía neutro na 2ª.Guerra Mundial. O filme “A Viagem de Fammy”(Le Voyage de Fanny) baseado em fatos reais, com a licença de surgir nos créditos de encerramento a verdadeira personagem, é tratado numa linguagem dinâmica embora o roteiro se conforme com diversos furos que certamente não foram vividos pela verdadeira personagem.
                Na época das vacas magras em cinema comercial, o filme dirigido por Lola Doillon de um roteiro dela com base no livro biográfico de Fanny Ben-Ami (no filme interpretada bem por Léonni Souchaud) é agradável de se ver. O elenco se porta bem e as inverossimilhanças passam com as bênçãos de uma plateia que torce para que a garotada consiga chegar a seu destino. Mas a hoje sra. Fanny deve explicar melhor como é que a turma saía molhada de um banho em rio, enxugava a roupa no corpo, fazia as suas necessidades fisiológicas em um pequeno espaço e só se queixava da temperatura ambiente, enfim, como conseguia manter o animo numa odisseia de quilômetros a pé  com o perigo cercando.

                O filme faz parte do Festival Variloux deste ano. Este programa, mais o Festival Europeu que chega ao Olympia, salvam cinema para quem gosta desta arte. Afora isso é tentar achar graça da Mulher Maravilha ou de Tom Cruise entre múmias. 

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Antes que Ela Vá

“Antes que eu Vá(Before I Fall) repete a trama de “Feitiço do Tempo”(Grounthog Day) filme de 1993 dirigido por Harold Ramis de um argumento de Danny Rubin. Naquela comédia bem bolada, Bill Murray volta varias vezes ao começo do “Dia da Marmota”(cultura local) e em cada volta revitaliza suas atitudes. Agora, com direção de Ry Russo-Young e trama de Lauren Oliver (um livro), conta a historia de Sam (Zoei Deutch) uma jovem estudante que ao acordar no Dia dos Namorados passa a conviver com fatos que lhe comprometem, reprisando-os a cada noite como que “purgando os pecados”.Chega até mesmo a salvar uma colega menosprezada por sua turma.
                A novidade no filme é que Sam (Samantha) não termina acordando numa boa, refeita de suas mancadas. Ela realmente “parte”. E antes que receba um grau de bondade capaz de leva-la ao céu religioso(felizmente não se menciona isso), muda o caráter.
                Na primeira sequencia a gente vê a moça tratado mal a irmã menor que lhe pede uma opinião. Isto vai mudar nas reprises do dia. Família e outros amores são repensados e a conduta da personagem é como uma lição espiritual digna de setores catequéticos( seja de que setor religioso se aninhe).
                Pela estruturação do roteiro e o esforço da principal interprete o filme foge da linha comum de espetáculos do tipo “Graça”(firma especializada em cinema carola) . É interessante até pelo ritmo conseguido pela diretora. Esteve nos cinemas locais mas não cativou fãs de “Crepúsculo”, “...Tons de Cinza” & adjacentes. Passou correndo. Bom sinal: hoje as plateias querem coisas extremamente digeríveis, saídas de livros que lembram as finadas coleções “Das Moças” como obras de M. Delly,espécies que hoje podem estar na tv em sessão da tarde.

                Vi em casa, pois no cinema a copia legendada foi rara. E eu imagino a xaropada da dublagem....

terça-feira, 6 de junho de 2017

Tela pequena

                Não tinha visto nos cinemas quando esteve em cartaz recentemente “4 Vidas de Um Cachorro”, filme dirigido pelo sueco Lasse Hallstrom . Vi agora em dvd. Divertido no toque melodramático que imagina encarnações de um cão e o regresso emotivo à uma dessas encarnações, justamente a que mais se demora em narrativa acadêmica de bom nível.
                Vi antecipadamente, pois nos cinemas pode ainda vai chegar(embora não esteja marcado),o interessante “Colossal” filme dirigido pelo espanhol Nacho Vigalongo. Um paralelismo entre a rotina de uma garota em Nova York com um monstro que ataca Seul, sua terra natal. Claro que o roteiro , do próprio diretor, usa de metáfora. Mas essa ideia não chega às ultimas consequências. No fim a moça vai ao lugar onde o monstro atua e o domina. É preciso isso numa figura moldada pelo cérebro de quem vive uma vida nada auspiciosa? O monstro interior que se pensa achar na historia ganha uma feição “realista” e as coisas ficam reticentes. Claro que o filme sai do trilho de espetáculos Marvel. É sempre interessante, mais como premissa do que poderia ser.

