segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Yesterday


  “Yesterday” parte, através de um roteiro imaginoso de Richard Curtis, para uma premissa que lembra “A Felicidade Não se Compra”(It’s a Wonderful Life):o que seria no mundo se os Beatles não tivessem existido. É assim que o modesto compositor Jack (Himesh Patel) passa, depois de um acidente, a pensar e usar as musicas do conjunto inglês como suas, alimentando a paixão que tem pela modesta funcionária Ellie (Lily James) .
            O fato se dá na forma de um cataclismo com as luzes da cidade apagando por breve instante. E não é só o apagão dos Beatles mas até da Coca Cola. Isso não quer dizer que a vida em Liverpool prossiga normalmente e Jack vire um ídolo tocando algumas das principais canções do conjunto que marcou um tempo.
            A idéia de mostrar um cenário sem um ator principal não é nova mas sempre funciona. Pena é que a direção de Danny Boyle (“Quem quer ser um milionário”) não vá fundo nisso. E deixe furos, mesmo quando assina a fantasia e mostre o modesto compositor visitando John Lennon e vendo o Beatle com mais de 70 anos quando se sabe que ele foi assassinado aos 40. Seria um aceno poético que a narrativa não acompanha. O enredo acha melhor focar o romance de Jack com Ellen e marcar a cena em que ele confessa ser usurpador dos Beatles (dizendo quem é quem) e abandonando um palco adiante de multidão para ir ao encontro da amada que por sinal já está trilhando um caso com outro homem.
            O “esquecimento” dos compositores que marcaram uma época não ganha a dimensão que se podia achar. A musica dos Beatles impulsionou o rock e alimentou uma geração que demoliu velha arquitetura moral e impulsionou a criatividade não só no terreno musical. Como está no filme, trata-se apenas de um veio de compositores & canções que logo agrada a quem passa a conhecê-lo,  trocando Coca Cola pela concorrente Pepsi Cola e indo tudo bem num mundo sem graça (aliás não se espelha isso: todas as personagens vivem alegres num cenário que parece não sentir falta de quem compôs”Yesterday”e tantas outras joias da musica popular de um tempo -e ainda hoje lembrado).
            Seria interessante se o filme, seguindo a opção de apagar um episodio do passado mostrasse como isto fez falta ao presente e se as ideias apagadas permanecessem no ar experimentabdo o gosto da fama que viria embalado por uma licença poética moderna . No caso de “A Felicidade...” a vida sem George Bailey era colocada num mundo reacionário onde uma boate viraria um cinema exibindo “Os Sinos de Santa Maria”. Não é bem virar da esquerda para a direita mas uma concepção de liberdade através de gerações com os modelos seguindo acontecimentos que marcam tudo e todos.
            “Yesterday” é um filme instigante como um jogo em que se deixa a bola cair no meio do campo. Uma pena. Poderia ser tão bom quanto as canções evocadas.

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