                                

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Sucessos de publico

Sempre gostei de pesquisar o gosto das plateias. Depois de ver “A Cabana” dei marcha a ré no tempo e vi “Minha Mãe é uma Peça 2”. Ambos se mantiveram em cartaz nas salas de shopping por muito tempo. E se o primeiro achei aquele “sermão” de pastor, com soluções fantasiosas que não via desde Joselito cantar para os acólitos de Franco, na Espanha dos anos 60 (e por aqui), o segundo me pareceu um desvio grotesco das velhas chanchadas.
                “Minha Mãe é uma Peça”no segundo tempo escrito e interpretado por Paulo Gustavo, mostra flashes de uma família de classe média carioca com alusões criticas que esbarram em preconceitos(especialmente com homossexuais). Gustavo como a sra. Herminia volta ao melhor travesti que se possa imaginar (em imagem). Muitas falas, alguns “palavrões”, enfim a busca da comicidade no grotesco, e isto em linguagem fragmentada com pouco a ficar de uma trama coesa.
                O filme é uma coisa difícil de aturar. Pelo menos para mim. Mas fez sucesso. As razões pascalinas, ou seja, as que a Razão desconhece, pululam. Ainda bem que vi essas coisas em casa, no meu dvd&bluray. Fosse na sala grande e por certo sairia no meio da sessão.

                Haja sacco(e até vanzetti).

sexta-feira, 26 de maio de 2017

A Última Gargalhada

Na época do cinema mudo dois títulos chegaram por aqui mostrando apenas imagens, sem intertítulos. Dois desses filmes prendem-se ao movimento chamado “kammerspiel” que na Alemanha entre guerras pronunciava um estado de paz utópico. O primeiro chamava-se “A Noite de S. Silvestre”(1924) de Lupu Pick. Era praticamente uma crônica do dia de ano novo sem o enfoque característico do em moda expressionismo, saindo a caminho do que seria o neorrealismo na exposição de fatos em luz clara captada pela câmera. O outro filme, dentro do movimento, basicamente uma resposta ao terror da linguagem que deu obras-primas na amostragem do horror que cabia na Alemanha da hiperinflação dos anos 1920, foi “A Última Gargalhada”(Der Letze Man/também de 1924) do já consagrado F. W. Murnau. Este ultimo vai ser reapresentado agora na Sessão com Musica do Olympia(ao piano Paulo José Campos de Melo).          
                Era raro fazer cinema puro, sem falas ou letras. As imagens diziam tudo. E elas registravam o drama do velho porteiro de um hotel que ao deixar o cargo para trabalhar na lavanderia do prédio era visto pela população como um derrotado. Não sei é onde nossos tradutores foram chamar “O ultimo homem” de “Ultima gargalhada”. Até porque o grande ator Emil Jannings não ria. Vestido como um oficial expõe seu drama sem precisar dizer o que sente. Um plano próximo deixa que se veja seu sofrimento físico. E o uso do preto e branco escapa do contraste caro ao expressionismo preferindo um enfoque real.
                Este “cinema de câmera” durou pouco. Viria o cinema falado e nos anos 1950 a Itália optou pelo que se chamou neorrealismo, com “historias de rua” a exemplo de “Ladrões de Bicicletas”.

                Conhecer historia do cinema parte por esses títulos básicos. Em boa hora são revistos atendendo aos jovens que se dedicam â essa arte.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A Cabana

                O sucesso popular do filme “A Cabana”(The Shack) moldado no livro de William P.Young e Wayne Jacobsen é invulgar quando se observa que numa praça como Belém, onde a carreira de filmes ambiciosos comercialmente não foge a 3 semanas em cartaz, ganha mais de um mês nas salas de shopping ficando, por exemplo, em todos os horários do maior espaço de uma delas por cerca de 5 semanas.
                Eu andava curioso em saber por que tanta gente gostou tanto do trabalho do diretor Stuart Hazeldine, sabendo, naturalmente, que a predileção cabe ao que se conta no livro, um desses best-sellers a lembrar  “Crepúsculo”, “...Tons de Cinza “e outras historias românticas com  toque de fantasia.
                Vendo o filme pensei até que a produtora fosse a Graça, especializada em obras religiosas. Um marido e pai tirano(Mack / Sam Worthington), no inicio da narrativa é apresentado como violento contra a mulher e o filho adolescente (o casal tem mais duas meninas). Logo a historia passa para a menina menor que num piquenique fica impressionada com uma historia de princesa que se atira numa cachoeira contada pelo pai. E esta menina desaparece. Ao mesmo tempo em que o filho quase morre afogado. Resumindo: a  garotinha é assassinada por um psicopata, o pai recebe uma carta dizendo que pode encontrar vestígios dela numa cabana na floresta.Nesta cabana ele  vai achar Deus. Só que Deus é Pa, uma mulher negra(papel de Octavia Spencer que a pouco havia feito uma das funcionarias da NASA em “Estrelas Além do Tempo”). Há o filho dela, um Jesus com cara de hippie (Avrahan Aviv Alush) e ainda  uma lembrança do Espirito Santo(Samire Matsubara).  O encontro com a divindade leva às confissões e redenção do personagem antes “durão”.
                É uma senhora dose de religiosidade não necessariamente dogmática. Não li o livro mas quem leu fala de momentos dramáticos que sensibilizam o leitor desde que ele seja um crente. O filme não me parece dessa forma. É de uma pieguice notória e não se desenvolve de forma criativa, enfatizando planos como um quadro de flores ou um céu estrelado como visões do Bem, uma alegação tão ingênua como os diálogos que diluem a problemática mais densa que cerca a vida do herói da trama.

                O tipo do filme para as choradeiras de plantão. Podia ser produção da Graça que não fazia feio com os espectadores dessa firma religiosa que vende bem em dvd.

domingo, 14 de maio de 2017

Autopsia

                O filme “Autopsia”, no original “Autopsy of Jane Doe”, começa errando em trocar necropsia por autopsia.  No meu tempo de faculdade de medicina um professor discorreu sobre esta gafe afirmando que não se pode fazer exame cadavérico de si mesmo (auto). O “necro” é o certo. Mas o roteiro do filme dirigido por Andre Ovredal escrito pela dupla Ian Goldberg e Richard Naing fica por aí mesmo porque nada tem de aula de anatomia patológica. O enredo trata de um cadáver de mulher que chega à uma funerária do interior de um estado norte-americano para que os anatomistas, pai e filho, saibam de que a jovem morreu (e se possível quem ela é). Os homens se espantam quando,depois de retirado o coração e os pulmões,observam, no cérebro, uma vascularização absolutamente improvável. Depois é que descobrem, lendo um papel encontrado miraculosamente no estomago da mulher, que se trata de uma feiticeira de Salem, casta lendária por sua magia de fazer inveja a qualquer herói da Marvel.
                Não adiante subterfugio: o filme termina por falta de personagens. Todos acompanham a bela defunta que, no fim das contas, nada tem de defunta (mesmo sem órgãos vitais).
                O objetivo é o terror. Não faltam os acordes em certos momentos e caras feias que vão de corpos mutilados a caretas dos vivos. Eu pensei que a trama ficasse no ato de abrir um corpo, na explicitude do exame cadavérico. Não é. É terror de almanaque, com ligeiras inovações que cabem mais da ausência de efeitos de CGI.

                Felizmente é um filme B, de menos de 90 minutos, que escapa da fauna de monstros que atualmente “moram”em outros planetas(olhem aí o novo Alien). Não cansa,não macula o bom senso nem é mal feito. Não vale é, como eu fiz, buscar uma copia legendada longe de onde eu moro .O melhor mesmo é esperar a edição em dvd.Ou baixar a coisa. Não dá em maldição de bruxa...

Brecha en el Silencio

A jovem Ana é surda-muda e sofre nas mãos de um padrasto que abusa sexualmente de mulheres próximas sem falar no maltrato à esposa. Ana passa o dia em frente à máquina de costura, garantindo o dinheiro para sustentar os irmãos menores temendo que o menor, que é sonambulo, acabe surdo como ela. Em desespero a jovem resolve fugir de casa levando consigo seus irmãos.
            “Brecha en el Silencio”, filme dos irmãos venezuelanos Luis Alejandro e Andrés Eduardo Rodriguez segue uma linguagem linear seguindo a formula neorrealista que tanto sucesso fez na Itália do após-guerra. Mas a utilização dos enquadramentos, com closes de personagens que refletem as excelentes interpretações, além da correta escolha cenográfica, retratando o ambiente miserável onde vivem as pessoas em foco, conseguem dimensionar muito bem o drama da deficiente que tenta impor um comportamento de revolta.
            No Brasil, e muito menos em Belém, pouco ou nada se viu do cinema que se faz na Venezuela. Este exemplar, dentro de um programa veiculado pela embaixada do país, revela um espaço adulto que merecia ser conhecido. Andou em alguns festivais com sucesso. Vale a pena vê-lo aqui, no Olympia.


quinta-feira, 11 de maio de 2017

Vida

                Criaturas extraterrenas são vilãs de filmes desde a época dos seriados. A vez de Alien, um monstro gosmento que se insere numa espaçonave e vai dizimando astronautas deu em série que ainda não acabou. Ridley Scott fez fortuna com este bicho e James Cameron dirigiu o melhor da franquia, antes de se consagrar como o timoneiro de Titanic. Agora com “Vida”(Life) o sueco Daniel Espinosa dá nome à pátria de seu alien, um marciano, e o apresenta como o resultado de um tecido encontrado no planeta vermelho e ampliado na estação espacial que estuda sua composição físico-química transformando-se no vilão que vai atacando os terrestres que lhe dão chance de multiplicar suas células.
                Basicamente nada de novo. Mas o filme escrito por Rhett Reese e Paul Wernick tem não só ritmo como pelo menos uma surpresa. É tão bem conduzido que por mais banal que possa parecer o enredo não há quem não se espante na plateia do cinema e no fim da sessão deixe aplausos.
                O que me fez não colocar este “Vida” no rol dos clássicos de um gênero é sucumbir ao modismo de exibir ruídos no espaço sideral. Tudo bem que muito se deve à trilha sonora, exacerbada na pretensão de fazer suspense. Mas ainda assim há momentos em que sons de choques no vácuo derrotem a noção cientifica de que isso não se produz além da atmosfera. Lembro mesmo que só Stanley Kubrick com o seu antológico “2001” mostrou um espaço mudo, ganhando todo o teor emocional que outros propuseram como se vê na cena em que o astronauta tenta entrar na sua nave-mãe e é obstado pelo computador-vilão. Tenho certeza de que a ausência de som em momentos de “Vida” seriam mais estimulantes do que acordes usados em filmes de terror rotineiros.

                Afora esse pecado sonoro o filme de Espinosa me surpreendeu. E seu fecho me pareceu um dos mais criativos da historia do gênero. Um momento que ficou isolado mas que pode fazer parte de uma obra-prima.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Corra!

 “Corra”(Get Out) é um filme de terror um pouco diferente da média. Coloca o racismo na pauta e focaliza em tom de ficção cientifica a odisseia de um modesto fotografo negro chamado Chris (Daniel Kaluuya) que namora uma garota branca de nome Rose (Alison Williams). O namoro alcança o ponto em que ela quer apresenta-lo aos pais. Ele teme por conta do preconceito em um estado sulista. Mas ao se dizer que o pai da moça gaba-se eleitor de Obama estimula o rapaz. A visita, no entanto, ganha um ar de mistério quando surgem empregados negros ajudando numa refeição. E quando pedem a Chris que se submeta à uma sessão de hipnose para curar seu vicio de fumante, surge o motivo básico da pretensa hegemonia. Dai em diante não se deve contar a trama. Poreja um quadro de horror digno dos filmes da Hammer inglesa (com ou sem Peter Cushing).
            Bons desempenhos, mascaras convincentes, boa edição de enquadramentos sóbrios e iluminação digna de filmes de horror no crescente da narrativa, dão pontos ao diretor Jordan Peele.

            Engraçado é que um amigo critico de cinema quando quer expressar sua admiração por um filme, convidando o leitor, diz “corra”(ao cinema). Aqui o “corra’ é para dentro da cena. No bojo do que se vê na tela. É terror de muito bom nível. Desta vez é pra correr mesmo.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Musicais

                Os melhores musicais norte-americanos estão no cinema Olympia, a maioria de volta ao espaço que os lançou comercialmente, marcando o 105° aniversário da casa.
                “Meias de Seda” tem dois monstros sagrados da dança: Fred Astaire e Cyd Charisse. O roteiro reprisa a historia de Ninotchka, o filme com Greta Garbo, mostrando Cyd como a soviética que vai a Paris disciplinar os russos que para ali foram enivados em missão diplomática e se acostumaram com as atrações turísticas (e sexuais). Nunca esqueci Peter Lorre dançando (ou fingindo que dança) e um numero antológico do casal de dançarinos. Foi um esforço do diretor veterano Rubem Mamoulian que se queixou do enquadramento cinemascope a que ele não estava acostumado.
                “Sete Noivas Para Sete Irmãos” pega o Rapto das Sabinas no oeste norte-americano com um grupo de hábeis dançarinos, como Russ Tamblyn, não só roubando as moças como construindo uma casa em passos de dança. Antológico.
                “Gigi” é o meu musical preferido e o ultimo da Metro. Venceu 9 Oscar,inaugurou aqui o Cine Palácio e não exibe danças mas o canto não tem jeito de opereta. Maurice Chevalier abre apresentando a menina imaginada pela escritora francesa Colette e que foi bem moldada por Leslie Caron. Louis Jourdan, morto em 2015 com mais de 90 anos, é o conquistador milionário que ao perceber a beleza adulta da garotinha Gigi que ele viu crescer dá margem à uma das mais belas canções do filme muito bem dirigido por Vincente Minnelli. Sempre bom de rever,
                E “Cantando na Chuva” hoje provoca lagrimas. Ver Debbie Reynolds muito jovem e bonita, sabendo que já se foi, dá um quadro de saudade ao dançar com Gene Kelly e Donald O’Connor,todos hoje dançando em outras nuvens.
                E há o belíssimo “Sinfonia de Paris”, outro vencedor de Oscar, com Gene Kelly co-dirigido e em momentos inspirados quando executa um final apoteótico.
                Esses musicais fizeram a alegria dos cinemeiros de ontem e eu os vi na estreia, ajudando a memoria de uma época.

                

terça-feira, 18 de abril de 2017

Sob as Sombras

                Filme  de terror não é apenas historias de monstros que surgem com acordes súbitos da trilha sonora para assustar o espectador propenso a isso desde que, ao comprar  ingresso do cinema já saiba que  gênero cobre seu programa. Há exemplos de filme de terror em que o medo chega de situações até mesmo triviais, adentrando em dramas ou comédias que não parecem propensos(as) a isso. O caso deste “Sob a Sombra” do iraniano Babak Anvari que por aqui só chegou em dvd.
                O roteiro, do próprio diretor, trata de uma jovem universitária do curso médico que é impedida de continuar seus estudos porque se meteu com a esquerda na Guerra do Iraque (Irã-Iraque) e que no ano da historia, 1954, ainda existe. Fadada a ficar em casa tomando conta da filha de 9 anos, ela se torna irada quando o marido, um médico que trabalha para o governo em cidades que sofrem ou não os horrores da guerra, diz que ‘é melhor assim”. Passando o tempo, a estudante guinada à dona de casa, passa a acompanhar a garotinha que lhe devota grande afeição, na crescente amostragem de figuras horrorosas que de inicio se prendem aos sonhos das duas depois passam a integrar o cotidiano a ponto delas fugirem do ambiente.
                O diretor estreia no longa-metragem (havia feito antes 3 curtas). E imprime uma atmosfera coerente com o pavor relatado. Ora é a fotografia esmaecida tendendo para o vermelho, ora são os enquadramentos que passam de comportados médios planos quando a família está reunida para uma profusão de cortes e manuais dimensionando o pavor crescente das mulheres solitárias num mundo em guerra, e ainda a trilha sonora que preza o silencio e jamais ganha tom nas cenas de medo. A batalha formal chega a um clímax onde se vê o telhado da casa das personagens virtualmente destruído. A guerra chegou ali, mas o terror pode ter chegado antes pois a idéia de insegurança gera verdadeiros monstros e há um plano de um deles debaixo da cama da menina.

                Enfim uma novidade num gênero aviltado com mesmices e/ou franquias deletáveis. Pena que só nos alcance para telas menores. Mesmo assim, e talvez até por isso, cumpra a sua missão .

sábado, 15 de abril de 2017

Manchester à beira mar

                Verdadeiro presente de Pascoa aos cinéfilos locais a exibição de “Manchester à Beira Mar” no Cine Libero Luxardo. Foi o dono do Oscar de ator(Casey Affleck)e narra a sensível historia de um rapaz que se encarrega do funeral do irmão e de tomar conta do sobrinho adolescente. Ele tem problemas pessoais em Manchester e é obrigado a encarar o cenário para cumprir uma obrigação familiar dramática.
                O filme escrito e dirigido por Kenneth Lonergan é desses que toca o coração. Difícil ficar alheio ao que é narrado e ainda mais pelo empenho dos atores, com Casey, o irmão de Ben Affleck, compondo exemplarmente o homem sofrido até pelo exilio forçado e a revelação de Lucas Hedge como o sobrinho que tem de tratar como filho.
                Nada me pareceu faltar a este filme que se eu pudesse interferir no páreo do Oscar o colocaria com muitos prêmios(ganhou o de ator). Um raro exemplo de linguagem simples e capaz de ser profunda sem apelar para os salamaleques de cineastas que fazem filme pensando em festival.
                Seria triste se esta obra-prima ficasse de fora da exibição normal em Belém e estava ameaçada disso, pois as salas comerciais a tinham levado a cidades vizinhas passando por cima da nossa que se envolve aos títulos dublados e vazios. Parabéns aos programadores do Libero.


terça-feira, 11 de abril de 2017

O Espaço Entre Cinema e Inteligencia

                Realmente faz falta roteirista como Richard Matheson. O filme “O Espaço Entre Nos”(The Space Between Us) parte de uma boa ideia e desperdiça essa ideia num emaranhado e furos que daria uma enciclopédia dos que pescam cochilos cinematográficos.
                A historia de Stwart Schill, Richard Barton e Alan Loeb passa pelo roteiro do ultimo como um menino nascido em Marte que deseja conhecer o pai na Terra(pois a mãe havia morrido por ocasião do parto) e ao chegar aqui sente todos os problemas físicos da diferença de gravidade e oxigenação. E mais: desde Marte, mexendo em computador, ele que já tem 16 anos, passa a namorar uma garota terrestre que lhe espera e no nosso planeta segue seus passos num namoro até que a dificuldade de adaptação leve o moço de volta ao mundo onde nasceu.
                Os furos são tantos que nem vale a pena mencionar um por um. Mas espanta quando se sabe que a mãe do marcianinho já embarcou gravida na nave espacial. E a viagem deve ter demorado mais tempo do que a gestação embora o parto só se tenha dado no planeta vermelho. Depois há um monte de facilidades, como as viagens interplanetárias, os carros sempre à disposição das personagens, e o caso médico do garoto, diagnosticado com cardiomegalia (coração grande)além de  ossos “finos”. Mesmo assim ele se salva de afogamento e espera viajar de volta ao seu mundo deixando a namoradinha triste.
                Uma trama que enfocasse as diferenças físicas dos que tentam viver nos dois planetas seria curiosa se levada um pouquinho mais para a ciência. O problema é que o filme apostou nos fãs de “Crepúsculo” e outras drogas românticas hoje vendidas não só em cinema como em literatura. Felizmente as plateias mundiais não embarcaram nessa nave espacial fajuta. Talvez porque o final do romance fique reticente. Se levassem a garota terrestre para viver com o amado no novo mundo por certo a bilheteria seria mais favorável. Mesmo apostando num realismo “cômico” nada se salva. Ainda bem que não perdi tempo indo a cinema ver essa coisa que chegou com mais copias dubladas (e eu penso no ridículo das falas...). Vi graças a internet. O caso volta a dizer que Hollywood perdeu a imaginação. Quando surge uma ideia interessante logo se apaga nas formulas que hoje se acham mais acessíveis aos garotos e garotas que pagam ingresso em cinema comercial.

                Ah sim, o diretor chama-se Peter Chelson. Inglês, já cometeu “Escrito nas Estrelas”.O melhor seria embarca-lo para um planeta de outra estrela, bem longe deste nosso mundo.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Para Ter Aonde Ir

Jorane Castro, que eu conheço desde criança, fez um longa autoral corajoso com “Para Ter Aonde Ir” seu primeiro longa-metragem. Pra começo de conversa ela conseguiu, através do seu fotografo Beto Martins, planos subaquáticos em rio, coisa que o Libero (Luxardo) tentou em “Marajó Barreira do Mar” mas desistiu pela recusa de Fernando Melo(na câmera);
O problema do filme de Jorane é a sua difícil comunicação com o grande publico. Sequencias longas como a da abertura (com a objetiva por trás da personagem que navega, deixando que se veja um rio amazônico) deve cansar o espectador comum. E a licença surrealista numa boate em Salinas não me pareceu se enquadrar no conjunto. Mas há verdadeiros desafios como uma tomada aérea do carro na estrada. E a condução das interpretes, em nível altamente profissional.
O tema adentra em estudo de caracteres com uma metáfora de base: uma ilha que surge uma vez por ano. As 3 mulheres, Eva, mostrada como a mulher madura mas com incertezas, Melina, que busca um amor e Keithylennye, grifada como a suburbana que desejou ser "dançarina de tecnobrega”, buscam essa ilha de felicidade que pouco se discute verbalmente ao longo de um “road movie”. Onde se passa mais tempo & espaço dramático é no encontro mãe e filho violonista numa barraca de Salinas. Seja a ser mais significativo na arquitetura do tipo do que a favelada que percorre as estivas com o filho no braço. Mas tudo é espaço para surgir a região. Há Belém, há estrada com a mata modulando, há belas imagens de praia oceânica inclusive a que fecha a viagem com as 3 à beira mar (endosso da metáfora base).
            O filme é desses que cada um pode ver de um jeito. Coragem da Jorane que não foi seduzida por um folclorismo nem caiu na armadilha de um Antonioni tupiniquim.
            Espero que o filme chegue aos cinemas comerciais.Agradeço a visão prévia.


segunda-feira, 27 de março de 2017

Neruda

Neruda,o filme, apresenta em primeira instancia a perseguição do poeta Pablo Neruda(Nobel de Literatura em 1971) pelo investigador Oscar Peluchonneau,uma espécie de Javert atrás de Jean Valjean como pintou Victor Hugo no seu “Les Miserables”.
Na Historia, com H maiúsculo, o Partido Comunista chileno e seus filiados foram perseguidos pelo governo de González Videla dentro da conhecida por  Ley Maldita,  apoiada na perda de direitos políticos, prisões e torturas como de praxe nos regimes ditatoriais (aconteceu no Chile e mais tarde em muitos países latino-americanos inclusive o Brasil).
 Neruda (interpretado por Luis Gnecco) é, no roteiro de Guillermo Calderon, um boêmio em certas horas, um politico comunista que chegou a ter cadeira no parlamento, e um tipo burguês apesar do apego idealista que mesmo assim tem capacidade física de se embrenhar no mato(é o termo)para fugir dos inimigos. Nada, a exceção do tipo físico, ao que se viu na pele do ator Pilippe Noiret em “O Carteiro e o Poeta”. E quem conhece a verdadeira biografia de Neruda acha uma aberração.
O cineasta Pablo Larrain vem se especializando em cinema politico. Pelo menos dois de seus trabalhos mereceram aplausos: “No”, sobre o plebiscito que pediu a saída de Pinochet do governo chileno, e “O Clube”, enfoque da pedofilia focalizando padres que atacaram crianças, reunidos em um retiro onde um elemento do alto clero tenta mudar suas atitudes. Abordagem muito mais densa do que no premiado “Spotlight”. Em “Neuruda” o cineasta segue a linha politica, mas no prisma histórico, tentando dimensionar um poeta internacionalmente famoso como pessoa física no cenário de terror que seguiu a sua própria atuação no governo de seu país.
A meu ver o que faltou na dosagem foi o roteiro. Não se sabe muito do Neruda proscrito do governo e de sua face “domestica”. O enfoque maior é a perseguição pelo policial que se mostra obsessivo  (bom trabalho de Gael Garcia Bernal). Tanto que a câmera se detém no cadáver do que seria o vilão, e mesmo deixar que se veja Neruda adiante do morto com um ar de piedade (e seria este o proposito ?).
Larrain deve prosseguir na sua obra dirigida aos dramas históricos de sua terra. A gente que pouco vê do cinema chileno tende a aplaudir. Mesmo que em casos como “Neruda” deixe alguns espaços vazios.